21 de setembro de 2013

Turismo cultural em Marrakech – Uma viagem (improvisada) de três dias ao Marrocos.



Decidi ir para Marrakech depois de uma disputa mental em visitar cidades que ainda não conheço e me interessam por razões diversas entre elas Carcassone por ser o coração da Provance; Berlim por sua dinâmica cultural ou alguma das muitas cidades árabes do norte da áfrica.  Desisti do sul da França pela dificuldade logística e da Alemanha pelo frio que fazia.
Estava em Paris diante da perspectiva de um fim de semana chuvoso e com uma agenda livre de uma semana antes de voltar ao Brasil. Ficar na cidade ou aproveitar as ofertas de viagens de última hora?  Viajar de improviso na Europa pode ser decisão de impulso diante da oferta de voos baratíssimos do tipo “last minute”. Assim, optei por ir à Marrakech, com a grafia e o sotaque francês, onde desembarquei no domingo pela manhã, depois de um voo de três horas, com um Guia da Cidade editado pela Hachette comprado no aeroporto de Orly. O tempo do voo serviu como preparação mínima para entender e me locomover pela cidade, de taxi, ônibus, a pé e de charrete, assim nessa sequencia, por quilômetros de largas avenidas e ruelas de dar medo.
A primeira descoberta foi que a cidade de Marrakech é monocromática, cor de louça de barro, entre o ocre e o avermelhado. Nada escapa dessa imposição cromática. Os táxis, os transportes coletivos, as casas, até os meios-fios são pintados da mesma cor.  O único que desobedeceu a essa norma e habito local foi Yves Saint Laurent, pintando de azul anil as paredes da casa (foto abaixo) e as cerâmicas de um Jardim particular que foi morada do pintor Jacques Majorelle, comprada e restaurada por Yves e seu amigo Jacques Berger. Virou atração turística obrigatória. Plantas dos cinco continentes, cuidadosamente selecionadas e cultivadas durante anos, distribuídas em espaço próprios nos canteiros, que circundados por pequenos pontos de água, seriam a personificação do paraíso para os sentidos, não fosse à fila interminável de turistas que fizeram desse espaço uma referencia no turismo eco cultural.  Diante da aridez do deserto esse contraponto ecológico foi o maior luxo que o dinheiro pode comprar para seus primeiros proprietários. Puro luxo emocional. Como de resto são os Riads e restaurantes das mil e uma noites existentes na cidade. Estabeleci de imediato o conflito cultural gastronômico, entre a cidade nova que quer ser contemporânea ou a tradicional marroquina.
Experimentei todas as modalidades de Cuscus e Tahijes, em restaurantes quase populares até o palácio Dar Yacoosa, com a decoração mais suntuosa possível, que vale cada Dirahn gasto. Terminar o dia diante de uma bela mesa, ouvindo virtuosos músicos locais, dança do ventre, incensos perfumados e um inacreditável vinho local é a compensação por um dia inteiro de andanças e descobertas, e aprendendo na pratica pedaços do modo local de vender produtos e serviços. Do preço do taxi ao do artesanato, tudo passa por um duelo entre ser explorado ou pagar o preço justo. Quanto mais seus olhos brilharem maior a facada.
Dou duas dicas para quem for a Marrakech. Nunca compre nada no primeiro dia da viagem. Procure saber, converse e desconverse. Deixe para comprar no dia seguinte quando a emoção e o desejo estiverem esfriados. Segunda: Tudo aquilo que não tiver o preço escrito ou tabelado seja você a dar o primeiro numero. Oferta que terá de ser bem mais abaixo daquilo que estiver disposto a pagar, porque irão chorar lagrimas de crocodilo ou rir da sua proposta, para começar o jogo no qual são mestres, vender pelo melhor preço seu produto ou serviço de acordo com a paciência do cliente. Assim comprei um Killim pequeno, como prova material da minha primeira tentativa de imersão na cultura local, visitando os locais de produção artesanal, uma babuch para andar dentro de casa e os inevitáveis presentes. 
O coração da cidade é a Praça Jemma-el-Fna. Durante o dia parte desse gigantesco espaço vazio é ocupado por dezenas de encantadores de serpente, com algumas enroladas no pescoço, querendo cobrar por cada foto que deles for tirada.  O mesmo fazem músicos com trajes e instrumentos típicos e demonstrações de macacos e falcões amestrados e dezenas de vendedores de sucos de laranja, dulcíssimas.  Ao cair da tarde e pela noite adentro a praça se enche de centenas de barracas com comidas exóticas, cheiros e temperos fortes consumidos com as mãos sem ajuda do álcool, proibido perto da mesquita. Milhares de pessoas circulam curiosas para ouvir os contadores de histórias, os músicos locais e negociar com vendedores de pequenos artesanatos.
Dessa praça, que fica situada no meio da área murada do centro da cidade, a Medina, sai um emaranhado de ruas e ruelas sem passeios, disputadas palmo a palma por ciclistas e motociclistas, carroças de burro, turistas lentos e pessoas apressadas. Mulheres de burca negra, apenas mostrando os olhos ou uma exímia motorista de ônibus, demonstram ambiguidade da vida da mulher na cultura muçulmana.  A sujeira nas ruas e o estado de conservação dos imóveis espantam. As ruas não têm placas com seus nomes, desconhecem a simetria. Ruelas que se estreiam às vezes em passagens de um metro de largura, tornando impossível a localização sem a ajuda de informações das pessoas do local. Todos solícitos e simpáticos. Os mais prestativos caminham na sua frente até o destino informado, claro a espera de alguma ajuda financeira, nunca menor que cinco euros. Aprende-se depressa a ter de andar com um bom e detalhado mapa da cidade, algum senso de orientação e tempo para errar algumas vezes.O mapa abaixo é o mais detalhado que encontrei sobre a Medina.
Vale a pena o esforço de fazer essa viagem. Rompem-se velhas ilusões, preconceitos ou estereótipos. Descobre-se uma cidade que oscila entre a tradição e a modernidade, que vive uma desigualdade social gritante e uma inegável tensão no choque de culturas. Nela o folclore vira objeto de consumo de massa e a arte popular e o artesanato cada vez mais repetitivo, sem a ousadia do design, talvez com temor de perder sua identidade. Uma pena. As inovações presentes em algumas raras exceções, na moda no vestuário e em objetos de adorno, multiplicam às vezes por dez o seu preço percebido.
Uma das características estéticas locais, presentes até nos postes de iluminação pública, é o uso excessivo de elementos de adorno.  Tudo é muito rebuscado. Todas as combinações geométricas de linhas são exploradas nos azulejos, entalhes, grades, pisos, portas e molduras. Em Marrakech a máxima do design “menos é mais” não se aplica.
Três dias foram insuficientes  para conhecer todos os pontos de maior interesse, com um mínimo de tempo de fruição. Voltei com a bagagem cheia de óleos e temperos exóticos, entre eles água de flor de laranjeira, curry, garans e o desejo de conhecer da próxima vez, Casabranca, toda branca e de frente para o mar.


4 de setembro de 2013

Economia Criativa, Turismo Eco Cultural e Design territorial