31 de dezembro de 2011

Mens sana in corpore sano

Boa parte da felicidade humana está na capacidade de não saber diferenciar o trabalho do lazer. Quando o trabalho não depende mais do esforço físico mas sim do intelectual o trabalho resume-se a pensar. E o pensamento flui com mais espontaneidade quando o corpo está relaxado e o tempo estendido, sem obrigações de prazos e horários.

É a disposição, em tempo integral, de ocupar o pensamento usando sempre a estrutura da reflexão criativa que permite o surgimento de ideias não convencionais, diferentes das propostas imediatistas originadas na premência por resultados.

Pensar não dói, diz um ditado antigo. O não pensar é alienação.
Ler um livro ou ver um filme é, no fundo, se apropriar do pensamento que outros tiveram. Contudo é bom e prazeroso quando voltamos a pensar sobre o assunto apreendido dando-lhe novo sentido a partir de nossa experiência pessoal.
Dedicar um pouco de tempo ao exercício criativo, como uma forma de lazer, é como frequentar uma academia de ginástica. A disciplina de realizar exercícios intelectuais diários é necessária para manter o cérebro ativo e em boa forma. “Mens sana in corpore sano” ("uma mente sã num corpo são") é uma famosa citação do poeta romano Juvenal.
Escolha um sujeito de reflexão que contenha um problema. Qualquer objeto, serviço ou ação pode ser melhor e mais bem concebido. Nada alcançou a perfeição. E a busca pela melhoria contínua começa pela identificação da causas e origens do problema. A partir daí o “design thinking” entra em ação. E isso serve para tudo. É um modo de refazer as coisas para que sejam melhores.

Esta forma de pensamento, especifica do design, leva por caminhos não trilhados ao encontro de propostas inovadoras, que fogem da lógica e das regras cartesianas, e constroem novas realidades. A satisfação resultante deste esforço mental é um dos tripés de uma vida feliz.

Fazer isso diariamente é o primeiro item da lista das minhas propostas para o ano novo.

14 de dezembro de 2011

Antes que o mundo acabe.

Como acontece todo o ano, quando chega o mês de dezembro, sou acometido de um sentimento de urgência, de tentar resolver todas as pendências antes que o ano acabe, como se o fim dele fosse o fim do mundo, ou o começo de um novo.

Neste balanço do feito e do esquecido, sinto-me sempre em falta com os meus amigos, por não ter dedicado a eles o tempo que gostaria. Não importa se os vejo uma vez por semana ou uma vez por ano. Sinto sempre que foi menos do que poderia ter sido.

Até a criação das redes sociais nunca precisei dizer quem são meus amigos. Os que são, sabem que são. São aqueles cuja falta que sinto deles é a mesma que sentem de mim.

Meu propósito, e que desejo compartilhar com vocês, é não deixar que o próximo ano nos engula em sua rotina e nos afaste das coisas boas pelas quais vale a pena viver, dentre elas compartilhar dos bons momentos com as pessoas queridas.

Feliz Natal e um 2012 cheio de saúde, amor, graça e magia.

27 de novembro de 2011

Melancolia - Um filme de Lars Von Trier



Se, como dizem os roteiristas, um grande filme é aquele que tem um belo começo e um final inesquecível então “Melancolia” de Lans Von Trier já seria, somente por isso, Maravilhoso.

Os quadros iniciais, em câmera ultra lenta, lembram Magritte e despertam o mesmo incômodo e admiração estética. São imagens inesquecíveis, por sua beleza plástica e carga emocional, que antecipam o filme e seu desfecho inevitável.

O filme vai muito mais além que ter um bom começo e um bom final. É bom do principio ao fim, e nos faz pensar.

Justine e Claire, as personagens principais, assumem a dimensão trágica dos acontecimentos, cada uma a sua maneira. A desesperança, a depressão e a melancolia, competem com o otimismo, à inocência e o conformismo.

Como reagiríamos diante da possibilidade eminente de desaparecimento de todas as formas de vida na terra?
Por trás deste questionamento, e de sua dimensão coletiva, a vida individual perde importância?

É o medo, é o sentimento de derrota em suas crenças e convicções ou saber que concluiu sua tarefa de mantenedor da ordem e do equilíbrio que leva Jonh antecipar sua morte em algumas horas?

Perguntas sem respostas, mas que fazem pensar, e muito.
Melancolia é um desses filmes que valem muitas vezes o valor de seu ingresso.


Em tempo: Uma semana depois que escrevi o texto acima o filme "Melancolia" conquistou em Berlim o prêmio de melhor filme de 2011 na 24º edição do European Film Awards (Prêmio do Cinema Europeu).
Nada mais justo e esperado.

25 de novembro de 2011

Fórum de Inovação das Américas - FIA/11


Em meu pronunciamento no FIA/11 retomei alguns pontos abordados na palestra de Manizales, procurando enfocar a questão da inovação sob três dimensões distintas e complementares. A dimensão cultural, a temporal e a tecnológica.

Na dimensão conceitual procurei aprofundar os argumentos que questionam o uso do design simplesmente como “ferramenta” do processo de inovação.

Entendo a inovação como sendo a absorção do mercado (ou pelas instituições) de um produto, processo ou serviço que até então inexistia. Deste modo atribuo o mesmo significado de inovação ao do design, traduzido no seguinte enunciado: “Design significa projeto, que por sua vez significa a construção de novas realidades, que significa inovação, que significa design”.

Porém, esta visão ampliada do design se fundamenta em uma abordagem holística dos problemas a serem solucionados, distanciando-se da compreensão popular do design como uma atividade cosmética, voltada exclusivamente para a fruição estética dos produtos, ambientes ou mensagens, ou no outro extremo, na visão pragmática e cartesiana do funcionalismo germânico cuja máxima é o enunciado “form follow function”. Tanto as qualidades estéticas como as características funcionais são fundamentais em um produto, mas não são as únicas e nem são o objetivo final do design.

Para contextualizar a evolução do design no mercado mundial em geral, e no mercado latino, nos últimos 50 anos, relacionei algumas das especializações que foram sendo criadas fruto de uma crescente pressão de demanda. Existem hoje centenas de especializações do design, tendência esta que deve subsistir nos próximos anos, tendo como frente de oposição a corrente que advoga o fim do design como profissão especifica e a absorção do Pensamento do Design (Design Thinking) por inúmeras outras profissões, especialmente pelas engenharias e pela administração.

Como exemplo deste argumento, que o pensamento do design pode ser aplicado em qualquer ambiente, apresentei alguns projetos de inovação na gestão pública que estamos implementando no CNPq, em especial, a Pesquisa de satisfação e eficiência no trabalho, Os Jogos Internos, O circulo da Saúde e o Passaporte Cultural.

Todos esses projetos obedecem ao fluxo metodológico denominado de Círculo da Inovação e do Design, cujo uso foi consagrado pelo SEBRAE e aplicado em alguns de seus programas. Esse modelo tem como ponto de partida a compreensão das demandas e necessidades do mercado (ou dos usuários) e as fortalezas e deficiências da oferta (ou dos concorrentes) para, somente então, iniciar o desenvolvimento de novos produtos e processos.

Na dimensão temporal, procurei relacionar os vínculos entre inovação e cenários futuros, cuja resultado será fruto de uma visão estratégica, que por sua vez orienta o gradiente de mudanças que se pretende alcançar. Mudanças incrementais ou mudanças radicais é que determinam a concretização de cenários futuros, que podem acontecer de modo simultâneo e não excludentes. Tanto cenários otimistas de fartura, abundância e de plena realização humana, quanto cenários desiguais, de escassez e sofrimento deverão coexistir no futuro, pois não existe ainda um desejo comum.

As mudanças incrementais permitem visualizar cenários prováveis pela simples projeção de da trajetória das ações e resultados pregressos. Já cenários desejáveis implicam em mudanças radicais, ou revolucionárias, na medida que estão relacionadas com mudanças comportamentais e, portanto, de ordem cultural.

O questionamento que proponho é sobre o futuro que queremos e os estilos de vida que aspiramos. Se nosso modelo de qualidade de vida é o “Americam Way of Life”, para que todas as pessoas do mundo tenham o mesmo, serão necessários recursos equivalentes a sete planetas Terra.

Por fim, sob a dimensão tecnológica tomei como paradigma a aceleração e incorporação de novos conhecimentos, potencializados pelo desenvolvimento de pesquisas em rede. Isso significa termos hoje, para cada ano de esforço coletivo e consorciado, um avanço tecnológico corresponde a cinco anos anteriores. Portanto, dentro de 10 anos 80% dos produtos com os quais estaremos convivendo cotidianamente hoje sequer foram inventados.

O desafio proposto é considerar nos processos de inovação, além dos requerimentos de ordem econômica e tecnológica, as questões de ordem social, cultural e ambiental.

Concluí mencionando parte da herança intelectual deixada por Steve Jobs, resumida em seis pontos principais, a saber:
1. Valorizar as coisas feitas à mão.
2. Focalizar. Definir o público-alvo para cada produto ou serviço.
3. Empatia. Conhecer e procurar atender os desejos dos clientes.
4. Agregar valor e qualidade (que seja percebida pelas pessoas).
5. Fazer as coisas para que sejam fáceis de serem usadas (amigáveis).
6. Tornar tudo o mais simples possível.

27 de outubro de 2011

Prestando contas com o CNPq

Promessas e metas cumpridas em 20 meses.

Creio ter cumprido com meu propósito de pagar, em parte, a dívida que tenho com o CNPq por tudo que me proporcionou na vida. Sinto que estou perto de poder afirmar que os compromissos que assumi desde que retornei a Brasília assim como as metas que estabeleci foram todas alcançadas.

As principais promessas e ações, sobre as quais procurei imprimir a visão estratégica do design, inscritas no âmbito de minha atuação enquanto gestor de recursos humanos, foram:

1. Transparência e abertura ao diálogo
A porta da sala da coordenação geral permanentemente aberta como demonstração de receptividade e transparência. Todas as solicitações de reuniões ou debates feitas por servidores isolados ou em grupo imediatamente atendidas foram a constância e espelho da filosofia de trabalho.

Os três primeiros dias da nova gestão foram dedicados ao Planejamento Estratégico da CGERH com a participação de todos os servidores e colaboradores lotados na área.

Por nossa iniciativa foi recomposto o Fórum dos Coordenadores Gerais. A intermediação efetiva do diálogo dos servidores com a alta direção.

A criação da rede social interna, Entrenós, como veiculo de participação e debate e de incremento das relações interpessoais.

3. O compromisso com os servidores
A implantação do mestrado e doutorado “in company” permitindo 15 admissões ao doutorado junto com o consorcio de Universidades do Rio Grande do Sul e 15 admissões ao mestrado junto com o CDS/UnB atendendo antiga aspiração dos servidores.

Os investimentos na atualização profissional dos servidores, através da organização e oferecimento de cursos, palestras técnicas, e apoio à participação em eventos e congressos com recursos duplicados do Programa de Capacitação.

