Ao longo das três últimas décadas, trabalhando com o artesanato, tive o privilégio de acompanhar sua evolução em diferentes lugares. Em alguns momentos como espectador, em outros, como protagonista de projetos que ajudaram a construir políticas públicas, metodologias e iniciativas como o Prêmio Sebrae TOP 100 do Artesanato Brasileiro.
Poucas vezes, porém, acompanhei
experiências tão consistentes quanto as empreendidas aqui Paraíba.
Diante disso ouso afirmar que dificilmente
outra instituição brasileira tenha apoiado tanto o artesanato, nos últimos dez
anos, quanto o SEBRAE Paraíba. De um lado porque está em seu DNA a compreensão
da realidade do pequeno e microempreendedor, que na figura do artesão traduz o
melhor exemplo do tipo de empresa que o futuro aspira e deseja, lastreada na
cultura, na identidade e no respeito ao meio ambiente.
Patrocinou a
candidatura de João Pessoa como a primeira Cidade Criativa da UNESCO no Brasil
no segmento do artesanato e manteve esse compromisso ao longo dos nove anos
seguintes, apoiando salões estaduais, oficinas criativas, missões técnicas,
cursos e eventos nacionais e internacionais.
Hoje João
Pessoa passou a ocupar um lugar de destaque no cenário internacional. Da mesma forma Monteiro, como as únicas cidades
do Brasil que são referências quando se trata da promoção do artesanato.
João Pessoa reconhecida pela UNESCO e
Monteiro pelo Conselho Mundial de Artesanato.
Conquistas que devem ser creditadas na
conta do SEBRAE, e por tudo isso deixo aqui nosso imenso obrigado, porém sem
deixar de lembrar que Instituições não
sonham.
Pessoas sonham.
Por trás das decisões institucionais
sempre existem nomes, rostos e convicções. Neste caso, Regina Amorim e Luiz
Alberto Amorim tiveram a coragem de acreditar, quando ainda poucos acreditavam,
que a economia criativa poderia ser uma estratégia de desenvolvimento para a
Paraíba.
Esse Curso de Capacitação dos Agentes
de Inovação e Design para o Artesanato, por seu pioneirismo e aplicabilidade tem todas as condições para tornar-se
uma referência metodológica para o SEBRAE Nacional. Sua realização somente foi possível graças à
parceria SEBRAE com a Prefeitura de João Pessoa e o apoio do PAP.
Depois de atuar tantos anos nas
relações simbióticas do design com o artesanato e a cultura brasileira encarei
o desafio de estruturar esse curso, organizando aquilo que a experiência havia
me ensinado ao longo da vida e compartilhá-lo com uma nova geração, significando,
para mim, uma passagem de bastão.
Aos 16 colegas que durante dez meses dedicaram parte do seu tempo nesse desafio coletivo deixo o melhor que tenho, que são minhas memorias emocionais.
Espero que cada um tenha vivido também
encontros que eu não vi. Encontros consigo mesmo. Com sua geografia afetiva.
Com pessoas e lugares que ampliarão, silenciosamente, seus horizontes.
Porque toda
formação só faz sentido quando prepara alguém para aquilo que ainda não existe
Enquanto vocês percorriam esse
caminho, o mundo também mudava radicalmente. A fronteira entre o físico e o
mundo digital desapareceu da noite para o dia. Já não sabemos se uma imagem, um
vídeo, um texto ou um ensaio foram produzidos por uma pessoa ou por uma
inteligência artificial.
Nesse
contexto o artesanato pode tomar vários caminhos. Gosto, porém, sempre mirar os
polos oposto. O caminho do meio tem sido o caminho da mediocridade.
Em
um extremo o artesanato pode ser como uma garrafa lançada ao mar. Sem conhecer
o destino, entregue às correntes do tempo e da memória. Talvez não alcance um
porto. Permanecerá como vestígio de um passado e de um lugar.
Ou
o artesanato do outro extremo pode ser como um farol. Uma luz que indica novos caminhos e anuncia
possibilidades. Uma referência física de um tempo e um lugar onde identidade e
inovação caminham juntas.
O
artesanato é sempre algo real e tangível. Carrega consigo afetos, narrativas e
identidades. Em cada peça habitam, no mínimo, duas emoções: a de quem a criou e
a de quem a escolheu.
Entre
essas duas emoções, estabelece-se uma ponte silenciosa, feita de significado,
reconhecimento e pertencimento.
Que
o design seja a bússola dessa travessia, nunca o destino. Não como instrumento
de imposição, mas como ponto de encontro dentro de um território fértil onde a
imaginação dialoga com o saber-fazer; onde a tradição encontra novos horizontes
sem perder suas raízes; onde a criatividade amplia o valor daquilo que já é
essencial.
Ao
aproximar pessoas, conhecimentos e sensibilidades, o design não apenas
qualifica objetos. Ele revela histórias, fortalece identidades e ilumina
futuros possíveis. Enriquece a alma do que é produzido e renova nossa esperança
na capacidade humana de criar beleza, sentido e conexão.
Sejam essa ponte
A ponte entre quem sabe e quem deseja
aprender.
Entre tradição e inovação.
Entre memória e futuro.
Entre a Paraíba e o mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por deixar seus comentários.