15 de março de 2012

Somos todos artesãos

Todos os anos, quando se aproxima o dia 19 de março, considerado aqui no Brasil como o “Dia do Artesão” sinto-me compelido a fazer uma reflexão sobre este nobre ato "do fazer".

Como designer, já fui artista e como todo artista já fui artesão, pelo simples fato que o fazer pressupõe o domínio de uma ou mais ferramentas. E até recentemente todas as ferramentas eram operadas a partir de comandados da mão, que moldava a matéria ou criava as imagens. A primeira lição que se aprende na vida é usar as mãos. Do chucalho (um objeto qualquer que a mão movimente) até chegar na lua demos um pulo enquanto civilização.

Dominar o traço seja com qual ferramenta for, lápis ou computador, é o primeiro passo para domesticar o pensamento criativo, ou seja, torná-lo visível para os outros e assim se tornar possível.

O traço é o primeiro gesto para expressar um pensamento de um produto ou imagem. Conseguir desenhar duas linhas paralelas é o suficiente para que se aprenda a desenhar. Desenhar é um exercício que se aprende e se aperfeiçoa até o limite que quisermos. Por mais que as palavras nos ajudem a expressar uma idéia, chega um momento que ela deve ser visível. Desenhando a mão ou no computador expressamos o universo.

Os seres humanos aspiraram o primeiro grau da evolução quando conseguiram a oposição entre o polegar e o indicador. Este gesto de “pinça” permitiu que fizessem ferramentas e com elas aprenderam a dominar seu entorno. Com o passar dos séculos as ferramentas foram se sofisticando em um processo de evolução contínuo.
Melhores são as ferramentas melhor será o resultado desejado. Não compactuo com a idéia que o artesão tem mais valor quando sua ferramenta de trabalho é rústica. Ou do artista que não busca o contínuo aperfeiçoamento de sua técnica.

Seja qual for o nosso “fazer” devemos tentar ser os melhores, pois isso se consegue quando dominamos as técnicas e estas se aprendem e, com elas, o pensamento criativo evolui com mais facilidade.

8 de março de 2012

10 lições para jovens designers

Gostei tanto que fiz uma livre traduação deste texto de John Jay / Diretor Executivo Wieden + Kennedy Creative

1: Seja autêntico. O ativo mais poderoso que você tem é a sua individualidade, que o torna único. É hora de parar de ouvir outras pessoas sobre o que você deve fazer.
2: Trabalhe o mais duro que qualquer outra pessoa e você vai sempre se beneficiar do esforço.
3: Saia do computador e se conecte com pessoas reais. A vida é visceral.
4: Melhore constantemente suas habilidades. Faça as coisas com as mãos. Inovação em pensamento não é suficiente.
5: Viaje tanto quanto você puder. É uma experiência simples e inspiradora para aprender o que você ainda não sabe.
6: Seja original, especialmente nestas novas tecnologias orientadas para  abraçar o mundo.
7: Não trabalhe para pessoas estúpidas ou em breve você vai se tornar uma delas.
8: O instinto e a intuição são atributos poderosos. Aprenda a confiar neles.
9: A Regra de Ouro que realmente funciona é fazer o bem.
10: Se tudo isso falhar a número 2 é a maior vantagem competitiva de qualquer carreira.

AMEM!

7 de março de 2012

8 de Março - Dia Internacional da Mulher

Em 1910 numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca foi decidido que o dia oito de Março seria  designado como sendo  "Dia Internacional da Mulher". Esta data foi escolhida em função do primeiro protesto organizado por empregadas de indústrias têxteis de Nova York, em 1857, que reivindicavam melhores condições de trabalho, redução da jornada de 16 horas e melhores salários, já que recebiam aproximadamente um terço dos salários dos homens.
Pretendia-se com esta comemoração chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher na sociedade, promover uma tomada de consciência sobre suas dificuldades e principalmente rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher ao longo dos séculos. Mesmo nos países mais desenvolvidos e igualitários em suas oportunidades, muitas mulheres são hoje protagonistas de três jornadas de trabalho, sendo duas delas silenciosas e muitas vezes invisíveis, nos papéis de dona de casa, esposa e/ou mãe.

