28 de março de 2009

Floripa – Imagem da Cidade


Pensar a cidade no ano 2030. Este é o desafio lançado pela Associação FloripAmanhã. Antes de levar minhas idéias para o próximo encontro nesta segunda-feira resolvi compartilhá-las com vocês, na expectativa de algum comentário.

Antes de tudo acredito que pensar o futuro é a primeira tarefa para construí-lo e ele poderá ser do tamanho e do modelo que formos capazes de conceber. Para projetar um futuro possível e desejável para uma cidade é necessário conhecer suas vocações e necessidades. As vocações são ditadas pela cultura formadora e os recursos naturais disponíveis. No caso de Florianópolis a Cultura Açoriana que a tudo permeia, influenciando a própria dinâmica da cidade, no modo de ser dos nativos. Por necessidade entendo como tudo aquilo que será necessário para dar qualidade de vida a quase um milhão de pessoas.

Nada disso rima com verticalidade, condomínios fechados, shoppings (exigências do poder econômico). Jurerê, por exemplo, é como um enclave asséptico, multicultural, cosmopolita, meio Miami, dizem.

Floripa é uma cidade despojada, descontraída, informal. Assim deveria refletir sua arquitetura, seu desenho, sua expansão.

Uma imagem de Floripa sempre estará associada ao mar, afinal os açorianos são pescadores. Esse mar que no passado era um cúmplice oferecendo trabalho e isolando uma ilha, hoje é apenas um atrativo turístico, um espaço de lazer. Explorar os recursos do mar, introduzir e fomentar o transporte náutico, expandir a maricultura, para mim são os novos desafios que devem estar associados a esta imagem de futuro. Uma cidade que se mantém com suas próprias pernas.

Minha imagem de futuro é Uma cidade inteligente e sustentável, em todos os sentidos, social, cultural, econômica e ambientalmente responsável.

Os elementos formadores desta mudança estão presentes, seja por conta da inteligência existente, seja pelo desejo de preservação ainda mais acentuado nos novos habitantes. Esta é a única defesa contra a especulação que vende simulacros, culturalmente dependente, socialmente injusta e economicamente concentradora.

Frase da semana

"Se o que você esta projetando não for bonito ou elegante você provavelmente está no caminho errado"

Richard Buckminster Fuller

25 de março de 2009

O mediador

A ultima frase do clássico filme “Metrópolis” de Frtiz Lang é: “O mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o coração”. Esta frase sintetizava a união entre a classe operária e a elite dominante ao perceberem a necessidade de unirem suas forças para o bem comum. 81 anos depois esta frase continua atual e permeia minhas atividades junto ao setor artesanal.
Sempre pensei que um bom projeto nasce primeiro no coração. Desenvolver um produto artesanal não é um simples ato projetual, asséptico, calculado, programado para chegar ao mercado e seduzir os consumidores. O produto artesanal é fruto de uma relação daquele que o faz com o seu meio e seu universo simbólico. Para entrar nesta realidade é preciso cuidado, em seu sentido mais amplo. Cuidado no sentido de cuidar. Fazer crescer, florescer, dar frutos e nutrir o corpo e a alma. A relação design/artesanato exige um novo olhar, mais sensível, mais emocional. E isso não é um trabalho trivial e solitário. Necessita de uma equipe sintonizada nas mesmas ondas e acreditando nas mesmas coisas. Neste processo cérebro e mãos se entendem somente pela mediação do coração. Desde o primeiro contato devemos ter os olhos e ouvidos atentos para perceber a outra realidade, e através de uma escuta sensível conhecer as aspirações e desejos, verbalizáveis ou implícitos. Depois disso é difícil um projeto dar errado.

23 de março de 2009

Dicas para uma loja de artesanato

Na qualidade de consumidor, mas também responsável pelo sucesso de alguns produtos no mercado, acredito que a ponta final do processo de trabalho de um designer é a comercialização.