A avaliação e o monitoramento permanente do grau de satisfação e eficiência no trabalho com o desenvolvimento e aplicação semestral de uma ferramenta de pesquisa estruturada e disponível na Intranet.

A proposição do projeto “Memória do Servidor” para registro da história oral na visão dos servidores aposentados ou em vias de se aposentarem.

A proposição dos “Círculos da Saúde”, de auto-monitoramento, apoiadas por médios, psicólogos e fisioterapeutas.

Resgate da filosofia de "Gestão por competência" atuando na mediação dos processos mais dificeis de movimentação de pessoas, procurando compatibilizar os interesses institucionais com as expectativas e competências individuais.


4. O compromisso com a instituição
A realização de concurso público e a admissão de 96 novos servidores.

A coordenação das atividades alusivas aos 60 anos do CNPq

5. Compromisso com a inovação
A criação e realização dos Primeiros Jogos Internos do CNPq como processo de adaptação às mudanças, melhoria do clima organizacional e incremento das relações interpessoais.

A criação do Passaporte Cultural como atividade de integração em 2012.

A proposição do lançamento de um Edital direcionado às Industrias Criativas (aprovada pela DEX).

A proposta de um projeto institucional para maior aproveitamento do Capital Intelectual disponível na instituição para ampliação da cooperação técnica e intercambio internacional.

A realização de todas essas ações somente foi possível graças ao apoio da Diretoria e da Presidencia do CNpq, dos colegas do Fórum dos coordenadores que acreditaram em nosssas iniciativas e do corpo técnico da CGERH que com competência, comprometimento e disposição tornaram possível colocar tudo isso em prática. A todos eles meus sinceros agradecimentos.

21 de outubro de 2011

A Nona Inteligência

Se Howard Gardner, o autor da “Teoria das Oito Inteligências”, tivesse vivido no Brasil, provavelmente teria descoberto a Nona Inteligência. Aquela típica de nosso temperamento luso-tropical, forjada desde os tempos da colônia, construída sobre a ética do compadrio e do conluio, das vantagens obtidas com a prática de favores e da ocupação dos espaços vazios que nenhuma legislação soube coibir.

Um exemplo típico dessa Nona Inteligência é a capacidade, quase infinita, do brasileiro contornar as leis e as normas com seu “jeitinho” esperto e malandro. É a Lei do Gerson. Para os que não se lembram, logo depois da Copa de 70, em um comercial de televisão, o famoso centro-avante da seleção canarinho dizia que sua opção por determinada marca de cigarros era fruto de sua filosofia, traduzida na frase “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. Errado, respondeu o Brasil em coro, retirando a propaganda do ar e estigmatizando o pobre Jogador que apenas repetiu numa frase idiota, que publicitários idiotas, fizeram sair de sua boca. Como ilustra o wikipedia “ O fato é que a Lei de Gérson acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter nacional, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens pessoais”.

Os anos se passaram e a Rede Globo importa da Holanda um “Reality Show” aqui rebatizado de BBB, cuja essência consiste em colocar um grupo de pessoas em uma casa, em um convívio forçado, numa espécie de “jogo” onde tudo vale. É a lógica do vencer a todo custo, não importando o sentimento dos demais, a ética e a moral.

Para consertar os estragos feitos em nossa frágil moral coletiva serão necessários anos de reeducação e de permanente indignação.

Rui Barbosa em um famoso discurso no Senado Federal, proferiu há quase cem anos uma frase que continua atual nos dias de hoje: ”De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

12 de outubro de 2011

Prêmio SEBRAE TOP 100 do Artesanato


Chega a sua terceira edição o Prêmio que criamos para o SEBRAE em 2006, cujos objetivos são:
• Identificar, premiar e divulgar os casos de maior sucesso na área do artesanato, apontando as 100 melhores unidades de produção cujos produtos transcendam os aspectos puramente estéticos e culturais, colocando em evidência o compromisso social, econômico e ambiental.
• Dispor de informações atuais e confiáveis sobre a realidade do segmento artesanal, permitindo a tomada de decisões sobre a oportunidade e necessidade de projetos e ações para o desenvolvimento sustentável do setor artesanal.

Período de inscrições: De 03 de Outubro a 30 de novembro de 2011

Capacitação dos gestores: 17 e 18 de outubro de 2011
Capacitação dos consultores: 28 e 29 novembro de 2011
Visitas de consultores as unidades: De 10 de janeiro a 30 de março de 2012
Entrega de relatórios dos consultores ao SEBRAE estadual: Abril de 2012
Divulgação dos resultados: Junho de 2012
Evento de premiação e rodada de negócios: Agosto de 2012

http://www.top100.sebrae.com.br/

9 de outubro de 2011

Todas las canciones hablan de mi


“Todas as canções falam de mim” é um surpreendente e bonito filme espanhol, dirigido por Jonas Trueba, que rompe com alguns paradigmas sobre o tempo que uma cena pode durar na tela, entre outras pequenas proezas. Tentar falar do filme é recordar com carinho de dezenas de momentos surpreendentes.

Romero, o personagem principal, esta saindo de uma relação de seis anos. Para ele não está sendo fácil colocar a vida de novo nos trilhos. Seu mundo, seus desejos, suas dúvidas e suas memórias são simples e comuns. Por isso todos se identificam com ele e se reconhecem em seus sofrimentos e angustias. O drama convive com o humor todo o tempo, principalmente com a figura de Lucas, o tipo de amigo que todos nós gostaríamos de ter, sincero, engraçado e humano.

A trilha sonora é de uma qualidade extraordinária, desde a fidelidade aos ruídos simples do cotidiano, como o mastigar de cereais, até o processo de sintonia no rádio de uma música cafona, que toca do principio ao fim, com um Ramiro estático e de costas ouvindo e curtindo sua letra e nos fazendo lembrar de situações idênticas que já vivemos.

As falas dos personagens são as mesmas que já ouvimos da boca de nossos amigos, exprimindo sentimentos com os quais todos nos identificamos, ou fazendo citações geniais. “Todas as cartas de amor são ridículas, porém mais ridículos são aqueles que nunca as escreveram” disse Fernando Pessoa.

O final, uma inesquecível cena de 3 minutos de duração com a música crescendo enquanto Ramiro decide abrir o jogo com Andréa, é arrebatadora e nos deixa com a sensação de que a vida real é mais interessante e charmosa que a maioria das produções de Hollywood.

6 de outubro de 2011

O Design e as tabelas nutricionais


Vivemos em uma Aldeia Global como antevia Marshall MacLuhan nos anos setenta.
Temos hoje a disposição um universo jamais imaginado de informação disponível em tempo real, ao simples toque de um dedo. O Google como ferramenta eletrônica de buscas na internet é hoje uma espécie de “oráculo” devido a sua infinita capacidade de processamento de informações digitais com razoável grau de confiabilidade. O tradutor automático de línguas estrangeiras, inclusive com reconhecimento de voz, já é uma realidade.

Todas estas novas invenções do gênio humano criaram na prática essa aldeia global. Principio da mudança, a mais profunda, na história da humanidade, cuja dimensão mal se consegue hoje imaginar. A idéia decorre do progresso tecnológico reduzindo o mundo à dimensão de uma aldeia onde todos se comunicam com todos, eliminam-se as distâncias e barreiras, e se multiplica exponencialmente o poder do índivíduo.

Os sinais desta mudança no curso da história já são percebidos. No Oriente Médio as revoluções recentes nasceram do twitter. Os internautas de todo o mundo descobriram o poder de sua voz e com isso emerge um sentimento de cidadania global. Quando se rompem as barreiras da comunicação às mudanças sociais surgem como conseqüência. Os indivíduos passam a exigir seus direitos, dentre eles o direito de segurança, sobretudo aquela que privilegie a vida ao invés da propriedade.

A necessidade de comunicação é uma característica nata do ser humano, que desde as cavernas da pré-história deixa as marcas de seus ritos de passagens, cujos significados perderam-se no tempo. Na ausência de uma linguagem escrita nossos ancestrais se valiam de símbolos para expressar e transmitir aos demais seus propósitos ou feitos. Formas geométricas, orgânicas, antropomorfas ou zoomorfas deixaram indícios, mas não certezas sobre seus significados.

Nas sociedades mais desenvolvidas os símbolos fazem parte de sua cultural e representam um conceito, sem a precisão da palavra escrita. A presença ostensiva destes símbolos possui significado e valor. A força de uma imagem, impregnada na memória das pessoas, é a certeza de seu poder de comunicação. Da cruz do Cristianismo a suástica do Nazismo como exemplos diametralmente opostos de credos e intenções, a sociedade foi construindo no imaginário coletivo uma linguagem universal.

Em qualquer país o desenho de uma caveira representa a morte, mesmo que seja como uma broma mexicana, assim como o desenho de um raio como símbolo da eletricidade, são exemplos clássicos da capacidade da comunicação não verbal para expressar o perigo.

Os avanços científicos que permitiram a possibilidade de divisão do átomo, criando a energia atômica obrigaram a criação de um pictograma como o símbolo da radioatividade, de compulsório uso universal, constituído de três segmentos de um círculo.

O vermelho, amarelo e verde nos semáforos de todo o mundo parte desta necessidade de uma informação inequívoca relacionada a preservação da vida.

O mesmo esforço fazem os aeroportos de todo o mundo, buscando adotar a mesma iconografia básica, construindo-se aos poucos um repertório visual-simbólico universal

Em breve a sociedade começará a exigir, por meio de seu maior instrumento que é o poder de compra, que os produtos alimentícios industrializados tenham informações claras e compreensíveis sobre seus possíveis efeitos no organismo humano.

Um saquinho de batatas fritas ou de pipocas teria estampando em sua embalagem ícones representando gordinhos cuja tamanho ou quantidade repetida do icone seria proporcional a taxa de gordura saturada encontrada no produto. Corações riscados ao meio como sugestão de elemento gráfico indicaria a quantidade de sódio, apenas para citar dois exemplos.

As tabelas nutricionais cumpriram um papel relevante de abrir a caixa preta dos alimentos, mas seu conteúdo é incompreensível pela maioria da população, principalmente nas regiões e países mais pobres.

A hipótese de uma iconografia específica e aplicável nas embalagens de alimentos, traduzindo simbolicamente os efeitos sobre o organismo é bastante promissora. Embora já se antevejam dificuldades para sua implementação, devido às legislações e normas ainda vigentes. Um desafio para a ANVISA.

29 de setembro de 2011

Restaurante do Futuro

Em meu conceito o Restaurante do Futuro é aquele que representa e explora a gastronomia regional singular, baseada em produtos do território, cuja preparação, apresentação e consumo são partes indissociáveis, concebidas com o mesmo propósito de oferecer uma experiência vivencial diferenciada, fruto de um projeto multidisciplinar de abrangência socioeconômica, cultural e ambientalmente responsável.

Cada região do planeta possui características de solo, vegetação, clima e tradições que as diferenciam das demais. Em todas elas alguns produtos se destacam por valerem-se exatamente destas características singulares. São produtos que compõe o repertório cultural da região, tido hoje como um ativo turístico a ser explorado.