Infelizmente, em nosso mundo contemporâneo, ávido de consumo e carente de informação, transformaram esta data em um dia propício para aquecer o comércio, estimulando a prática de dar presentes como forma de homenageá-las.

Para os designers é um dia para lembrar que produtos e serviços deveriam traduzir as diferentes expectativas e necessidades de gênero. Homens e mulheres guardam preciosas diferenças que devem ser entendidas, mantidas, respeitadas e valorizadas.
Porém, quais são estas diferenças e atributos diferenciados? Para responder esta pergunta, consultei duas dezenas de amigas e colegas. Queria saber delas o que pensam de si mesmas e de nós, homens.

O resultado não me surpreendeu, e apenas confirmou o que de certo modo já sabia, ou intuía.  A agressividade, a objetividade, a praticidade, o pragmatismo e a lealdade são atributos 100% masculinos, enquanto que a emotividade, atenção aos detalhes, a fidelidade, a intuição, o sexto sentido, a sensibilidade e a tolerância são os atributos com os quais as mulheres, em minha modesta pesquisa qualitativa, mais se identificaram.

Como designer não me preocupo, tão somente, em projetar produtos que melhorem as condições de trabalho, reduzam o esforço físico, facilitem o uso e o manuseio dos objetos cotidianos, seja em casa ou na empresa. Sinto que é necessário, além disso, procurar entender e decodificar a lógica da fruição entre a mulher e seu mundo material.

Agindo assim estaremos usando com um pouco mais de sabedoria e sensibilidade (que dizem que nos falta) os repertórios simbólicos do universo feminino que funcionam como insumos inconscientes para sua autoestima e valorização pessoal.

Finalizo deixando um abraço carinhoso às amigas que me ajudaram nesta pesquisa* e, através delas, homenageando todas as mulheres com as quais compartilho meu trabalho, meus sonhos e expectativas. 

* Obrigado Ana Claudia, Ananélia, Ana Maia, Angela, Áurea, Beth, Helena, Heloisa, Janine, Maria Célia, Milena, Mônica, Regina A, Raquel, Regina C, Rosa, Rossana, Teresita e Wanessa.

2 de fevereiro de 2012

A filosofia do design aplicada na gestão de empresas

Um dos mais famosos livros publicados por Jens Bernsem, do Centro de Design da Dinamarca, tem por título: “Design, defina primeiro o problema”. O livro exemplifica, com alguns produtos de sucesso, que uma grande idéia nasce primeiro da necessidade de conhecer para poder solucionar, de preferência de modo não convencional, um determinado problema.

Este mesmo raciocínio se aplica a quase tudo, e em qualquer situação. O desafio de um designer é sempre apresentar uma resposta que fuja do lugar comum, que surpreenda e que seja memorável. Um problema complexo não exige necessariamente soluções complexas. Fazer o simples, de modo não óbvio, é muito mais difícil e exige muito mais inteligência.

Uma anedota antiga nos ensina que a melhor resposta é aquela que ninguém espera. Nessa estória uma mulher puxa pelo braço uma criança que chora e esperneia, relutante em segui-la. Um policial se aproxima e a indaga por porque ela esta puxando a criança deste modo ao que ela responde: “Porque é mais fácil puxar do que empurrar” mudando assim o foco da questão do âmbito comportamental para uma lógica física. A graça dessa história é precisamente o efeito surpresa que a resposta dada pela mulher nos causa. É uma resposta que ninguém espera. Que estabelece uma nova linha de argumentação. Isso é fruto do pensamento assimétrico que caracteriza o pensamento do design.