Neste momento dois caminhos hoje se apresentam: o comercio eletrônico e o ponto de venda. Os dois não se excluem. Enquanto a oferta de designers digitais direcionados ao “e-commerce” é elevada, e por isso com um custo ainda acessível para os pequenos lojistas, o mesmo não ocorre para a concepção e /ou adequação de lojas especializadas, tarefas dos designers de interiores, mais rarefeitos e mais seletivos.

Minha intenção é fazer com que os lojistas reflitam sobre estes aspectos e oferecer algumas umas dicas, não no sentido de suprir esta necessidade, mas de ajudar a pensar em como melhorar suas vendas.


Exponha apenas um produto de cada série.
O desejo do comerciante de tudo mostrar tem se mostrado ineficaz para o incremento das vendas. O excesso de informação, a exibição de vários produtos iguais banaliza a oferta..
O artesanato é um produto único, singular, parecido com os demais, porém exclusivo, pois foi feito a mão com as pequenas imperfeições e diferenças que em um produto industrial são imperdoáveis ou impraticáveis. O artesanato deve ser apresentado como uma peça única e de maior valor que um produto similar industrial. Não por seu valor de uso, mas por seu valor simbólico. Deste modo exponha apenas um produto de cada série. Os demais guardem no deposito. Diante de muitos produtos aparentemente iguais o consumidor se sente diante de algo repetitivo, banalizado e de pouco valor. Ao ver exposto apenas um produto de uma serie, o consumidor se sente tentado por esta oferta exclusiva.

Celebre os momentos
A loja deve refletir o momento cultural expondo produtos que se relacionem aos eventos de grande expressão e apelo popular: Férias, Carnaval, Páscoa, Festas juninas, Natal...Porém o lojista deve fazer isso através de uma oferta integrada. Uma mesa de jantar tematizada é uma excelente vitrine para demonstrar as possibilidades de convívio harmônio entre produtos diferentes e que se completam. O foco de atenção do consumidor passa a ser, não mais o produto isolado, mas o conjunto de produtos que mutuamente se reforçam. Fora das datas oficiais a loja pode, e deve, promover ofertas temáticas. O lançamento de uma coleção, ou a exposição de produtos de uma determinada região ou de uma determinada tipologia, cria a oportunidade para os clientes visitarem a loja. Convide os clientes-alvo e formadores de opinião para celebrar estes momentos especiais. Ofereça pequenas lembranças, de baixo custo financeiro, mas de alto valor afetivo Esta é mais uma forma de fidelização. Convidar os clientes para estes pequenos momentos especiais (mini-coquetéis, palestras, lançamento de coleções,) os faz se sentir especiais, por gosto e afinidades e conseqüentemente mais motivados ao consumo.

Contextualize os produtos em um cenário.
Exponha os produtos agrupados por afinidade, formando uma coleção, um uso conjugado, ou uma afinidade estética ou de linguagem. Uma imagem de onde este artesanato foi produzido ou de quem o produziu acrescido de um pequeno texto e apresentado junto com o produto nas prateleiras ou vitrines, agrega um valor exponencial. Diferente de um produto industrial o artesanato tem uma história para contar. Ele remete a um determinado lugar e um determinado momento. Os móveis e suportes físicos de cada espaço da loja não podem “brigar” com os produtos. Isso significa que devem pertencer a um mesmo contexto cultural. A mescla de estilos, épocas e culturas diferentes podem ficar interessante em uma loja de decoração, mas não em uma loja que vende artesanato. No momento da compra de um produto artesanal o consumidor é levado pela emoção, pelo desejo, pelo impulso. Ao misturar informações e referências, representadas por produtos diferentes, em origem e tempo, o lojista prejudica a leitura e compreensão do consumidor de um contexto que dá sentido aqueles objetos. As concessões em vender produtos industriais em uma loja de artesanato, devem ser restritas apenas a alguns produtos, que mesmo de origem industrial são mais adequados no conjunto oferecido. Por exemplo, na montagem de uma mesa de jantar, o lustre, os talheres ou copos de cristal, porém com um design que combine, podem ser apresentados, como um complemento da oferta artesanal.