O consumo destes produtos regionais não obedecem mais, na maioria das vezes, rituais e tradições locais, nem em sua preparação, apresentação ou consumo. Reverter esta situação significa agregar valor a gastronomia através da proposição de uso de utensílios específicos para cada prato típico além de incorporar a preparação como parte do ritual da restauração, onde o consumidor participa como sujeito ativo.

Esta fusão da culinária com a produção de objetos locais e com a valorização dos produtos alimentícios do território cria uma espiral virtuosa, gera mais oportunidades de trabalho e renda para os produtores locais e preservar o patrimônio cultural imaterial.

A demanda por essa gastronomia local é aspiração dos turistas que viajam para aprender e não para comparar. São os turistas vivenciais que buscam uma imersão na cultura do local. É o turismo que se apóia nos meios de hospedagem alternativos, tais como: pousadas, albergues, hotéis de charme, residências temporárias e restaurantes que valorizam a gastronomia local. Estes turistas apreciam o artesanato e a arte popular local, a arquitetura integrada a paisagem, o respeito ao meio ambiente e a responsabilidade social.

O Restaurante do futuro, voltado a este público de maior repertório cultural, oferece não somente a alimentação e a fruição do ambiente, mas uma experiência pessoal, única e singular, do cliente fazer parte de um processo que o integra como agente ativo, participando na elaboração final do prato; levando consigo a receita e comprando os utensílios relacionados.

27 de setembro de 2011

A assimetria e o espelho retrovisor- Pilares da Inovação



A busca da perfeição, em alguns campos da expressão humana, esteve durante muito tempo relacionada com a simetria das formas e objetos, em função do equilíbrio e da harmonia que representa. Isso não traz, somente por si mesmo, um ganho estético. O design de um objeto simétrico tende a ser facilmente banalizado por sua monotonia e previsibilidade, devendo recorrer a outros artifícios como textura e cor para ser notado e memorizado.

O mesmo se aplica ao pensamento e conseqüentemente ao comportamento humano cuja opção preferencial pelos caminhos simétricos, onde um lado é o espelho do outro, conduz inevitavelmente a resultados previsíveis. A simetria é antes de tudo uma visão pragmática, portanto econômica, no mundo das coisas tangíveis. A reflexão simétrica justifica causa com conseqüência, definindo os fenômenos dentro de nossa concepção de espaço e tempo sobre uma linha continua e ininterrupta. Assim enxergamos o passado e sobre essa linha projetamos o futuro, linearmente.

Se, no entanto, abdicarmos desta tentação cartesiana e imaginarmos que o que buscamos é a surpresa e o encantamento, estamos falando da essência e do significado de inovação positiva. O novo, em todas as suas acepções, é tudo aquilo que até então não existia e que para nós aparece sob outra forma ou aspecto. Através do pensamento assimétrico é que conseguimos ampliar nossa percepção daquilo que nos cerca abrindo as portas de outras realidades, mais complexas e mais interrelacionadas.

A dificuldade de lidar com o pensamento assimétrico é a ausência de parâmetros, de balizas que indiquem quanto estamos próximos ou distantes do caminho do meio e do equilíbrio. Isso ao invés de ser uma deficiência do processo mental deve ser visto como sua maior qualidade, pois o caminho do meio costuma ser também o caminho da mediocridade, onde não há sofrimento e nem prazer.

A questão que se coloca é a dúvida de como romper com os paradigmas estabelecidos? Como sair dos quadrados mentais que criamos? Como enxergar o essencial, invisível aos olhos de muitos. Como romper bolhas após bolhas, círculos através de outros círculos? Como uma pedra jogada em um lago, criando formas concêntricas que vão se diluindo à medida que se afastam?

A melhor resposta nos propõe Ítalo Calvino com uma digressão filosófica sobre a importância do espelho retrovisor nos automóveis como inovação que foi capaz de alterar o comportamento humano ao descobrir a possibilidade de ter esse olhar atrás simultâneo ao olhar para frente.

Essa visão assimétrica, capaz de ver lados até então não revelados dos problemas, para propor uma solução que traga prazer e não sofrimento é que deve ser nosso compromisso permanente e exercitado cotidianamente.
Isso serve para o trabalho e para uma vida criativa e feliz.


Leiam também
http://bodisatva.com.br/autocentramento-uma-praga-curavel-sobre-a-sabedoria-do-espelho-retrovisor/

16 de setembro de 2011

Rua Aurora s/n


A alvorada de um novo tempo, um tempo sem tempo, que mistura passado com futuro e onde o presente é apenas a ponte de ligação do impossível (pois já vivido) com o improvável devir, começa agora.

Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas e por isso mesmo o momento de avaliar os caminhos percorridos, de perceber as bifurcações que ficaram para trás e para os destinos (in) prováveis que conduziriam. Estes percursos trilhados, que construíram o momento presente, não podem ser desconsiderados. Foram deles que se condensou a energia para as decisões tomadas, cuja prova de acerto é o fato de estarmos aqui e agora, íntegros e conscientes de nossas possibilidades e potencialidades.

Os destinos prováveis, que serão frutos de nossas escolhas, têm no passado sua referencia. O alinhamento destas ações pretéritas indica trajetórias prováveis, ascendentes ou descendentes, que desenharão o futuro. Se este resultado projetado for diferente das expectativas impõe-se uma correção de rumo, recalculando os prejuízos e ganhos dessa decisão, lembrando que quanto maior for a distancia entre o desejo e o resultado projetado, mas radical deverá ser a mudança de rota exigida.

O fim de um ciclo é o inicio de outro. Como na música, o trem que chega é o mesmo da partida onde a despedida é também encontro, do que foi e do que poderá vir a ser.

3 de setembro de 2011

O futuro do design e o design do futuro

Design é uma palavra inglesa cuja tradução literal significa projeto. Projeto de acordo com nosso léxico é um conjunto de atividades programadas, com tempos e custos definidos, cujo resultado final é algo que até então não existia. Entendido desse modo o design significa um processo de construção consciente de novas realidades.

O futuro do design enquanto atividade (e não processo) encaminha-se para um distanciamento cada vez maior de seu significado acadêmico original, com suas clássicas divisões: design de produtos, design de interiores ou design gráfico. Esta forma de compartimentalização tinha sentido em um momento de afirmação de uma atividade ainda incipiente e pouco conhecida da sociedade como um todo e do sistema produtivo em particular. Hoje, as dezenas de novas especialidades no design são uma resposta a demanda de mercado por inovação.

Cinqüenta anos depois de seu surgimento na América Latina, a palavra "design" começa a ser entendida, em muitos setores da economia, como um processo estratégico para o desenvolvimento de empresas, regiões e países.

Isso porque nas últimas duas décadas o design evoluiu como atividade capaz de propor e introduzir novas ferramentas de inovação, além de orientar a gestão integrada de todas as interfaces de uma empresa, pública ou privada, com seu público consumidor ou usuário, interno e externo, de modo harmônico e coerente. Esta percepção holística da empresa, e de seus produtos e serviços é a característica diferenciadora do "design management".

Novas frentes de atuação também se abriram na medida que setores economicamente marginais se viram na contingência de buscar soluções inovadoras para seus problemas de produto, produção e comercialização, como é o caso do artesanato e dos produtos típicos. Atuar junto as estes setores economicamente deprimidos implica levar em consideração, na mesma ordem de importância dos fatores econômicos e produtivos, as questões de ordem social, cultural e ambiental, principalmente a necessidade de geração de trabalho e renda. O artesanato e a pequena produção local, associada a sua cultura e região de origem, consegue através da agregação de valor colocar em evidência seus atributos qualitativos e diferenciadores, novo foco e demanda do "design social" cujo objetivo permanente é "mudar respeitando as origens".

Com relação aos produtos intangíveis a demanda por inovação tem sido exponencial, com tendência sempre crescente e na mesma velocidade do avanço tecnológico. No universo digital a demanda por inteligência, criatividade e expertise requer um nova abordagem profissional que o design busca suprir, substituindo micreiros e vituoses da computação gráfica.

Para os bens de consumo tradicionais, incluindo vestuário, a liberdade de criação é cada vez maior na medida que desaparecem os impedimentos tecnológicos. Antes um designer se capacitava principalmente no “como fazer”, hoje a preocupação é “o que fazer”, já que tudo é possível.

Saindo da escala micro para a escala macro, cidades e territórios representam um problema cuja solução não pode ser monodisciplinar. A complexidade destes espaços requer uma visão integradora, direcionada para o futuro, sem esquecer as lições do passado. Essa fusão de conhecimentos é o processo de trabalho do "design territorial ou urbano". que atua conciliando interesses, visões e expectativas.

Esta multiplicidade de oportunidades e as múltiplas frentes de atuação que se abriram somente são compreensíveis quando entendemos a natureza do design e sua singularidade no modo de abordagem dos problemas, para quem o conteúdo é que define a forma, seja para comunicar ou suprir uma demanda de produto ou serviço de qualquer natureza.

Design significa para mim, antes de tudo, como uma vontade irrefreável de fazer melhor. É descobrir o oculto, revelar o invisível, identificar a beleza, mesmo nas coisas mais simples do cotidiano.

Essa é a dificuldade de se ensinar design. De certo modo foi isso que me distanciou da sala de aula como professor. Descobri que sensibilidade, capacidade de percepção, talento e ousadia são atributos que se potencializam mas não se transmitem. Sem eles o design é pobre, medíocre, simplório e banal.

Ao se orientar na direção da inovação radical as empresas mais competitivas têm no "design estratégico" seu diferencial de qualidade e de marcado. Apple, Sony e Google são exemplos emblemáticos. Uma revolução a cada nova geração de produtos.

Esta é também a forma de se pensar (e construir) o futuro. Olhando os problemas a partir de todos os seus ângulos, privilegiando a pluralidade nas soluções, focadas no individuo e em suas necessidades, desejos e expectativas, sem comprometer, entretanto, as necessidades das futuras gerações.

Parodiando Stefano Marzano “Cada vez que projetamos (ou consumimos) um produto estamos fazendo uma afirmação sobre o futuro que desejamos”.








27 de agosto de 2011

O Design, a distância e o valor.


Aprendi que um objeto quando visto de longe dele percebe-se primeiro a forma. Com a proximidade suas cores e elementos de distinção e somente de muito perto seu verdadeiro conteúdo. Esse mesmo raciocínio serve para as pessoas.

A distância entra uma pessoa e outra pessoa, ou a um objeto, é um dos fatores que define o modo como as vemos, e portanto o valor que a ela atribuímos.

Essa distância pode ser temporal, física ou emocional.

A distância temporal diz respeito às coisas passadas, ou fora de tempo, e por isso mesmo ganham outra percepção. Essa distância em geral apaga defeitos e impropriedades e valoriza os atributos e qualidades. “...É a distância que faz o mito” disse Humberto Eco, na Ilha do dia anterior.

As pessoas se tornam boas depois de mortas, algumas viram mitos, outras conseguem congelar sua imagem no tempo. As atrizes de cinema guardam sempre esta distância temporal. Quando as vemos já não mais são. Assim como todas as experiências vividas. Existem apenas na memória ou como imagem.