Definir um problema significa identificar inicialmente suas causas e possíveis conseqüências. Em sua origem está a chave da solução. A origem de um problema geralmente é, muitas vezes, decorrente de um equívoco na interpretação, decodificação e reação frente a um determinado fato. Demandas, necessidades, desejos e expectativas não satisfeitas, ou erroneamente interpretadas, são à base da maioria dos problemas encontrados nos produtos e serviços. O inicio deste processo de interpretação de um problema, com uma margem mínima de erro, começa pela busca de dados precisos, atuais e confiáveis sobre aquilo que se pretende corrigir. Estas precisões, mensuráveis e quantitativas, quando confrontadas entre si transformam-se em informação. A informação quando contextualizada em um determinado espaço e tempo transforma-se em conhecimento. E o conhecimento quando aplicado a solução de um determinado problema transforma-se em inteligência. E por fim esta inteligência quando aplicada na conquista e manutenção dos objetivos pré-estabelecidos transforma-se em Inteligência competitiva.

A partir desta lógica a primeira providência será sempre identificar, quantificar e qualificar a demanda. E a demanda se conhece perguntando sobre o que pensam e o que esperam as pessoas afetadas, diretas ou indiretamente, por aquele problema.

No artesanato, por exemplo, a melhor maneira de conceber uma oferta é entrevistar os possíveis compradores, potenciais ou reais. Conhecer seus gostos, hábitos de compra, destino dos produtos (presente, uso pessoal, decoração da residência ou da segunda moradia...), padrão de consumo, exigências e expectativas. Como os turistas são o público comprador preferencial do artesanato o melhor local para entrevistá-los costuma ser na sala de embarque dos aeroportos, quando já estão de partida, tendo comprado ou não artesanato. Neste momento pode-se conhecer o grau de aceitação ou de rejeição à oferta a que foram confrontados.

No caso de um produto ou serviço destinado ao público em geral, o caminho é a pesquisa por amostragem, tendo o cuidado de precisar qual o nicho ou segmento do mercado que se procura conhecer e, portanto, atingir. Conhecendo-se a demanda é necessário cotejá-la com a oferta disponível. Se a oferta, na forma de produtos ou serviços, for insuficiente ou insatisfatória no atendimento da demanda identificada, torna-se necessário então projetar um novo produto ou serviço, que atenda e supere as expectativas. Um novo produto ou serviço, para ser produzido e ofertado, necessita por sua vez da adequação dos meios e da requalificação das pessoas envolvidas neste processo. Isso implica em alterar práticas com as quais as pessoas já se habituaram. Significa mudar a percepção sobre a eficácia e eficiência das soluções anteriormente apresentadas. Ou seja, em última instância isso significa uma mudança comportamental de ordem cultural.

Estes são os passos iniciais de um ciclo virtuoso de inovação, cuja seqüência prevê:
1. Análise da demanda
2. Análise da Oferta
3. Melhoria dos produtos e serviços
4. Adequação dos processos
5. Capacitação do pessoal envolvido
6. Agregação de valor
7. Promoção e/ou divulgação
8. Disponibilização (ou comercialização).

Este esquema, que permite uma visão de 360° é a principal característica do “Design thinking” como se convencionou denominar no meio acadêmico esta forma específica e sistêmica de abordagem de problemas. Aplica-lo na gestão de processos e pessoas é tomar um novo caminho, ainda não trilhado por muitos gestores mais preocupados com o poder do que com autoridade, essa sim importante, conferida por quem está ao lado e abaixo e não por quem está acima de você.

25 de janeiro de 2012

Inovação no Serviço Público.

O Concurso “Inovação na Gestão Pública Federal” vem sendo promovido desde 1996 pela ENAP como estímulo à disseminação de soluções inovadoras em organizações do Governo Federal. Este concurso tem servido como amostragem sobre as contribuições mais destacadas para que o Estado brasileiro aumente a qualidade do atendimento e melhore a eficácia e eficiência dos serviços.

Até 2011 o concurso havia recebido 1.309 inscrições, tendo premiado 301 iniciativas, enquadradas nos seguintes grandes temas: Arranjos institucionais; Atendimento ao cidadão; Articulação de parcerias; Inclusão digital; Inclusão social; Avaliação de desempenho institucional; Estabelecimento de padrões de atendimento e serviços; Gestão da informação; Gestão de serviços gerais; Gestão de suprimentos; Gestão e desenvolvimento de pessoas; Gestão financeira e orçamentária; Implementação de melhoria contínua; Simplificação e melhoria de processos de trabalho; Planejamento e gestão estratégica.