Mantenha um espaço da loja para expor uma oferta diferenciada e exclusiva.
Os trabalhos de uma determinada região, ou unidade produtiva, que são vendidos de modo exclusivo devem ser apresentados de modo separado do resto da oferta. Aqueles são os produtos que nenhum outro lojista possui na cidade. Devem por isso serem “dramatizados” com um espaço e uma iluminação especial. A iluminação é um dos aspectos mais importantes de uma loja e quase sempre é negligenciada. O foco de luz deve ser sempre direcionado para aquilo que se quer destacar. Iluminação de restaurante em uma loja de artesanato é fatal. Aproxime a luz do objeto em detrimento do espaço vazio.

Capriche na marca e na embalagem

Faça como os japoneses. O custo da embalagem deve estar embutido no custo dos produtos. Com isso os produtos ganham uma “roupa de distinção”. As embalagens devem ser planejadas para que protejam e valorizem o produto. A marca da loja nas embalagens é uma “garantia de qualidade” daquilo que ela vende. Conte uma pequena história. Poetize a forma de apresentação.

Faça permanentemente uma pesquisa de demanda com os seus clientes
De modo sutil e não formal habitue-se a fazer algumas perguntas aos seus clientes, pois as respostas irão ajudá-lo a melhorar sua oferta. Indague sobre o destino do produto (consumo próprio ou presente) produtos que procurou e não encontrou (demanda implícita), sobre gosto ou preferências e sobre a qualidade e os preços. Conhecendo melhor seu cliente será mais fácil definir seu nicho de mercado.

Se nada disso der certo é o caso de se perguntar se a loja está no lugar certo, na hora certa e direcionada as pessoas certas.

18 de março de 2009

19 de março - Dia do Artesão

Em alguns paises da América do Sul (Argentina, Brasil, Chile e Peru) comemora-se no dia 19 de março o Dia do Artesão, numa alusão e homenagem ao dia de São José “ O carpinteiro”. Não se trata de uma data inserida, ainda, no calendário oficial Brasileiro. Disso depende a aprovação do projeto de lei 3926/04 de autoria do deputado Eduardo Valverde, em tramitação no Congresso Nacional *. O primeiro estado a reconhecer oficialmente esta data foi São Paulo, pela lei 7.126, de 30 de abril de 1991, (Projeto de lei nº 57/89, do deputado Archimedes Lammoglia)..

Nesta data algumas lendas serão novamente repetidas, até por vozes oficiais, corroborando uma prática antiga que fazer com que certas mentiras de tanto propaladas acabam se tornando verdades. Uma delas é que o Brasil conta com oito milhões e quinhentos mil artesãos, que respondem por quase 3% do PIB. Este número absurdo foi inventado quando da transferência do Programa do Artesanato Brasileiro – PAB, da esfera do Ministério do Bem Estar Social, em 1995, para o Ministério do Desenvolvimento Industrial e comercio exterior – MDIC, como forma de conseguir um pouco mais de recursos orçamentários. Ninguém se preocupou de consultar a fonte e assim essa “estória” vem sendo repetida ano após ano. Projeções realizadas a partir de recenseamentos da população artesã de alguns estados do norte e nordeste (o maior celeiro de artesãos do país) revelam números dez vezes menores. Nem por isso esta atividade perde em importância, como geradora de trabalho e renda; capacidade de fixação do homem em sua região de origem e valor como expressão cultural.
Precisamos apenas assentar nossas políticas e ações sobre fatos, verdades e informações atuais e confiáveis. Nisso o TOP 100 está sendo uma ferramenta de grande importância revelando a verdadeira face do setor.

(*) De acordo com o projeto de lei o artesanato é a "atividade econômica de reconhecido valor cultural e social, assentada na produção, restauração ou reparação de bens de valor artístico ou utilitário, de raiz tradicional ou contemporânea, e na prestação de serviços de igual natureza, bem como na produção e confecção tradicionais de bens alimentares".
A atividade artesanal deve, portanto, caracterizar-se pela fidelidade aos processos tradicionais, em que a intervenção pessoal constitui fator predominante, sem prejuízo da abertura à inovação.