Produtos da vida cotidiana ganham com a distância temporal um valor simbólico, que por sua vez define o desejo de possuí-lo e o “quantum” de esforço que estamos dispostos a fazer com esse objetivo. Quanto mais raro ou exclusivo for um objeto, ou serviço, maior seu valor de mercado.

A distância física diz respeito ao tempo real e as possibilidades nele presentes. É no momento agora que as coisas existem de modo tangível. Essa distância pode estar ao alcance dos olhos, ou alcance da mão. Ao alcance dos olhos a internet tratou de suprir as distâncias imensuráveis. Hoje, pessoas e objetos interagem em tempo real embora fisicamente distantes. Podemos visitar outros lugares, analisar todas as ofertas de produtos e serviços, conhecendo-os muito mais demoradamente e detalhadamente, se essa distância física não existisse.

A distância ao alcance da mão é aquela mensurável pelos meios que dispomos, sejam esses geográficos ou econômicos. Ao alcance da mão não é uma distância medida em centrimentos, metros ou quilometros. É medida pelo desejo e capacidade de superá-la.

Esses desejos, quando percebidos por quem oferece uma resposta satisfatória, definem o valor dessa oferta. Essa é a lei básica dos mercados, e vale para tudo: Quanto maior o desejo maior o valor. O design, o marketing e a publicidade, conscientes disso, criam mitos e objetos de alto valor simbólico

Esse valor simbólico, que incorpora as percepções subjetivas e intuitivas, que é fruto da experiência, da convivência, da fruição, da estética e acrescido de vínculos afetivos, transforma-se em valor emocional, que é finalmente o principal parâmetro para a definição do valor real das coisas, pessoas e lugares. Quando o valor emocional é forte, relativizam-se os conceitos de tempo e distância, que desaparecem ou perdem sua importância.

O design, enquanto método, busca na distância crítica separar as muitas dimensões que compõem o valor de um produto ou serviço para melhor entender as motivações humanas, suas expectativas, desejos e necessidades.

1 de agosto de 2011

Carta a uma jovem designer

Tenho me perguntado durante todos esses anos que venho tentando fazer design em todas as suas formas, expressões e espaços de oportunidades, quais são as reais possibilidades para aqueles que estão agora entrando no mercado.

Esta reflexão ficou ainda mais aguda quando comecei a lecionar e a dizer que se pode viver bem e com dignidade trabalhando com design, bastando saber identificar as oportunidades, as fortalezas e as ameaças, de nós e dos demais.

Porém isso não basta, como não é suficiente, embora importantissima, uma excelente formação e informação de qualidade para vencer no mercado. É necessário uma inteligência diferenciada, que alguns chamam de talento, sem o qual as chances são exponencialmente menores e, se possível, boas relações sociais. Alguns dizem também que é necessário a sorte, Mas a sorte não é a conseqüência de um conjunto de ações e atitudes para que ela ocorresse?

Todos nós temos algum talento, ou seja uma ou mais de nossas múltiplas inteligências mais desenvolvida. O importante é saber direcioná-lo para o design, que requer cada vez mais o aporte de visões e pensamentos distintos.

Howard Garner argumenta que temos oito tipos de inteligência e cada um de nós desenvolve e explora uma ou mais delas de modo mais expressivo.

Considerando a inteligência como a capacidade de solucionar um problema de modo satisfatório e criativo, a partir dos conhecimentos e experiências acumuladas, as inteligências propostas por Gardener são:
1. A Inteligência naturalista, como sendo a capacidade de nos relacionarmos de modo satisfatório com o nosso meio, natural e humano. É a inteligência voltada para a preservação da saúde e da vida.
2. A Inteligência lógico-matemática como sendo a capacidade de pensar de modo abstrato e de tomar decisões em situações de incerteza. É a visão econômica e financeira, do investimento e do lucro.
3. A Corporal sinestésica é o domínio sobre o corpo e seus movimentos, com impulsos e reflexos precisos.
4. A Inteligência musical como a capacidade de registrar e processar sons músicas e harmonias.
5. A inteligência estética e espacial é a capacidade ordenar imagens, objetos e espaços de modo harmônico e satisfatório
6. A inteligência literária e verbal é a capacidade de assimilar idiomas estrangeiros, de expressar pensamentos claros de modo verbal ou oral. É principalmente a capacidade de argumentação e/ou oratória.
7. A inteligência social é a capacidade de conquistar e preservar vínculos afetivos e colaborativos com pessoas em todos os círculos.
8. A inteligência intrapessoal ou emocional é a capacidade de lidar com as emoções, fazendo-as agir a seu favor.

Todos nós temos um pouco destas oito inteligências, mas em uma delas somos melhores. Esse é o nosso diferencial. É por essa qualidade que seremos conhecidos, admirados e respeitados. E para isso é necessário desenvolver e explorar ininterruptamente esta inteligência sobressalente.

Mas nenhuma destas oito inteligências operará sozinha sem a oitava. A inteligência emocional é fortalecida quando se gosta muito daquilo que se faz. Quando se acredita e se investe naquilo que se faz.

Com essa convicção as coisas vão se encaixando, mesmo que pareçam desordenadas e confusas, como são certas encruzilhadas da vida, quando apesar de todas estas certezas, desejos e expectativas as coisas não acontecem. Apesar de tentar todas as possibilidades, de explorar todas as oportunidades, mesmo assim as coisas não acontecem, contratos não se concretizam, os projetos não se realizam. Este é o momento de reavaliar nossas escolhas. E esta pergunta pode acontecer em muitos momentos da vida.

Em qual bifurcação dos caminhos devo seguir?
Na dúvida opte pelo caminho do sonho, pois mesmo se o resultado não for aquilo que se sonhava a simples tentativa terá valido à pena.

18 de julho de 2011

O que me leva a pintar um quadro?

Depois de vinte anos sem tocar em um pincel decidi ocupar meus finais de semana Brasilienses com uma atividade lúdica que tanto satisfação havia me havia proporcionado nos anos que me dediquei exclusivamente à arte. Foram apenas dois ou três anos que passei, em minha juventude, na Escola Guignard antes de descobrir o design. Período suficiente para me revelar o prazer indescritível que a pintura, o desenho, a gravura e a escultura proporcionam. Porém curto para me tornar um artista.

Como os sonhos nunca morrem de repente me vejo comprando tubos de tinta a óleo e pincéis, disposto a dialogar comigo mesmo diante de uma tela em branco.
O que motiva um artista a definir o sujeito de um quadro antes de iniciá-lo? Suponho que alguns querem apenas expressar seus sentimentos e emoções transferindo para o pincel os gestos e movimentos que mais se harmonizam com este estado de espírito. O resultado final sempre surpreende já que não existia uma imagem pré-concebida na mente.

Conheci grandes pintores que definem o motivo de um quadro como um exercício de virtuosismo técnico, na expectativa do aplauso dos pares e da admiração dos amantes da arte. Buscam incansavelmente desenvolver novas técnicas ou aprimorar aquelas que dominam para satisfazer seu ego. Afinal, todo artista se nutre do amor que seu público lhe dedica.

Existem também, talvez em maior número, aqueles que desejam apenas desfrutar o prazer que experimentam no ato de pintar e na tentativa de perenizar com uma imagem uma lembrança ou o testemunho visual de um momento único. Buscam, entretanto, uma coerência entre seus quadros anteriores, na convicção da necessidade de guardar uma relação entre si, expressas no traço, na técnica e na temática que caracteriza e distingue um artista de outro.

Eu decidi usar os pinceis e tintas como quem conta uma estória. Existe por trás de cada tela um discurso não verbal. Uma reflexão sobre um determinado sujeito. Penso na imagem que irei pintar como se fosse a capa do livro dessa estória ficcional.

Conto com meus quadros estórias que nunca serão totalmente assimiladas do mesmo modo que as concebi. Os símbolos e as metáforas visuais dão pistas, mas também podem enganar. Componho imagens abertas à possibilidade para que cada um veja nele as estórias que imaginar.

3 de julho de 2011

Imagens inesquecíveis - Critérios de análise de uma fotografia


Uma fotografia permite duas leituras. A primeira é o registro visual sobre um determinado momento e a segunda o discurso subjacente que traz consigo. As imagens não são apenas pessoas e objetos captados em um segundo de sua existência. São depoimentos visuais de um lugar e de um instante que nunca mais existirão. Contam uma história em função dos elementos que a compõem, da forma como foram dispostos, iluminados, refletidos, focados.

A fotografia de um casa ou de uma edificação pode ser um simples registro de caráter documental-arquitetônico ou um tipo de mensagem visual sobre seu significado e conteúdo. Hospitaleiro ou inóspito, frio ou caloroso, repressor ou transgressor, humano ou cruel...

A dramaticidade de uma imagem é fruto de um instante único. Um movimento, um gesto, um sorriso, um olhar, uma lágrima possuem uma força expressiva exatamente por ser o a captura visual de uma fração de segundo, é o tempo suspenso, que sintetiza uma emoção que perdurará na memória.

Algumas imagens nunca as esquecerei. O andar atrapalhado de Jânio Quadros (refletindo seu governo); a menina correndo nua queimada por napalm, síntese da loucura da Guerra do Vietnã; o olhar messiânico do Che, que escondia a crueldade do personagem; a saia plissada de Marilyn Monroe revelando sua sensualidade ingênua; o Beijo roubado em frente ao Hotel De Ville em Paris; a língua pra fora na atitude debochada de Einstein. Essas são imagens tão fortes que viraram ícones, sonho de todo fotógrafo.

Ao apontar a objetiva de sua máquina fotográfica em uma direção, o fotógrafo sensível olha o visor não com os olhos, mas com o coração. Busca uma emoção e não somente uma imagem estática e sem alma.

Uma fotografia não é somente um retrato de uma pessoa, um objeto ou um lugar. É uma forma de expressão contemporânea, onde todas as intervenções e experimentações são possíveis, sobretudo depois da criação da fotografia digital e das ferramentas de edição de imagens. Novas tecnologias cujos limites de uso e exploração estão ainda longe de serem alcançados.

O sujeito tratado, a força expressiva e plástica da imagem, o dominio da técnica e a mensagem contida são os elementos que definem o valor de uma fotografia, independente de seu tempo e lugar.

2 de julho de 2011

Um novo olhar (design da fotografia)

Existem coisas que de tão vistas não são mais enxergadas. O desenho da cerâmica do piso, de um lugar qualquer que entramos, não consegue ser descrito pela maioria das pessoas, se pedirmos a elas que o façam. Este exemplo se aplica a maioria dos objetos que nos cercam. Estamos cada vez mais submetidos a uma profusão incontrolável de produtos e mensagens, cada uma com seu apelo e história. O excesso de oferta e de informação tem como subproduto a indiferença das pessoas a tudo aquilo que é banal, comum, cotidiano.