Os temas relacionados com a gestão e desenvolvimento de pessoas estão em sua maioria relacionados com a busca pela melhoria da qualidade de vida dos servidores; métodos mais eficazes de identificação e monitoramento do grau de satisfação e eficiência no trabalho; métodos de avaliação de desempenho; gestão por competências; conformação de equipes de alto desempenho e participação, dentre outras.

Em comum, estes estudos, pesquisas e projetos experimentais estão relacionados com uma visão mais pragmática e de respeito ao servidor público, vendo-o como parte do patrimônio imaterial das instituições. Entretanto, esse capital intelectual acumulado, responsável pelo reconhecimento e sucesso das empresas públicas de maior destaque, não tem recebido ainda, em muitas instituições públicas, as atenções devidas tendo suas necessidades, expectativas e ansiedades tratadas com morosidade e descaso, fruto do excesso de burocracia e de práticas obsoletas.

Este quadro defasado da modernidade administrativa é perenizado por gestores com perfil centralizador e autoritário, com pequena inteligência interpessoal e representam o lado arcaico e retrógrado da administração pública. Infelizmente estes gestores ainda estão presentes em grande parte das empresas públicas.

A mudança do perfil dos novos gestores de RH, escolhidos por suas características e méritos pessoais, na contramão das práticas fisiológicas e políticas, está propiciando o aparecimento de métodos e ferramentas inovadoras, que emergiram com razoável sucesso em algumas empresas privadas e referendadas no ambiente acadêmico e que agora estão sendo adaptadas e aprimoradas para sua utilização no serviço público.

Enquanto no ambiente privado a meta é o incremento competitivo, os fatores a serem considerados na busca pela eficiência são aqueles relacionados com ameaças e oportunidades decorrentes das fraquezas e fortalezas das empresas concorrentes e de suas próprias.
Nas empresas governamentais o panorama é outro. No serviço público os inimigos a serem combatidos estão dentro das próprias instituições. São eles: a ineficiência resultante do desestimulo dos servidores cujas causas podem ser inúmeras, dentre elas: salários incompatíveis com as atribuições e responsabilidades; gestão autocrática; excesso de normas e mecanismos limitantes e restritivos ditadas pela burocracia e engessamento das possibilidades de inovar.

As empresas e instituições públicas devem oferecer o melhor serviço possível ao cidadão que as mantém através dos impostos que pagam e que estão embutidos em tudo que produzem e consomem. E para isso estas empresas e seus gestores devem procurar se adequar aos novos imperativos ditados por uma sociedade que aspira a igualdade de oportunidades, a justiça, a transparência e honestidade, a presteza e eficiência do serviço público.

Ser um Gestor identificado com estas exigências significa criar espaços e oferecer condições para que o trabalho se constitua, para todos, em oportunidade de crescimento profissional e pessoal, dignamente remunerado, estimulante, desafiador e criativo.

11 de janeiro de 2012

Mobilidade e outras mazelas urbanas

Trinta anos depois de ter concluído meu mestrado em Design Urbano na Suíça, tive meu diploma revalidado pela UEMG, coincidentemente no mesmo dia da entrega do Prêmio Jovem Cientista cujo tema escolhido para este ano foi “Cidades Sustentáveis”.

Desde aquela longínqua década de 70 aprendi que o grande desafio é criar condições para que as cidades possam conquistar e manterem uma qualidade de vida satisfatória para seus habitantes e para as gerações futuras.

E, qualidade de vida implica em moradias dignas; segurança; aprovisionamento de energia, água e esgoto; limpeza urbana; serviços essenciais de saúde; oferta de trabalho; espaço de laser e mobilidade.

Para me ater apenas em um ponto vital, que é a mobilidade urbana, a lista de problemas e equívocos tem sido exponencialmente maior que as soluções propostas pelo poder público, na maioria dos grandes centros urbanos, que historicamente sempre privilegiaram o uso do transporte privado em detrimento do transporte público.