16 de março de 2009

Lembrando do CETEC em uma entrevista pela internet

Quando e como entrou no Setor de Design do CETEC?
Indicado por um arquiteto com quem havia trabalhado, Cid Horta, fui fazer uma entrevista com Marcelo Resende (cabeludo e de óculos redondo e azul). Bem recomendado ele me contratou. No dia 13 de janeiro de 1973 assinaram minha carteira. Numero: 004. O quarto funcionario a ser contratado pelo então recém criado CETEC. Cargo/função: designer (acho que sou o primeiro do Brasil que tem isso escrito na carteira profissional, pois até então todos nos eramos desenhistas industriais ou programadores visuais) Graças ao Marcelo o setor era de Design e nós erámos designers. Isso em 1973! Eu então com 20 anos nas costas. Melhor epoca da vida!
Quando e como saiu do Setor de Design do CETEC?

Sai aos pouquinhos. Primeiro fui fazer uma pós-graduação na Suíça (79), logo depois que voltei (81) fui convidado pelo CNPq para ajudar Gui Bonsiepe a estruturar um Programa de Design e assim acabei ficando por lá. Somente em 84 fui efetivado no CNPq e tive de romper meu vinculo com o CETEC. Em 83 chamei (pelo CNPq) Marcelo para Coordenar o Laboratório de Design de Campina Grande.
Qual foi sua atuação no Setor de Design do CETEC?
Designer. Mais gráfico que produto. Muito mais...Depois quando estava no CNPq tentava ajudar à distância com propostas e projetos (tecnologias apropriadas)
Qual, dentre os projetos realizados pelo Setor de Desenho industrial você gostaria de destacar? Fale um pouco sobre ele.
Setor de Design, corrija please. O que mais gostei de fazer foi o de sinalização urbana com Taquinho (Eustaquio Lembi de Faria, grande figura). O que eu acho mais poético, mais ingênuo, e mais bacana, foi o de Juramento, capitaneado por Cláudio Martins e Cadinho (Ricardo Mineiro) Isso dava um longo artigo.
Você atribui a abertura do setor a alguma pessoa ou situação?E o fechamento?
Na abertura sobrou visão de futuro (Luiz Carlos Monteiro) e no fechamento faltou essa mesma visão (esqueci quem era na época, coisas de minha memória seletiva).
Como era a relação entre os participantes do setor?
Grande família. Trabalho e festa, festa e trabalho, todos juntos, o tempo todo. Crescendo juntos! Aprendendo juntos.
Como era a relação do setor com o restante do CETEC?
Estranhos (mas queridos) no ninho (os cabeludos do dizarme, diziam...)
Se você tiver alguma foto da época, pode enviar que daremos o crédito.
Perdi tudo na enchente em Floripa. Mas na minha memória ficou uma foto que nunca existiu, munca foi tirada, até porque nela estariam pessoas que estiveram conosco no CETEC em épocas diferentes, mas nessa foto teriam de estar: Marcelo, Cadinho, Taquinho, Oswaldo,Chiari, Érico Dirceu, Claudio, Olinda, Regina, Roberto, Mariangela, Paulo Sérgio, Vania, Auxiliadora, Marcinho, Biagio, Ibere, Chicão, Guido, Patricia, Wagner Magrelo, Gazzinelli, Jorge e muitos outros.
E finalmente, o que você faz hoje?
O mesmo que fazia naquela época: DIZARME,DEZAINE,DIZAININ. Ou seja, naquela época como agora, ninguém entende direito o que fazemos.

11 de março de 2009

Design gráfico - Respostas às perguntas do Jornal o Povo

Há alguns anos atrás o design era dividido em três grandes áreas; Design de produto; design gráfico e design de interiores. Esta denominação passou a ser adotada no Brasil a partir de um documento denominado “Carta de Canasvieiras” resultado e conclusões do Encontro nacional das escolas de design do Brasil realizado pelo LBDI em Florianópolis em 1989. Até então as denominações eram: Desenho Industrial, Programação visual e Decoração, que convenhamos eram um tiro no pé.