Essa mudança comportamental permite duas reflexões. De um lado é o banal, o singular, o cotidiano, o despercebido (pois incorporado a realidade) é que tem valor como produto cultural de um determinado contexto, tempo e lugar. Revelar esta realidade é um desafio, cujo produto é sua valorização por aqueles que não a percebiam.

Por outro lado nosso cérebro está permanente direcionado a perceber o novo.
Registra somente aquilo que surpreende e emociona. Busca permanentemente avançar além dos limites do conhecido. A inovação se transformou na arma estratégica das civilizações.

A idéia de somar as virtudes de casa uma dessas duas vertentes é o desafio.
Inovar tendo a cultura como pano de fundo, aqui entendida, como sendo a janela por onde olhamos o mundo e o mundo nos percebe.

jogos internos

29 de junho de 2011

Dia Mundial do Design Industrial - 29 de junho


O Dia Mundial do Design Industrial (WIDD) é comemorado anualmente no dia 29 de Junho, em reconhecimento à profissão de design industrial.

Por ocasião do 50 º aniversário ICSID – Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial, em 2007, foi criado esse dia especial com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da profissão de design industrial, com destaque para as contribuições feitas pelos profissionais e acadêmicos para melhorar a qualidade social, cultural, ambiental da vida em todo o mundo.

Desde a sua criação o ICSID é uma organização que conecta pessoas de diversas origens que, embora de diferentes culturas ou religiões, têm pelo menos uma coisa em comum: a paixão pelo design industrial.

Este ano o cartaz vencedor do concurso alusivo ao Dia Mundial do Design Industrial foi craido por Paula Beatríz Cabrera Osorio e Vania Farías da Pontificia Universidade Catolica do Chile.

3 de junho de 2011

O futuro e/da inovação

Recebi hoje um ‘e-mail’ com uma apresentação em ‘power point’ anexada tendo como fundo uma foto de estúdio do Antonio Fagundes e o titulo “Eu tenho apenas 58 anos”. O texto enumerava boa parte da cultura material dos dias de hoje como coisas que sequer se sonhavam há 58 anos atrás. O que, para espanto do netinho, interlocutor dessa estória, imaginou ter seu avô uns 200 anos.

O texto incluía, dentre outras coisas: celular, computador, internet, raios laser, microondas, televisão, cartão de crédito, lente de contato, lavadoras, ar condicionado, relógio que não precisa de dar corda...

Isso me fez lembrar que o mesmo gradiente de distância tecnológica que nos separa de 50 anos atrás até os dias de hoje serão os mesmo para daqui a 10 anos. O desenvolvimento tecnológico verificado nos últimos anos demonstra que para cada ano de evolução a distância é de cinco anos para trás.

A cada novo lançamento de um gadget eletrônico o mundo não pode mais viver sem ele. O iPhone criou um abismo com relação aos demais celulares, obrigando todos a evoluírem rapidamente em sua direção, ou senão correr o risco de desaparecer do mercado.

Necessidades são criadas. A vida hoje sem a internet, sem o google e sem as redes sociais seria a repetição de um filme velho em que fomos atores e não queremos mais vive-lo.

No mundo ocidental a moral e os costumes se modificaram na mesma velocidade. Uma só geração assistiu a liberalização sexual com a invenção da pílula anticoncepcional e sua reversão com o aparecimento da Aids. A diferença de raças e de gênero caírem por terra, com um negro-muçulmano ser presidente dos Estados Unidos e mulheres serem presidentes de vários países.

O choque de duas civilizações, com projetos de futuro diferentes, resultaram em milhões de mortes inocentes, cujo maior ícone, foram às torres gêmeas.

É ilusório pensar que chegamos ao fim da história. Mudanças radicais ocorrerão cada vez mais e com maior velocidade. Mudanças tecnológicas e mudanças culturais. Para isso é necessário pensar em um novo modelo para produzir inovações radicais. Mais multidisciplinar, mais prospectivo. É preciso antes de desenhar um novo produto desenhar o mundo onde ele irá operar.

Os laboratórios, como espaços privilegiados de experimentações, deverão incorporar a cultura como insumo indispensável de cada projeto, entendendo cultura como a janela pela qual enxergamos o mundo. Não somente o que vivemos mas o aquele que pretendemos viver. Toda construção humana nasce primeiro no cérebro e no coração.

Estes laboratórios, para desenharem o futuro necessitam privilegiar a multidisciplinaridade. EquipeS monodisciplinares tendem a auto-referência. Bebendo da mesma fonte fazem as mesmas construções mentais ou pensam sobre o mesmo ângulo. A natureza demonstra que tudo que é homogêneo tende a entropia. A construção da inovação começa na aceitação dos muitos saberes, das múltiplas inteligências, para o enfrentamento dos problemas complexos.

2 de junho de 2011

Jogos de empresas em empresas publicas – parte 2


Levamos exatos oito meses para sairmos da idéia à ação. Postei aqui nesse blog em 15 de outubro passado a idéia, ainda embrionária, de utilizar os Jogos de Empresas como forma de buscar uma mudança de mentalidade e de atitude frente aos desafios do presente e do futuro.

No dia 14 de junho próximo começam oficialmente os Primeiros Jogos Internos do CNPq. Durante quatro meses equipes heterogêneas irão disputar provas relacionadas com oito tipos de inteligências. Nestes oito meses que se passaram um pequeno porém extraordinário e motivado grupo de colaboradores trabalhou arduamente para propor, desenvolver e organizar a realização de 23 atividades lúdico-competitivas, que não encontram precedência no serviço público.

A gênese deste processo, fruto de alguns ensaios e experimentos que conduzi, principalmente os Primeiros Jogos de Design realizados na Universidade da Antuérpia, na Bélgica, em 1995, partem da premissa que para alterar o curso dos acontecimentos é necessário mudar primeiro o comportamento e o ângulo de visão dos envolvidos com os problemas. O futuro é quase sempre um reflexo do passado. Basta olhar para trás e ver como as coisas evoluem para imaginar como se desenvolverão, para melhor ou para pior. Se as opções escolhidas no passado estão levando a um mal resultado manter inalterados os comportamentos, os métodos e as rotinas, servirá apenas para aprofundar e tornar ainda mais difícil a solução dos problemas. Contudo, se o futuro que desejamos é diferente daquele que se anuncia também será diferente a rota a ser seguida. Problemas novos exigem soluções novas. Jogos são espaços de vivência de situações novas para construção de novas possibilidades ou realidades.

Quinze anos depois de usar os Jogos como método de trabalho, e agora vivendo a responsabilidade de gerenciar os recursos humanos de uma organização com sessenta anos de história, de pioneirismo e de protagonismo, no trato das questões que envolvem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, encontro na filosofia do design um guia norteador.

Um diagnóstico da realidade atual aporta as informações necessárias que justificam uma mudança de metodologia no trato das pessoas. Uma ação de escuta das insatisfações é a ferramenta escolhida para comprovar o que a intuição e as observações já haviam revelado. Mapear os problemas e identificar suas origens compõe a base de informações que servem para orientar as ações a serem empreendidas e também como um embrião de um processo permanente, e indispensável, de monitoramento de sinais de mudanças, dentro e fora do espaço institucional.

Quando o tecido social de uma organização está esgarçado uma tensão se estabelece, e com ela a ansiedade, a insatisfação e a doença. Quando 10% da força de trabalho de uma organização encontra-se de licença médica um alarme tem de soar, e medidas corretivas devem ser tomadas imediatamente. E, para priorizar as ações necessárias é preciso classificá-las por importância e ocorrência. Visão sistêmica permite saber por onde começar e qual problema deve ser resolvido primeiro.

Alguns destes problemas nunca haviam sido antes enfrentados, faltando à experiência necessária para melhor gerenciá-los. O principal deles foi à mudança física do local de trabalho de 1500 pessoas, alternando rotinas, excluindo todos de uma zona de conforto na qual estavam habituados. Somando-se a isso a constatação da perda do sentimento coletivo de orgulho e pertencimento à instituição por sua importância e história. A própria perda da memória institucional, sem o registro das contribuições individuais é uma falha a ser corrigida. Comportamentos autoritários herdados subsistem e enfraquecem a mobilidade interna e a gestão por competências. Rotinas de trabalho desestimulantes corroem a satisfação no trabalho. O distanciamento da função de formulador de políticas de estado, para simples organismo de fomento passivo destroem a auto-estima e a possibilidade de valorização do capital intelectual da instituição.

Os Jogos Corporativos surgem como um processo alternativo para lidar com este conjunto de problemas de modo inovador e com baixo investimento. Brincando colocam-se temas importantes em discussão, dentre eles a construção de cenários futuros, as necessárias mudanças frente aos problemas ambientais e a cultura como pano de fundo.

Vozes dissonantes e descrentes seguramente serão ouvidas, apostando na cizânia e no fracasso. Afinal tudo que é inovador incomoda os que estão lucrando com a manutenção do "status quo" e com o caos.

Mas como tudo na vida, maiores são os riscos melhores serão os resultados se tudo der certo. Aposto nisso com a convicção que dentro de 3 meses, quando terminarem os jogos, teremos um novo ânimo coletivo, e uma nova estratégia para a gestão de pessoas.

3 de maio de 2011

Excelência UNESCO para o Artesanato dos países Andinos

Durante a última semana de abril estive novamente diante de um novo desafio, de enorme responsabilidade, que foi o de escolher os produtos artesanais dos países Andinos que receberam o selo de Excelência da UNESCO. Dividi esta tarefa com duas especialistas de enorme projeção internacional: Sandra Theule, responsável pelas relações institucionais do Ateliers d’Art da França e Rafaela Luft, diretora do Fundo Nacional para o Fomento do Artesanato do México.

Este evento, realizado em Lima no Peru, amplia a visibilidade do artesanato produzido na América Latina cuja seleção se iniciou pela escolha dos melhores produtos artesanais do México e Brasil, em 2006 em Salvador na Bahia. Na seqüência o selo foi concedido ao artesanato dos países do Caribe, em 2008 em Havana; depois os países do Mercosul em 2010 em Santiago do Chile.

A experiência de haver participado como jurado nestes três eventos reforça minha visão sobre a importância deste trabalho e o quanto ele pode ser determinante para o futuro profissional dos agraciados. A enorme visibilidade internacional que este reconhecimento aporta aos artesãos e o valor que agrega a seus produtos conferem uma dimensão nova a nossa difícil tarefa de julgar o “melhor dentre os melhores”.

Nossa decisão se pautou pelos critérios recomendados pela UNESCO, que foram:
1. Qualidade (estética, domínio técnico, materiais e acabamento utilizados)
2. Autenticidade (expressão da identidade cultural local)
3. Inovação (design contemporâneo em sintonia com os valores tradicionais)
4. Comercialização (preço compatível com o mercado e com a qualidade do produto)
Os produtos devem ainda cumprir com as exigências de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social.