Como o crescimento do número de veículos particulares não é acompanhado pelo crescimento do espaço de circulação viária, em um primeiro momento, as medidas de contenção tendem ser coercitivas, tais como a proibição ou restrição a circulação de caminhões, ônibus fretados e veículos particulares em determinados dias e horários.

Mas estas medidas nunca solucionam o problema, apenas o postergam um pouco mais. Por isso são necessários grandes investimentos em obras viárias: duplicação de pistas, faixas exclusivas, viadutos, pontes, trincheiras entre outras obras de engenharia, drenando recursos de outras áreas de interesse público.

A opção de aumentar e aperfeiçoar o espaço de circulação viário é um ciclo vicioso e equivocado, onde o aumento da frota privada sempre será maior que a capacidade de resposta do poder público que favorece o transporte individual em detrimento do coletivo.

Nas cidades brasileiras em que vivi, todas padecem dos mesmos males, fruto de um planejamento capenga e monodisciplinar, endossado pelo compromisso com o calendário político ao invés da visão de longo prazo.

As soluções para alguns problemas de mobilidade urbana, muitas vezes óbvias, não são implementadas por não interessarem a certos grupos e interesses econômicos. O que explica a inexistência de um transporte marítimo, para veículos e pessoas, entre o continente e a ilha de Santa Catarina, em seus extremos sul e norte?

Um planejamento urbano que considere todos os interesses em jogo, sejam sociais, políticos e econômicos, com o mesmo grau de importância, desloca a visão de futuro para o imediatismo e o oportunismo.

Uma cidade somente deveria ser considerada um modelo de sustentabilidade quando o foco nos problemas vindouros for a tônica do planejamento e da ação prática, respaldados no consentimento popular. Um pouco dessa prática conheci durante o breve período que estagiei na Prefeitura de Lausanne.

A metodologia de planejamento urbano na Suíça incluía uma pesquisa de origem e destino diário das pessoas, uma escuta aos desejos e necessidades de seus habitantes e visitantes e o cruzamento de dados sobre eventos futuros, que serviam como base para dimensionar a necessidade de modificação do espaço urbano e o destino da inteligência e dos recursos disponíveis.

Trinta anos depois vejo que ainda estamos longe disso.

Soluções?

A mobilização propositiva da sociedade civil organizada através de suas associações (Em Floripa destaque positivo para a atuação da Associação FloripAmanhã) é que possibilita uma agenda deslocada do calendário político.

A conformação de equipes multidisciplinares no desenvolvimento dos projetos urbanos, (ainda pouco praticada) vital para o surgimento de proposta inovadoras que sigam a cartilha da sustentabilidade.

A utilização efetiva de métodos e técnicas de verificação das necessidades e anseios da população e das vocações relacionadas a cada município.

A capacidade técnica e gerencial pára obter os recursos necessários para a viabilização das propostas e projetos mais adequados ao perfil e necessidade de cada município.

31 de dezembro de 2011

Mens sana in corpore sano

Boa parte da felicidade humana está na capacidade de não saber diferenciar o trabalho do lazer. Quando o trabalho não depende mais do esforço físico mas sim do intelectual o trabalho resume-se a pensar. E o pensamento flui com mais espontaneidade quando o corpo está relaxado e o tempo estendido, sem obrigações de prazos e horários.

É a disposição, em tempo integral, de ocupar o pensamento usando sempre a estrutura da reflexão criativa que permite o surgimento de ideias não convencionais, diferentes das propostas imediatistas originadas na premência por resultados.

Pensar não dói, diz um ditado antigo. O não pensar é alienação.
Ler um livro ou ver um filme é, no fundo, se apropriar do pensamento que outros tiveram. Contudo é bom e prazeroso quando voltamos a pensar sobre o assunto apreendido dando-lhe novo sentido a partir de nossa experiência pessoal.
Dedicar um pouco de tempo ao exercício criativo, como uma forma de lazer, é como frequentar uma academia de ginástica. A disciplina de realizar exercícios intelectuais diários é necessária para manter o cérebro ativo e em boa forma. “Mens sana in corpore sano” ("uma mente sã num corpo são") é uma famosa citação do poeta romano Juvenal.
Escolha um sujeito de reflexão que contenha um problema. Qualquer objeto, serviço ou ação pode ser melhor e mais bem concebido. Nada alcançou a perfeição. E a busca pela melhoria contínua começa pela identificação da causas e origens do problema. A partir daí o “design thinking” entra em ação. E isso serve para tudo. É um modo de refazer as coisas para que sejam melhores.