Hoje, transcorridos 20 anos todas essas denominações são obsoletas. De lá para cá o design se subdividiu em inúmeras especialidades. Apenas para citar algumas: webdesign,, design digital, ecodesign; fashion design; design estratégico, design management; design urbano; design social...

Neste amplo espectro de possibilidades o design gráfico teoricamente se ocupa da concepção e desenvolvimento de imagens ou sistemas de imagens, incluindo-se os projetos relacionados à imagem das empresas, também chamado de identidade corporativa, ou de modo mais amplo de “branding”, pelos publicitários que descobriram nisso um novo filão. Do mesmo modo o design gráfico abarca os projetos ligados ao desenvolvimento de sistemas de sinalização; interface design; design editorial; design de embalagens e tudo mais que tiver como suporte o universo bidimensional.

Quais são as oportunidades de trabalho?

Cada vez mais a mídia impressa cede lugar a mídia eletrônica. Disso se valeu Barack Obama para se eleger. Ao enveredarmos no novo mundo virtual quem deve se ocupar de criar as mensagens neste novo espaço? Aí talvez o design consiga enxergar uma nova janela de possibilidades de dimensões inimagináveis. Contudo, quem esta dominando, pelo ao menos provisoriamente, esta nova mídia no Brasil são os “micreiros” neologismo pejorativo para designar este exército de manipuladores de ferramentas digitais, pirotécnicos do flash, inocentes com relação ao compromisso com conteúdo, usabilidade e arquitetura da informação.

Onde aprender design?

Teoricamente o design deveria ser ensinado em escolas superiores que ensinassem os indivíduos a pensarem, a decodificarem informação, a interpretarem as necessidades, anseios e aspirações da sociedade. No entanto o que se vê (salvo algumas exceções) é um pulular de empreendimentos para-acadêmicos, puros caça níqueis, que se limitam a ensinar o uso das ferramentas. Fazendo um paralelo é como se os cursos de literatura se limitassem a ensinar datilografia ou caligrafia.

As universidades que atualmente oferecem cursos de design - para estarem em dia com a realidade do mercado, que se renova em uma velocidade cada vez maior - terão de rever seus mecanismos e projetos pedagógicos. Deverão buscar urgentemente formas de aprender e ensinar em tempo real, em um mundo em permanente processo de mudança.

Sem isso o ultimo aluno, em breve, vai sair e apagar a luz. Vai tentar aprender a fazer design por si próprio. Pois design somente se aprende projetando coisas reais para um mundo real.

Centro de Design do Ceará - Soprando cinzas...

Muitos me perguntam como e porque o CDC acabou. Este artigo que segue, escrevi em março de 2003, e conta bem este processo.

Em 1996 o então Secretario de Cultura do Ceará, Paulo Linhares, empreendeu um grande esforço no sentido de implantar uma nova política cultural baseada no estimulo à industrial de bens simbólicos de alto valor agregado, inserindo em seus planos a criação de uma Escola de Design.

Neste sentido, diversas instituições de ensino foram visitadas e uma proposta foi formulada por professores de uma conceituada escola de Design do Rio de Janeiro, que no entanto por seu academicismo e idéias de ensino ortodoxas foi rejeitada. Buscava-se uma proposta mais ousada e adequada ao Ceará.

Uma visita de uma alta funcionária da Secretaria de Cultura do Ceará ao Laboratório Brasileiro de Design / LBDI, em Florianópolis, abriu a perspectiva para uma colaboração, tendo em vista, principalmente, as experiências pioneiras de ensino que estavam sendo testadas em Santa Catarina.

Diante da eminência de uma assessoria proposta por um designer Italiano, (aquele mesmo de sempre!...) cuja postura permitiam antever o caráter eurocentrista de suas propostas, que nada acrescentariam ao Ceará e ao Brasil, a equipe do LBDI decidiu formular um projeto de escola alternativa contando com a intermediação da arquiteta Janete Costa.