Dentre os 67 produtos selecionados pelos paises participantes, com exceção da Colômbia que inexplicavelmente não os enviou, os agraciados foram:

BOLIVIA
"Poncho medio ojo", de Hilda Ramos Figueroa

EQUADOR
"El venado andino", de Segundo Honorio Cocha Ladino
"Línea de productos funcionales a base de la fibra natural cabuya sisal", del Centro Artesanal de la Asociación SIMIATUG SAMAI
"Peineta de filigrana", de Andrea Tello de Ecuador
"Sombrero súper fino de paja toquilla" de Flerida Yolanda Pachay Anchundia
“Oso de anteojos", de Héctor Parión Aigaje

PERU
"Camélidos", de Gustavo Salas Palomino
"Cuadro de mate burilado", de Tito Medina Salomé
"Kero contemporáneo con plata", de Juan Alberto Estrada Ortega
"Poncho femenino", de Ruth Pimentel Quishpe
"Retablo taller de mascaras", de Julio César Gallardo Montoya
"Tabla de Sarhua de enamoramiento", de Pompeyo Berrocal Evanan
"Wawa waltha", de Abraham Fausto Aller Escalante

VENEZUELA
"Chinchorro de Curagua", de Ramona Antonia Romero Chiguita
"Chinchorro Wayuu doble cara", de Leixy Zoila Uriana
"Susú con dos técnicas” de la Cooperativa Ayataulee

As todos eles minhas mais sinceras felicitações.

14 de abril de 2011

O valor das coisas tangíveis

Consultando as estatísticas desse meu blog descubro que o texto mais acessado é o que tem por titulo “como calcular o preço de venda de um produto artesanal” com mais de 900 visualizações. Deduzo, portanto, que a maioria dos que me visitam são artesãos ou pessoas com eles envolvidas, com exceção dos patrícios que me confundem com um cirurgião e um juiz de futebol que são meus homônimos e que vivem em Portugal.

Suponho também que a questão do preço e conseqüentemente a comercialização são os temas mais preocupantes para este grupo de visitantes. Deste modo, me sinto compelido a trazer outras reflexões sobre estes temas.

A primeira delas diz respeito ao valor agregado, ou valor percebido pelos consumidores, expresso na capacidade de atração, de encantamento, de sedução ou de surpresa que um produto é capaz de despertar nas pessoas. Este “algo mais” que distancia um produto do lugar comum, do “déjà vu”, está sobre uma linha tênue que separa o banal do extraordinário. Para alcançar e se manter nesta posição de fronteira é necessário ousar, transgredir, romper as convenções estéticas e formais. Significa perscrutar o coração e a mente dos seus consumidores buscando decodificar seus desejos e aspirações ainda não reveladas.

Este exercício criativo, ao invés de copiar as boas idéias alheias, é tarefa para pessoas treinadas na pratica cotidiana da inovação, como é o caso dos artistas, designers e afins. Esta parceria entre criadores e produtores deve ser apoiada, estimulada, fomentada e patrocinada pelas instituições, como o SEBRAE, que atuam no setor pois, salvo exceções, as unidades de produção artesanal assim como as micro e pequenas empresas não possuem capital, e cultura de risco, para investir na contratação destes serviços.

A segunda reflexão está relacionada ao valor monetário que pode ser acrescido ao preço básico de um produto (obtido pela soma do tempo utilizado em sua produção, dos insumos, matéria prima e encargos) cuja margem de elasticidade é determinada em parte pela concorrência, mas principalmente pelo poder e disponibilidade de compra do público visado, fruto da experiência e da vivência que o uso, a proximidade, a contemplação ou fruição que aquele produto proporcionou.

Os consumidores de maior poder aquisitivo, e de maior grau de compreensão/inclinação cultural para o artesanato, a arte popular e o design vernacular, público mais disposto em adquirir produtos de preço mais elevado, não são os freqüentadores habituais das feiras artesanais e lojas de souvenir. Para alcançá-los é necessário uma mudança de estratégia. Trata-se de procurar ir até onde estão, e não esperar que venham até você.

Como fazer isso?
Separando-se da manada, buscando um espaço ou nicho específico que esteja em conexão direta com esse público culturalmente mas exigente. Entrando em seu "habitat", fixo ou provisório, como algo que tem uma história para contar, ou uma emoção para relembrar.

Fazendo parte integrante dos espaços interiores das pousadas e hoteis, dos restaurantes temáticos,das residencias oficiais e dos formadores de opinião.

Fazendo parcerias estratégicas na comercialização, com estes mesmos fornecedores de serviços exclusivos. Como dizem os arqueiros: É mirando (e pensando) mais alto que se acerta o alvo. E o preço se determina de trás para frente. Ou seja,avaliando o quanto vale no mercado a diferença que meu produto possui?

__________
Veja o artigo: "Como calcular o preço de venda de um produto artesanal"

9 de abril de 2011

Insectopia - Uma proposta interessante


Produto: Hotel para insetos
Objetivo: Promover e diversidade biológica no espaço urbano
Cliente: Prefeitura do 13eme arrodissement / Paris
Local instalado: Parc des grands Moulins
Fabricante: l'Ateliers Seewhy - Bruno Clanet et Jean-Kanora You
Design: Vaulot&Dyèvre

wwww.vaulotdyevre.com

2 de março de 2011

O artesanato dentro da lógica de uma “produção associada”.

Entendo primeiramente a expressão “produção associada” como sendo uma oferta de produtos compatíveis, ou complementares, provenientes de unidades de produção independentes que interagem e cooperam-se entre si, nas distintas fases da cadeia de produção e comercialização. A produção associada presume uma lógica semelhante a dos “arranjos produtivos locais” ou dos “clusters”, com estímulo a constituição de cooperativas de produtores e um plano estratégico comum.

Produtos artesanais com maior qualidade percebida são geralmente feitos com diversos materiais, trabalhados por artesãos diferentes e especializados. Esta soma de materiais e técnicas permite uma maior exploração estética e funcional, tornando o produto único e singular.

Obter um produto artesanal que seja a soma de distintos saberes é um desafio de logística e de gerenciamento (do tempo, dos custos e do individualismo dos artesãos) cujo resultado pode ser o incremento dos ganhos para todos os envolvidos. Esta tem sido a lógica perseguida por alguns projetos, dentre eles os “saberes e sabores do Maranhão”, onde um recipiente de cerâmica dentro de um cesto de palha trançada tem seu valor comercial maior que a soma dos dois produtos vendidos separadamente. O mesmo raciocínio vale para as panelas de pedra sabão de Minas Gerais com suas alças de cobre, ou as cachaças cujas garrafas são cobertas com fibra vegetal trabalhada (Exemplos: Germana e Ypioca) gerando centenas de oportunidades de trabalho.

As jóias, em sua maioria, representam um bom exemplo de produto artesanal cujo altíssimo valor comercial decorre não somente pelos materiais nobres que utiliza, mas também pela qualidade criativa e apuro técnico em sua produção. Outro exemplo são as rendas, que isoladamente possuem um valor comercial cujo teto está muito aquém do valor que poderia alcançar estando associada a uma roupa de luxo.

Estas reflexões remetem a uma outra dimensão do conceito de “produção associada” que é vincular a oferta de produtos a um determinado nicho de mercado. O artesanato pode buscar se associar ao mercado de luxo; ao mercado de turismo; ao mercado de decoração; ao mercado de moda; ao mercado de produtos agro-alimentares ou ao mercado de presentes e lembranças. Para cada nicho de mercado que se desejar atender é necessário fazer preliminarmente um detalhamento da demanda, com informações atuais e confiáveis sobre disposição de compra; sazonalidade; destino da aquisição; preços máximos; tipologias e características.

Cada um destes nichos é constituído de grupos de indivíduos com desejos e expectativas diferentes. Para alguns o valor cultural é o mais importante para outros é a exclusividade, ou a surpresa.
A observação atenta destes grupos demandantes tem permitido apontar algumas janelas novas de oportunidade a serem exploradas pelas unidades de produção artesanais mais dinâmicas, criativas e qualificadas.

Para atender o comercio de luxo é necessárias uma qualidade estética e um acabamento perfeito e diferenciado. O luxo não se expressa pelo valor comercial da peça artesanal, mas por seu valor emocional, trazido pela dimensão humana, presente nas mãos que o produziu. Os consumidores típicos do comercio de luxo possuem hoje acesso a todos os produtos que desejam adquirir. Não existem mais barreiras alfandegárias e os custos de logística permitem o comercio mundial em larga escala ser competitivo.
Estima-se que na Cidade de São Paulo vivam 60 mil milionários. Para eles foram criados os shoppings exclusivos e o comercio da região dos Jardins. Nestes locais existe tudo de melhor que a capacidade criativa do homem foi capaz de produzir.
Esta hiper-oferta qualificada chega a um ponto de saturação quando o seu valor simbólico se banaliza. Quem já tem tudo não deseja o mais do mesmo. Busca o novo, a surpresa e o encantamento. Perceber isso é estar no lugar certo, na hora certa e diante das pessoas certas.

Este é o momento e a oportunidade para oferecer o “luxo emocional” apresentado na forma de um serviço ou produto único, exclusivo, com uma história para contar sobre um tempo e um lugar.

Este mesmo tipo de qualidade espera o turista frente à oferta artesanal, acrescido do fato que o produto deve ser parte ou testemunho da vivencia emocional que esta pessoa experimenta. Para justificar estes argumentos basta verificar o comportamento de três grandes grupos de turistas: o acidental, o tradicional e o existencial. O acidental é aquele viajante que fica entre um e cinco dias em média nos destinos. Viaja por compromisso pessoal, profissional, familiar ou religioso e compra apenas os presentes compulsórios. Já o turista tradicional viaja a lazer, para escapar, se evadir da realidade cotidiana. Em geral não procura o novo tendo em vista o grau de risco que toda novidade incorpora. Quer os serviços e os produtos consagrados, conhecidos, sem surpresas.

E por fim o turista existencial. Este viaja para se misturar com outros povos e outras culturas. Viaja para experimentar, aprender e conviver com o novo. Para estes o produto deve ser um vinculo estreito com o momento e o lugar vividos.

Cresce exponencialmente uma demanda reprimida por produtos de qualidade, feita por um tipo de consumidor sazonal, de nível socioeconômico e cultural mais elevado, disposto a pagar mais por um produto que chame sua atenção e o seduza. Este produto deve estar associado à experiência que se está vivendo. Com o tempo este produto será transformado em prova física, testemunha de um momento especial que sobreviverá apenas na memória.

Porém não basta apenas melhorar ou adequar à oferta ao seu publico visado. É necessário pensar novas estratégias de comunicação, divulgação e comercialização para este artesanato diferenciado.

Os turistas que freqüentam feirinhas e lojas de artesanato vão em busca do souvenir, da lembrançinha, do presente compulsório. O turista existencial adquire aquilo que vem de encontro a ele, mesmo que seja como parte da decoração de sua pousada ou hotel ou dos serviços a ele oferecidos. O convivo natural com estes produtos cotidianos cria uma proximidade entre o usuário e o objeto, uma espécie de intimidade silenciosa, de cumplicidade involuntária, que se transforma em desejo de uma lembrança perene. Para estes a assinatura do artesão na peça é como uma certidão de nascimento. Sem ela a origem é desconhecida e duvidosa.
São estes mesmos turistas que procuram, experimentam e divulgam para o mundo os produtos singulares do território. Estes produtos do “terroir”, em especial as comidas e bebidas típicas, precisam de uma embalagem adequada que coloque em evidência seus diferencias de qualidade.