Esta forma de pensamento, especifica do design, leva por caminhos não trilhados ao encontro de propostas inovadoras, que fogem da lógica e das regras cartesianas, e constroem novas realidades. A satisfação resultante deste esforço mental é um dos tripés de uma vida feliz.

Fazer isso diariamente é o primeiro item da lista das minhas propostas para o ano novo.

27 de novembro de 2011

Melancolia - Um filme de Lars Von Trier



Se, como dizem os roteiristas, um grande filme é aquele que tem um belo começo e um final inesquecível então “Melancolia” de Lans Von Trier já seria, somente por isso, Maravilhoso.

Os quadros iniciais, em câmera ultra lenta, lembram Magritte e despertam o mesmo incômodo e admiração estética. São imagens inesquecíveis, por sua beleza plástica e carga emocional, que antecipam o filme e seu desfecho inevitável.

O filme vai muito mais além que ter um bom começo e um bom final. É bom do principio ao fim, e nos faz pensar.

Justine e Claire, as personagens principais, assumem a dimensão trágica dos acontecimentos, cada uma a sua maneira. A desesperança, a depressão e a melancolia, competem com o otimismo, à inocência e o conformismo.

Como reagiríamos diante da possibilidade eminente de desaparecimento de todas as formas de vida na terra?
Por trás deste questionamento, e de sua dimensão coletiva, a vida individual perde importância?

É o medo, é o sentimento de derrota em suas crenças e convicções ou saber que concluiu sua tarefa de mantenedor da ordem e do equilíbrio que leva Jonh antecipar sua morte em algumas horas?

Perguntas sem respostas, mas que fazem pensar, e muito.
Melancolia é um desses filmes que valem muitas vezes o valor de seu ingresso.


Em tempo: Uma semana depois que escrevi o texto acima o filme "Melancolia" conquistou em Berlim o prêmio de melhor filme de 2011 na 24º edição do European Film Awards (Prêmio do Cinema Europeu).
Nada mais justo e esperado.

25 de novembro de 2011

Fórum de Inovação das Américas - FIA/11


Em meu pronunciamento no FIA/11 retomei alguns pontos abordados na palestra de Manizales, procurando enfocar a questão da inovação sob três dimensões distintas e complementares. A dimensão cultural, a temporal e a tecnológica.

Na dimensão conceitual procurei aprofundar os argumentos que questionam o uso do design simplesmente como “ferramenta” do processo de inovação.

Entendo a inovação como sendo a absorção do mercado (ou pelas instituições) de um produto, processo ou serviço que até então inexistia. Deste modo atribuo o mesmo significado de inovação ao do design, traduzido no seguinte enunciado: “Design significa projeto, que por sua vez significa a construção de novas realidades, que significa inovação, que significa design”.

Porém, esta visão ampliada do design se fundamenta em uma abordagem holística dos problemas a serem solucionados, distanciando-se da compreensão popular do design como uma atividade cosmética, voltada exclusivamente para a fruição estética dos produtos, ambientes ou mensagens, ou no outro extremo, na visão pragmática e cartesiana do funcionalismo germânico cuja máxima é o enunciado “form follow function”. Tanto as qualidades estéticas como as características funcionais são fundamentais em um produto, mas não são as únicas e nem são o objetivo final do design.

Para contextualizar a evolução do design no mercado mundial em geral, e no mercado latino, nos últimos 50 anos, relacionei algumas das especializações que foram sendo criadas fruto de uma crescente pressão de demanda. Existem hoje centenas de especializações do design, tendência esta que deve subsistir nos próximos anos, tendo como frente de oposição a corrente que advoga o fim do design como profissão especifica e a absorção do Pensamento do Design (Design Thinking) por inúmeras outras profissões, especialmente pelas engenharias e pela administração.