A proposta deixava claro que não se pretendia criar (naquele momento) a 68a escola de Design do país, pois as escolas existentes já eram mais que suficientes. A proposta do LBDI defendia a criação de uma escola pioneira, inovadora em sua forma e conteúdo, livre das amarras do MEC e dos sistemas formais de ensino, sintonizada com as mudanças do mercado e as necessidades do nordeste.

Para desenhar as bases desta nova Escola de Design constitui-se um pequeno grupo de professores que durante uma semana, em Fortaleza, estabeleceram as bases do projeto pedagógico. Este grupo era coordenado por mim e contava com os seguintes convidados:
• Augusto Morello, Fundador do ICSID. Presidente da Trienal de Milão. Um dos pioneiros do design Italiano. Editor e critico da Revista Estilo e Industria. Falecido em 2001.
• Luis Rodriguez Morales; designer Mexicano; PhD. Viveu e trabalhou no Japão, Inglaterra, Dinamarca, Holanda., Cuba e Brasil. Um dos mais consagrados autores sobre teoria e ensino do design na América Latina.
• Joaquim Redig; designer; professor da UFRJ. Autor de três livros sobre ensino do Design.
• Romeu Damaso; Professor da Escola de Design da UEMG.
• Lia Mônica Rossi; MsC; Professora no Curso de Design da UFPB.

Este grupo propôs a criação de uma escola cujo ensino fosse fundamentado em três pilares:
• Domínio de linguagens
• Compreensão de fenômenos
• Aplicações na realidade.

Foi sugerida uma grade curricular com quase 100 disciplinas de modo a dar a mais ampla visão possível do universo do design, sem concentrar-se em nenhuma especialidade, contrariando assim as recomendações do MEC porém indo de encontro ao modelo de ensino que estava sendo adotado nas escolas de design mais avançadas do mundo.

Esta escola não formaria designers Industriais, gráficos ou de interiores e sim DESIGNERS. Cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e não mais fazedores de produtos e imagens apenas para induzir o consumo.

Ao final de cada etapa o aluno teria uma visão bastante ampla dos possíveis campos de atuação, formando uma espécie de espiral de competência com graus crescentes de complexidade.

No ultimo período seriam concentrados esforços no sentido de preparar os alunos para o mercado de trabalho constituindo eles próprios suas empresas de design. O circulo se fecharia com a criação da primeira Incubadora de Empresas do país de modo a garantir a inserção destes jovens designers no mercado de trabalho.

Devida a escassez de professores com experiência em design no Estado do Ceará decidiu-se concentrar as disciplinas em bloco viabilizando assim a vinda de professores de outros estados do Brasil, ou mesmo do exterior.
Como estes professores seriam remunerados por hora-aula e sem vínculos poder-se-ia pagar um valor mais atraente.

Para cobrir as despesas com hospedagem e alimentação a SECULT valeu-se de uma dívida do Hotel Othon com o Governo do Ceará, que seria assim amortizada. Para cobrir as despesas de passagens e honorários foi montado um projeto que foi aprovado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT do Ministério do Trabalho. Recursos adicionais, incluindo bolsas para professores visitantes, foram negociados e obtidos com outras instituições, tais como: CNPq e SECITECE que permitiram adquirir computadores e equipamentos para as Oficinas.

Estas decisões permitiram trazer professores da Alemanha, Bélgica, Holanda, Argentina, Chile, Colômbia, México e Estados Unidos, fazendo com que o time de professores do CDC não encontrasse paralelo em nenhuma outra escola de design.

Em disciplinas cujo conteúdo não eram específicos de Design foram convidados os melhores professores locais entre eles Claudia Leitão (no momento da redação deste artigo, 03/2003) Secretaria de Cultura do Ceará.

O processo de seleção consistia em um preparatório com cujo numero de alunos era o dobro ou o triplo da vagas. Durante dois meses, avaliações semanais de desempenho, iam fazendo uma seleção natural dos mais talentosos. Devido ao esforço empreendido a forma de ensino e a qualidade dos projetos desenvolvidos pelos alunos, despertou a curiosidade internacional.