Qualquer que seja o foco do artesanato, algumas condições de trabalho são necessárias; um método e alguns compromissos. O método preconizado pelo SEBRAE abrange as oito etapas do ciclo de inovação: Identificar demanda; Identificar oferta; Desenvolver produtos; Melhorar processos; Capacitar produtores; Agregar valor; Divulgar e Comercializar.

Dentre os compromissos, atendo-se aqueles definidos pelo Prêmio “TOP 100 do
artesanato”, merecem destaque: inovação; respeito ao meio ambiente; respeito à cultura; responsabilidade social; responsabilidade comercial; preço justo; condições de trabalho adequadas; promoção e comercialização seletiva.

Tudo isso é apenas o principio de uma longa caminhada cuja meta é posicionar o produto artesanal brasileiro no lugar de destaque no mercado mundial reservado para os bens simbólicos de forte expressão cultural.

A palestra que faria dia 23/03 na Fundação Luis Eduardo Magalhães em Salvador, a convite do SEBRAE/BA, onde exploraria melhor estes temas, foi cancelada por razões alheias a minha vontade.

13 de fevereiro de 2011

Imagem – identidade – design.

Em uma sociedade dominada cada vez mais pelos meios de comunicação, a imagem de uma empresa (ou de uma pessoa) está sujeita ao julgamento público em virtude de suas atitudes e das opiniões que sobre ela são divulgadas. O conjunto de externalidades (ou de interfaces) de uma empresa (ou individuo) junto ao mercado (ou sociedade) é que desenhara uma imagem e definirá uma identidade.

A Imagem de uma empresa é fruto das sensações e percepções que as pessoas têm dela, construída pela qualidade dos produtos ou serviços que oferece e complementada por todas as formas e meios de comunicação utilizados. Assim a publicidade, a identidade visual, o ponto de venda, a apresentação, a embalagem, o atendimento ao consumidor ou cliente, tudo isso deve trazer uma coerência e traduzir uma mesma mensagem ou conceito único.

De nada adianta investir milhões de reais em publicidade se a operadora de telemarketing desta empresa nos importuna em horas indevidas; se o atendimento ao consumidor é rude ou descortês, se serviço pós-venda não funciona; se o comportamento da empresa com relação aos novos compromissos socioculturais e ambientais deixa a desejar.

Ao conceber um produto ou serviços é indispensável pensar nas necessidades, desejos, carências e expectativas das pessoas, lembrando quais são os valores que defendem e quais práticas abominam.

O ordenamento coerente destas interfaces da empresa com o mercado é a tarefa que a gestão do design propõe solucionar. Traduzir em imagens e momentos o que esta empresa tema dizer ao seu público-alvo.

Assim somos nós em nossa individualidade. Podemos fazer o mesmo paralelo para antecipar o julgamento que as pessoas farão de nós. Nossa forma de vestir (nossa embalagem) e a nossa forma de se comportar desenharão na cabeça das pessoas uma imagem (identidade) que colarão junto com nosso nome. Se esta imagem poderá corresponder ou não a realidade é a tarefa que temos de pensar todos os dias.

Os grupos humanos definem valores éticos e morais que estabelecem os limites para o que é bom e desejável (visando à felicidade de todos), cujas fronteiras, cada vez mais tênues, dão liberdade para que as pessoas assumam suas atitudes, mesmo que extremas, porém cada uma com seus ônus e seus bônus.

Nossa individualidade se manifesta em nossas escolhas, que sempre possuem conteúdo e intenção, que por sua vez definirão uma imagem e uma identidade.
Somos aquilo que pensam sobre nós.

A idéia de um permanente autoredesign é bastante atraente.
Certa vez li um poema que justifica esta proposta ao afirmar que “conseguimos ser diferentes de nós mesmos duas horas depois”, já que toda experiência de certo modo nos afeta, e nos altera, para melhor ou para pior.

2 de fevereiro de 2011

Sugestões aos gestores que se preocupam com o artesanato e o turismo com valor agregado

Os produtores de bens simbólicos de alto valor agregado, principalmente de artesanato, vivem hoje um dilema. Para sobreviver em um mercado cada vez mais seletivo o primeiro passo é sair da informalidade. Isso significa ter obrigações sociais, pagar impostos, mas também acesso mais adequado ao mercado. Desejo e fim de todos que produzem algo de valor.

O mercado nacional, até pouco tempo restrito e fechado vivendo em uma redoma artificial impostas por políticas protecionistas, abriu suas fronteiras. Descobriu outras culturas e começou a enxergar o valor da sua própria. As comemorações dos 500 anos do descobrimento serviram para os brasileiros resgatarem sua auto-estima e divulgar a marca Brasil mundo afora. Esta visibilidade crescente tende a aumentar exponencialmente nos próximos cinco anos por conta da Copa do mundo e das Olimpíadas. Os produtos “Made in Brazil” passarão a ser ainda mais desejados.

Ao mesmo tempo o mercado de consumo mundial vive um momento novo, comportando todo tipo de produtos, cujo fenômeno foi apresentado por Chris Anderson em seu livro “A Cauda Longa”. Diante do crescimento exponencial da oferta começa a haver uma polarização nos mercados mais seletivos. De um lado os produtos e marcas globais, conhecidas, consagradas, cosmopolitas e confiáveis. De outro lado os produtos singulares, diferenciados, surpreendentes, vinculados a sua região de origem, com uma história para contar.

O consumo mundial esta pendendo entre produtos globais x produtos locais. Nestes dois extremos ainda existe muito espaço de crescimento e quem tiver bons produtos seguramente encontrará muita demanda, que se devidamente prospectada poderá ser contadas aos milhares, ou milhões, de unidades por encomenda.

Aquilo que parece ser a solução de todos os problemas, que é ter propostas de compra diante de si, na verdade é apenas uma ponta de todo o ciclo produtivo. Vender é a meta final de quem produz. Porém é preciso vender aquilo que se tem para oferecer.
Como na música de Jorge Drexler cada um só pode dar aquilo que tem ou recebe. Nada é mais simples. Não existe outra norma.

Neste novo cenário global podemos falar da importância das “fábricas sociais de artesanato”. Unidades produtivas que utilizam alta intensidade de mão-de-obra, qualificada e diferenciada. Com crescente capacidade produtiva na medida em que investem na formação de novos colaboradores e na substituição de tecnologias obsoletas, porém sem perder as características singulares que o diferenciam seus produtos da concorrência. São unidades capazes não somente de produzir bens culturais mas também são capazes de fazê-los chegar inteiros ao seu destino. Alguns empresas artesanais já exibem estas caracterisicas. São as que estão exportando.

O conhecido “ciclo da inovação e do design” descrito no termo de referência sobre o artesanato brasileiro e publicado pelo SEBRAE, aponta oito passos necessários para se chegar ao mercado. Este ciclo deve ser completo, sem pular etapas, para não repetir erros passados e cair em velhas armadilhas. São ações que resultam em um ciclo virtuoso que se vale de competências diferenciadas em todos os níveis.

Estes oito passos já deveriam ter sido seguidos por centenas de unidades artesanais do Brasil cujo reconhecimento tem sido concedido bianualmente na forma de um premio as cem melhores. Porém um olhar detalhado sobre os vencedores permite identificar ainda carências não satisfeitas e problemas não resolvidos. Problemas que vão desde a falta de capital de giro para adquirir matéria-prima diante de grandes encomendas até a ausência de embalagens capazes de diminuir as perdas no transporte.

A promoção e o esforço de venda, indispensável e desejável, deve ser acompanhado de um compromisso em todos os níveis da cadeia de produção. Os contratos de compra cujos prazos de entrega não são cumpridos ou a entrega de produtos que não correspondem em qualidade aquilo que foi encomendado são as causas de fechamento de promissoras cooperativas e empresas artesanais antes existentes.

O artesanato brasileiro, salvo algumas exceções, ainda busca a maturidade necessária para aspirar sua inserção definitiva no mercado internacional. Devemos ter a capacidade critica de perceber nossas deficiências, sendo a primeira delas a falta de dados atuais e confiáveis sobre a demanda (dados que confrontados se transformam em informação, e esta quando assimilada vira conhecimento e que aplicada na solução de problema se transforme em inteligência competitiva).

O desafio é conseguir uma renovação anual da oferta de produtos que valorize suas raízes e vínculos culturais, criando ofertas seletivas regionais em produções associdas, somada a uma capacitação técnica e gerencial dos produtores. E finalmente uma atuação consorciada do artesanato com o turismo.

20 de janeiro de 2011

O que o design brasileiro revela sobre nós?

Um produto, qualquer que seja sua natureza, industrial ou artesanal, deve possuir um vínculo cultural, seja com relação aos seus destinatários seja com relação à sua origem.

A idéia de um produto universal, que possa ser usado satisfatória e indistintamente por qualquer consumidor do planeta é uma quimera que somente pode ser conseguida por grandes corporações com penetração e reconhecimento no mercado mundial. Mesmo assim estes produtos trazem consigo uma linguagem formal e visual própria e elementos simbólicos que os distingue dos demais. Esta lógica se insere na teoria dos 80/20 muito em voga nas ultimas décadas do século passado. De acordo com esta teoria 20% dos produtos dominavam 80% do mercado; 80% da riqueza do planeta estariam nas mãos de 20% da população; 20% dos veículos detinham 80% da informação e assim sucessivamente.

Nesta segunda década do século XXI o que se desenha no horizonte do provável no mercado mundial, agora dominado pelas transações eletrônicas, é a teoria da Cauda Longa proposta por Chris Andersen que explica o surgimento de dezenas de milhares de novos nichos de mercado, criando igual número de novas janelas de oportunidades.
Somam-se a isso as novas exigências ditadas pela Economia da Experiência que privilegia bens e serviços de caráter mais exclusivos ou de forte conteúdo simbólico e temos um panorama onde os produtos centrados na cultura de origem ganham expressivo diferencial competitivo. Este é o caminho que tem sido perseguido pelas empresas conscientes que a aceitação e o preço de um produto é determinado pela quantidade de satisfação que provoca no usuário e/ou consumidor e não mais pelo esforço, matéria prima e insumos invertido em sua produção.

As pesquisas conduzidas por Domenico de Massi em 2002 e publicadas pelo SEBRAE sob o titulo de “Cara Brasileira” define, argumenta e defende o uso dos elementos que configuram nossas especificidades culturais como sendo nosso grande patrimônio intangível, na criação de uma oferta qualificada, tanto para o mercado interno, como para o mercado externo. Exemplos demonstram que muitos produtos obtêm sucesso no mercado justamente porque possuem essa densidade cultural como é o caso da moda, do artesanato, da música, da cachaça, e de certos produtos feitos com matérias primas específicas de nossos ecossistemas. Na introdução da pesquisa supra citada argumenta-se que “o caráter hospitaleiro do brasileiro; a exuberância do país, onde tudo é abundante, sobretudo o sentimento, as cores; o fato de ser uma nação jovem, criativa, tropical e abrigar a convivência pacífica de diferentes raças e culturas – são todos aspectos norteadores de uma estratégia de valorização do Brasil e do seu segmento produtivo”.