Como exemplo deste argumento, que o pensamento do design pode ser aplicado em qualquer ambiente, apresentei alguns projetos de inovação na gestão pública que estamos implementando no CNPq, em especial, a Pesquisa de satisfação e eficiência no trabalho, Os Jogos Internos, O circulo da Saúde e o Passaporte Cultural.

Todos esses projetos obedecem ao fluxo metodológico denominado de Círculo da Inovação e do Design, cujo uso foi consagrado pelo SEBRAE e aplicado em alguns de seus programas. Esse modelo tem como ponto de partida a compreensão das demandas e necessidades do mercado (ou dos usuários) e as fortalezas e deficiências da oferta (ou dos concorrentes) para, somente então, iniciar o desenvolvimento de novos produtos e processos.

Na dimensão temporal, procurei relacionar os vínculos entre inovação e cenários futuros, cuja resultado será fruto de uma visão estratégica, que por sua vez orienta o gradiente de mudanças que se pretende alcançar. Mudanças incrementais ou mudanças radicais é que determinam a concretização de cenários futuros, que podem acontecer de modo simultâneo e não excludentes. Tanto cenários otimistas de fartura, abundância e de plena realização humana, quanto cenários desiguais, de escassez e sofrimento deverão coexistir no futuro, pois não existe ainda um desejo comum.

As mudanças incrementais permitem visualizar cenários prováveis pela simples projeção de da trajetória das ações e resultados pregressos. Já cenários desejáveis implicam em mudanças radicais, ou revolucionárias, na medida que estão relacionadas com mudanças comportamentais e, portanto, de ordem cultural.

O questionamento que proponho é sobre o futuro que queremos e os estilos de vida que aspiramos. Se nosso modelo de qualidade de vida é o “Americam Way of Life”, para que todas as pessoas do mundo tenham o mesmo, serão necessários recursos equivalentes a sete planetas Terra.

Por fim, sob a dimensão tecnológica tomei como paradigma a aceleração e incorporação de novos conhecimentos, potencializados pelo desenvolvimento de pesquisas em rede. Isso significa termos hoje, para cada ano de esforço coletivo e consorciado, um avanço tecnológico corresponde a cinco anos anteriores. Portanto, dentro de 10 anos 80% dos produtos com os quais estaremos convivendo cotidianamente hoje sequer foram inventados.

O desafio proposto é considerar nos processos de inovação, além dos requerimentos de ordem econômica e tecnológica, as questões de ordem social, cultural e ambiental.

Concluí mencionando parte da herança intelectual deixada por Steve Jobs, resumida em seis pontos principais, a saber:
1. Valorizar as coisas feitas à mão.
2. Focalizar. Definir o público-alvo para cada produto ou serviço.
3. Empatia. Conhecer e procurar atender os desejos dos clientes.
4. Agregar valor e qualidade (que seja percebida pelas pessoas).
5. Fazer as coisas para que sejam fáceis de serem usadas (amigáveis).
6. Tornar tudo o mais simples possível.

27 de outubro de 2011

Prestando contas com o CNPq

Promessas e metas cumpridas em 20 meses.

Creio ter cumprido com meu propósito de pagar, em parte, a dívida que tenho com o CNPq por tudo que me proporcionou na vida. Sinto que estou perto de poder afirmar que os compromissos que assumi desde que retornei a Brasília assim como as metas que estabeleci foram todas alcançadas.

As principais promessas e ações, sobre as quais procurei imprimir a visão estratégica do design, inscritas no âmbito de minha atuação enquanto gestor de recursos humanos, foram:

1. Transparência e abertura ao diálogo
A porta da sala da coordenação geral permanentemente aberta como demonstração de receptividade e transparência. Todas as solicitações de reuniões ou debates feitas por servidores isolados ou em grupo imediatamente atendidas foram a constância e espelho da filosofia de trabalho.

Os três primeiros dias da nova gestão foram dedicados ao Planejamento Estratégico da CGERH com a participação de todos os servidores e colaboradores lotados na área.

Por nossa iniciativa foi recomposto o Fórum dos Coordenadores Gerais. A intermediação efetiva do diálogo dos servidores com a alta direção.

A criação da rede social interna, Entrenós, como veiculo de participação e debate e de incremento das relações interpessoais.

3. O compromisso com os servidores
A implantação do mestrado e doutorado “in company” permitindo 15 admissões ao doutorado junto com o consorcio de Universidades do Rio Grande do Sul e 15 admissões ao mestrado junto com o CDS/UnB atendendo antiga aspiração dos servidores.

Os investimentos na atualização profissional dos servidores, através da organização e oferecimento de cursos, palestras técnicas, e apoio à participação em eventos e congressos com recursos duplicados do Programa de Capacitação.

A avaliação e o monitoramento permanente do grau de satisfação e eficiência no trabalho com o desenvolvimento e aplicação semestral de uma ferramenta de pesquisa estruturada e disponível na Intranet.

A proposição do projeto “Memória do Servidor” para registro da história oral na visão dos servidores aposentados ou em vias de se aposentarem.

A proposição dos “Círculos da Saúde”, de auto-monitoramento, apoiadas por médios, psicólogos e fisioterapeutas.

Resgate da filosofia de "Gestão por competência" atuando na mediação dos processos mais dificeis de movimentação de pessoas, procurando compatibilizar os interesses institucionais com as expectativas e competências individuais.


4. O compromisso com a instituição
A realização de concurso público e a admissão de 96 novos servidores.

A coordenação das atividades alusivas aos 60 anos do CNPq

5. Compromisso com a inovação
A criação e realização dos Primeiros Jogos Internos do CNPq como processo de adaptação às mudanças, melhoria do clima organizacional e incremento das relações interpessoais.

A criação do Passaporte Cultural como atividade de integração em 2012.

A proposição do lançamento de um Edital direcionado às Industrias Criativas (aprovada pela DEX).

A proposta de um projeto institucional para maior aproveitamento do Capital Intelectual disponível na instituição para ampliação da cooperação técnica e intercambio internacional.

A realização de todas essas ações somente foi possível graças ao apoio da Diretoria e da Presidencia do CNpq, dos colegas do Fórum dos coordenadores que acreditaram em nosssas iniciativas e do corpo técnico da CGERH que com competência, comprometimento e disposição tornaram possível colocar tudo isso em prática. A todos eles meus sinceros agradecimentos.

21 de outubro de 2011

A Nona Inteligência

Se Howard Gardner, o autor da “Teoria das Oito Inteligências”, tivesse vivido no Brasil, provavelmente teria descoberto a Nona Inteligência. Aquela típica de nosso temperamento luso-tropical, forjada desde os tempos da colônia, construída sobre a ética do compadrio e do conluio, das vantagens obtidas com a prática de favores e da ocupação dos espaços vazios que nenhuma legislação soube coibir.

Um exemplo típico dessa Nona Inteligência é a capacidade, quase infinita, do brasileiro contornar as leis e as normas com seu “jeitinho” esperto e malandro. É a Lei do Gerson. Para os que não se lembram, logo depois da Copa de 70, em um comercial de televisão, o famoso centro-avante da seleção canarinho dizia que sua opção por determinada marca de cigarros era fruto de sua filosofia, traduzida na frase “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. Errado, respondeu o Brasil em coro, retirando a propaganda do ar e estigmatizando o pobre Jogador que apenas repetiu numa frase idiota, que publicitários idiotas, fizeram sair de sua boca. Como ilustra o wikipedia “ O fato é que a Lei de Gérson acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter nacional, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens pessoais”.

Os anos se passaram e a Rede Globo importa da Holanda um “Reality Show” aqui rebatizado de BBB, cuja essência consiste em colocar um grupo de pessoas em uma casa, em um convívio forçado, numa espécie de “jogo” onde tudo vale. É a lógica do vencer a todo custo, não importando o sentimento dos demais, a ética e a moral.

Para consertar os estragos feitos em nossa frágil moral coletiva serão necessários anos de reeducação e de permanente indignação.

Rui Barbosa em um famoso discurso no Senado Federal, proferiu há quase cem anos uma frase que continua atual nos dias de hoje: ”De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.