Em artigo publicado em uma Revista Internacional a pesquisadora da Universidade da Florida, Maria Bernal, colocava o CDC como uma das duas experiências de maior sucesso no ensino de design na América Latina, ao lado da Universidad de las Américas, de Puebla / México.

O Êxito do CDC deveu-se, principalmente aos seguintes fatores:
• Preocupação em capacitar para o mercado e não diplomar os alunos (Diplomar somente se isto não significasse prejuízo para o modelo de ensino o que somente ocorreria com a promulgação das novas diretrizes curriculares para o ensino de design, pelo MEC);
• Inovador sistema de avaliação baseado em afirmações lingüísticas e aplicação bilateral (alunos e professores. Todos avaliam tudo e a todos);
• Aprendizado baseado na experimentação e em projetos reais;
• Foco nos elementos da cultura regional porém cotejados com as tendências mundiais;
• Apoio financeiro (isenção de pagamento) somente para os que necessitam e com um processo seletivo baseado no mérito.
• Acompanhamento pedagógico por profissionais com larga experiência docente de projeto, fazendo a ligação entre conteúdos;

Deste modo duas turmas foram concluídas entre 1997 e 2000.

A saída de Maurice Capovilla, da Direção do Instituto Dragão do Mar em meados de 2000 e sua substituição por Silas de Paula significaram o princípio do fim do projeto inicialmente idealizado.

O clima de confiança e respeito mútuo, de camaradagem e de compromisso ético até então existentes foram substituídos pela arrogância, pela prepotência e pela truculência das decisões do novo diretor do Instituto.

Diante deste quadro as mudanças inevitáveis ocorreram na direção do CDC com a minha saída em julho de 2001 e do Coordenador pedagógico Marcelo de Resende.

O novo diretor do CDC, Álvaro Guillermo ainda tentou manter as propostas iniciais, mesmo diante da escassez de recursos e dos novos métodos de administração. A expectativa de todos era por uma mudança do comando da SECULT com a eleição de um novo Governador que poderia então permitir retomar os rumos inicialmente traçados.

As mudanças efetivamente vieram com o novo governo porem não aquelas esperadas. Embora todos estivessem confiantes no apoio da nova Secretária de Cultura (tendo em vista os muitos laços profissionais entre ela e os muitos protagonistas deste projeto), o Instituto Dragão do Mar foi extinto e com ele o projeto do Centro de Design do Ceará, sem que seus autores e aqueles que nos últimos anos dedicaram seu tempo e seu esforço ao Estado do Ceará, tivessem sequer sido chamados a opinar.

Um dos argumentos utilizados nos discurso oficial foi o “fim dos recursos do FAT e da necessidade de adequar o curso à realidade de um Estado pobre” .

Tristes argumentos. Para os bons projetos sempre existirão recursos. Afinal, para onde foram os 900 mil reais destinados pelo SEBRAE para apoio ao design no Ceará em 2003? Com o prestigio das atuais autoridades não seria difícil conseguir um re-ordenamento destes investimentos. Com nossas relações internacionais não seria difícil conseguir novos convênios de cooperação técnica viabilizando a vinda de professores, como já estava acontecendo antes de nossa saída.

Com toda a franqueza, a maior pobreza que vi no Ceará foi a de espírito, daqueles que perderam a capacidade de sonhar e acreditar.

A proposta de transferir o Curso de Design para o SENAC (bem ou mal intencionada, jamais saberei...) significou uma radical mudança do modelo de ensino até então defendido. O fim de uma utopia que estava dando certo. Mais uma vez, a vitória do formalismo acadêmico sobre a ousadia e a inovação, exatamente os princípios norteadores do design. Durou pouco esta experiência. A terceira turma nunca conseguiu concluir seu curso.

O que nos consola são as palavras de Joaquim Redig, grifadas ao final de seu livro “O sentido do Design” esperando que as mesmas um dia se transformem em realidade: “..ou a Universidade muda a sua forma de ensinar ou o ensino vai se mudar da universidade”.

Eduardo Barroso
17 / março de 2003.