Porém, a pergunta/titulo deste artigo, para ser respondida, deve separar o geral do particular. Neste sentido a grande maioria dos produtos criados, desenvolvidos e produzidos no Brasil ainda são reproduções imperfeitas de produtos consagrados no mercado mundial. Os investimentos sistemáticos em inovação estão presentes somente em menos de 2% das empresas brasileira com mais de dez funcionários, percentual irrisório quando comparado com os países industrializados, onde mais de 50% de empresas que compõe seu parque industrial são comprometidas com a inovação e conseqüentemente com o design.

Estamos no meio de um processo histórico de construção de uma nova cultura material, onde a forma não segue mais a função e sim a emoção que pretende provocar nas pessoas. Essa tem sido a tônica das discussões sobre o que devemos fazer diante das novas oportunidades que estão surgindo com a crescente visibilidade do Brasil no cenário mundial, potencializado pela Copa do Mundo de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016. O desafio proposto é: surpreender, encantar e emocionar o mundo.

15 de janeiro de 2011

Cultura material brasileira e a valorização dos produtos singulares

Quais são os produtos que têm a cara do Brasil, ícones de nossa cultura material, singulares e expressivos e de uso/consumo consagrado?

Uma lista básica começa com as sandálias havaianas; a garrafa escura de cerveja de 700 ml; o berimbau; o pandeiro e o tamborim; o copo americano; o orelhão; a jangada nordestina; a caixinha de fósforos de madeira; a cuia de tomar chimarrão no sul e a de tacacá no norte; o guaraná; o pão de queijo; o pé de moleque; o licor de jabuticaba...

Reconhecer todos estes produtos é o primeiro passo para criar um acervo de referências possíveis de serem utilizadas em outros contextos, na construção de uma nova oferta de produtos, mais qualificados e sintonizados com as novas demandas do mercado.

Na nova “economia da experiência” os produtos que tenham histórias para contar, que remetam a fatos e lugares, saberes e fazeres tradicionais são muito mais valorizados e desejados. O desafio é colocar em evidências estes atributos, diversificar e direcionar a oferta. Produtos capazes de despertar a curiosidade e o desejo nas pessoas identificadas com a singularidade das raízes culturais brasileiras, acompanhando o crescimento da demanda por bens simbólicos com forte identificação cultural com um determinado território.

O Brasil esta em uma curva ascendente na colocação destes produtos no comercio internacional, crescimento que deve ser potencializado com os próximos eventos mundiais que aqui ocorrerão. O Brasil esta na moda, dizem os mais otimistas.

A proposta de desenvolver um design de características vernaculares, ou seja, que utilize os elementos mais expressivos da cultura brasileira, fazendo uso dos repertórios e códigos simbólicos singulares, reavivando tradições e fazeres próprios e exclusivos de um determinado grupo social, é mais do que uma proposta, é um desafio e uma nova janela de oportunidades para as pequenas empresas industriais e artesanais.

Um “olhar para dentro”, indispensável para dar a partida no processo criativo diferenciado, não se consegue à distância. É necessário a vivência e o mergulho no cotidiano. Muitos são os territórios culturais que conformam o Brasil e me cada um deles uma matriz cultural existe e precisa somente ser revelada.

Em cada vivência dela extrair os cheiros, os sabores, os perfumes, as cores, as histórias, os mitos e ritos do lugar. É necessário o olhar educado, capaz de separar o particular do geral, capaz de distinguir aqueles objetos e imagens que de tão vistas não são mais percebidas e de tão tocadas já não são mais sentidas.

Resgatar o brilho destas imagens e produtos em novos produtos é fazer com que se transformem no brilho no olhar do turista.

12 de janeiro de 2011

Miguel Nicolelis - Fragmentos de uma entrevista

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Para onde a neurociência deve nos levar nos próximos anos?No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão as aplicações computacionais. Nossa relação com as máquinas será completamente diferente: não usaremos mais teclados, monitores, mouse… o computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles.
No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje. Daqui a três meses, publicarei um livro em que comento estes temas.

Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de mover-se obedecendo ao controle da mente). Está sendo desenvolvido na Alemanha. Para o treinamento dos pacientes, construímos salas virtuais onde pessoas paralisadas terão sua atividade cerebral registrada de forma não-invasiva por magneto-encefalógrafos. Vamos ver se elas aprendem a controlar com o pensamento os movimentos de um corpo virtual – um avatar que simula o exoesqueleto. Com uma pessoa tetraplégica será mais fácil, pois é justificável o uso de métodos invasivos como implantar os eletrodos dois milímetros e meio dentro do cérebro. As descobertas vitais já foram feitas. Nosso drama agora é engenharia e conseguir recursos para pagar um projeto que é o equivalente, na neurociência, a uma viagem à Lua.
Outra linha de pesquisa importante em medicina é Parkinson. No ano passado, publicamos um trabalho naScience. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença. Há um milhão de fibras na medula espinhal que sobem para o cérebro. Mandamos uma descarga de alta frequência que chega aos centros motores profundos do cérebro e faz com que eles saiam da sincronia absoluta característica da doença, pois estão todos disparando impulsos nervosos ao mesmo tempo, de um modo semelhante ao que ocorre em uma crise epiléptica. O sinal elétrico tem um efeito caótico que quebra a crise.
Também temos resultados preliminares em macacos obtidos aqui em Natal. Infelizmente, o Hospital Sírio-Libanês não quer continuar a parceria com nosso instituto. Por isso, procuramos outro hospital de grande porte, público ou privado, onde possamos realizar os testes clínicos, talvez já no próximo ano. Gostaria muito de marcar que a tradução dessa pesquisa para a prática clínica aconteceu aqui no Brasil, pois acredito que a Medicina brasileira é a melhor do mundo. Estou propondo uma nova teoria que vai provavelmente acabar com minha carreira (risos). Acredito que não há distinção entre doenças neurológicas e psiquiátricas: todas elas são doenças temporais, relacionadas ao tempo dos neurônios, ou seja, variantes epilépticas. A única doença do cérebro que existe realmente seria uma epilepsia. Já publicamos três trabalhos este ano com modelos de doenças ditas psiquiátricas e, em todas, encontramos uma assinatura temporal que permite classificá-las como distúrbios do tempo, epilépticos. A ideia surgiu quando vi os registros eletrofisiológicos de ratos com Parkinson e eles lembraram muito os registros de uma crise epiléptica central que conheci quando era estudante.

No médio prazo, ainda precisaremos dos nossos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?Em breve, vamos publicar um trabalho descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. A internet como conhecemos vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o principal canal de comunicação. Para entender isso, basta pensar que toda linguagem é um comportamento motor – como mexer o braço. Esse comportamento motor também poderá ser decodificado e transmitido. Grandes empresas – como Google, Intel, Microsoft – já tem suas divisões de interface cérebro-máquina.
Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?
Talvez o primeiro impacto será descobrir que somos todos muito parecidos: as pretensas diferenças entre grupos de seres humanos vão se reduzir pois todos perceberão que somos iguais. Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será ela quem determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O corpo permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar fisicamente. Nossa mente cria as ferramentas e as absorve como extensão do nosso corpo. Agora, a mente vai controlar diretamente as ferramentas. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.

De que modo a evolução poderá ser influenciada pelo cérebro?O processo de seleção natural vai agir de uma forma muito mais rápida. Em um mundo onde as pessoas terão de atuar com a atenção dividida entre múltiplas ferramentas, os atributos evolucionais necessários para sobreviver mudam. A mente que consegue controlar vários processos de forma eficaz tem uma vantagem evolucional sobre as outras. Há uma base genética para essa facilidade. À medida que gente com essa vantagem se reproduz mais que os outros, ocorre seleção. Várias pessoas – como os biólogos evolucionistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould – previram que o cérebro passaria a ter um papel mais fundamental na evolução. Mas creio que estamos acelerando este papel. Os neandertais acordaram um dia e encontraram o Homo sapiens jogando bola na esquina da casa deles. Um dia, um sujeito pode acordar e se dar conta de que ele já não pertence mais à espécie dos pais. Mas estamos falando de milênios aqui.

Sua abordagem para criar uma interface cérebro-maquina foi listada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Como ela surgiu?Nós – eu e o neurocientista John Chapin – elaboramos um experimento para contestar a doutrina neuronal dominante no século 20 – que rendeu vários prêmios Nobel. Esta teoria estabelecia o neurônio como unidade funcional do sistema nervoso. Nós provamos que a unidade funcional é uma população de células. Um neurônio isolado – que sozinho constitui, de fato, uma unidade anatômica e computacional – não consegue reunir informação suficiente para gerar comportamento, principal função do cérebro. No fim da década de 80, tivemos a ideia de ligar um cérebro de rato a um robô para mostrar que mesmo o neurônio mais fenomenal não gera movimento. Mas, quando registrávamos populações de cinquenta neurônios – mesmo escolhendo-os de forma aleatória -, o animal conseguia movimentar o braço mecânico como se fosse o seu próprio. Não esperávamos um impacto tão grande. Construímos o primeiro centro de neuroengenharia do mundo na Universidade Duke. Agora, qualquer oficina de fundo de quintal nos Estados Unidos tem um centro de neuroengenharia. Há uma explosão de iniciativas no mundo inteiro: Japão, Suíça, Brasil…

Quais os principais desafios para aprimorar essa tecnologia?Conseguimos registrar hoje cerca de 600 neurônios. Nos próximos dois anos, vamos chegar a 60 mil graças a uma inovadora tecnologia de eletrodos tridimensionais. De qualquer forma, é um método invasivo, o que restringe seu uso. Ninguém vai inserir eletrodos no cérebro para brincar com jogos na internet. Precisamos descobrir técnicas não-invasivas, mas que tenham a mesma resolução para registrar os neurônios.

O que é “registrar neurônios”?Colocamos eletrodos no cérebro e registramos a atividade elétrica dos neurônios. Se você colocar os dados obtidos pelos eletrodos em uma tela de computador, não vai entender nada. É como olhar um programa binário de computador. Há uma mensagem codificada ali, mas com um código que está mudando continuamente, pois o cérebro é um sistema auto-adaptativo: cada vez que você faz alguma coisa, ele muda. Precisávamos descobrir um modo de extrair a informação motora dessas salvas de eletricidade que são, na realidade, padrões espaço-temporais que variam com o tempo. De início, parecia ruído… em boa medida, porque é mesmo ruído Poisson, como costumamos chamar. Mas percebemos que, com métodos de regressão linear, conseguíamos obter a informação. A partir daí, deixamos o próprio cérebro atuar como nosso computador: ele resolvia o sistema de equações lineares e encontrava um equilíbrio ótimo que aproveitávamos para estabelecer a interface.

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo