15 de outubro de 2012

No design ou na vida a distância critica é necessária para validar nossas escolhas.


O mergulho profundo em uma ideia ou conceito permite descobrir aspectos invisíveis ao primeiro olhar, detalhes que somente uma aproximação minuciosa é capaz de revelar. A intimidade obtida pelo trabalho e esforço de compreensão é compensada com um sentimento de satisfação ou de conquista. A visão microscópica esconde as vezes uma armadilha que ofusca a visão do todo e, ao invés de aprimorar nossa percepção da realidade limita a abertura para outras possibilidades. 
Seja qual for o objeto focal é necessário um afastamento para visualizar sua verdadeira dimensão e importância. Como um pintor impressionista que não busca mais a perfeição dos elementos com seus contornos nítidos, onde a forma dos elementos passa a ser definida por manchas de cores puras em rápidas e largas pinceladas e cuja composição somente pode ser apreciada a partir de certa distância, a percepção critica é fruto do afastamento temporário. 
Somente assim é possível revelar aquilo que a proximidade excessiva é capaz de ocultar. Para isso é necessário se afastar daquilo que nos absorve, tomado o tempo e a distância critica necessária para ver com outros olhos aquilo que acreditamos nos satisfazer.
Às vezes basta se afastar alguns minutos ou horas, outras vezes dias ou semanas, para revelar a exata dimensão daquilo que estamos fazendo, analisando, pesquisando, criando ou se deixando envolver.  
Como em um retorno de uma longa viagem, com o espírito renovado por novas experiências e o olhar não mais contaminado pela aproximação excessiva com a realidade deixada para trás, temos mais segurança nas escolhas feitas e nos caminhos escolhidos.

21 de agosto de 2012

Economia Criativa e turismo rural


Resumo da palestra apresentada no 20º Agrinordeste
Recife 23 de agosto de 2012

Para entender melhor o conceito de Economia Criativa é mais fácil fazê-lo em oposição com a Economia Tradicional.

Na economia tradicional a valor das coisas é tangível, é visível, existe no mundo físico e sua exploração é que gera a riqueza.  A terra e os mares com seus insumos naturais tais como a fauna, a flora, os minerais, o gás, o carvão e o petróleo permitem através de seu processamento ou exploração obter alimentos, energia e produtos. Na economia tradicional os recursos são finitos e se não forem renovados se esgotam com o tempo. Os produtos e processos da economia tradicional causam impacto ao meio ambiente, poluem a terra, o ar e os oceanos. 
Nos últimos 20 anos foram incorporados ao mercado global mais de 1 bilhão de novos consumidores. Se todos aspirarem o mesmo padrão e qualidade de vida dos norte-americanos seriam necessários recursos equivalentes a sete vezes os disponíveis na Terra.
A sustentabilidade da vida no planeta requer mudanças no padrão de produção e consumo para bens e serviços cada vez mais intensivos em conhecimento e menos absorvedores de recursos naturais. 
O desafio que se coloca hoje é produzir com mais inteligência e menos matéria.  

A economia criativa foi a expressão cunhada para designar as atividades geradoras de riqueza que utilizam como insumo fundamental a inteligência, a criatividade, contribuindo assim para o desenvolvimento sustentável, e inclusivo, de uma determinada região.
Na economia criativa o valor das coisas é invisível, somente sendo reconhecido quando se revelam os frutos da inventividade humana, gerando riqueza através de produtos e serviços que levam em consideração a valorização da cultura, o respeito ao meio ambiente e atenção às necessidades da sociedade.

Os segmentos contemplados pela Economia criativa são todos aqueles que dependem do conhecimento, da inteligência e da experiência, tais como: a música, a literatura, o teatro, o cinema, a televisão, o circo, a gastronomia, a arte e o artesanato, a moda, os softwares, a propaganda, a arquitetura e o turismo.

Os dados sobre a participação destes segmentos na formação do PIB são ainda imprecisos. Estima-se que respondam por mais de quatro milhões de empregos no Brasil, gerando uma receita de cerca de 170 bilhões de dólares por anos ou aproximadamente 7% do PIB Brasileiro.  

O comércio mundial de bens criativos aumentou de 205 bilhões de dólares para US$ 407 bilhões em 2008, com um crescimento médio de 11.5% no período 2002 a 2008. O maior segmento exportador dos Estados Unidos é a indústria cinematográfica. 85% dos filmes exibidos em todo o planeta são de Hollywood gerando uma receita de 60 bilhões de dólares por ano. .

Contudo isso são apenas projeções, pois a imprecisão das informações sobre a Economia Criativa é um reflexo da novidade dessa abordagem, sendo necessário agora sair do geral para o particular, abrindo os dados setoriais disponíveis e deles separar as informações úteis, atuais e confiáveis transformando-as em insumos estratégicos para o planejamento setorial.

De acordo com a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) “As indústrias criativas compreendem os ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que usam a criatividade e o capital intelectual como principais insumos. Incorporam um conjunto de atividades baseadas no conhecimento, que produzem bens tangíveis e intangíveis, intelectuais ou artísticos, com conteúdo criativo e valor econômico”  

A Economia Criativa é a “bola da vez” pois descobre-se a importância de seu potencial para: favorecer o empreendedorismo; gerar emprego e renda mantendo e fixando o homem no campo; gerando tributos e impostos; atraindo indústrias e trabalhadores qualificados; alimentando a economia do turismo; realçando as tradições e história locais; promovendo a inclusão social e o reforço da cidadania e promovendo a diversidade e a tolerância.

Os segmentos que compõe a Economia Criativa eram vistos pelo Estado Brasileiro através de diversas óticas, relacionadas às distintas instancias de poder e de importância.

As formas mais comuns de expressão artística eram da esfera do Ministério da Cultura; Arquitetura do IPHEA; o artesanato, o design e moda pelo Ministério da Indústria e Comércio; Os softwares e games pelo Ministério da Ciência e Tecnologia a o Turismo como um Ministério próprio. 
O conceito de Economia da Cultura ao agregar esses setores que vivem da habilidade e do talento individual descobre uma sinergia entre eles capaz de criar um novo ciclo virtuoso de desenvolvimento com inclusão e responsabilidade para com a geração atual como para as futuras. 

A dinâmica própria desses setores faz com que alguns sejam mais percebidos e valorizados mais que outros. Um deles é o turismo. Que contudo necessita de infraestrutura adequada (transporte e  saneamento); produtos e serviços de qualidade; mais profissionalismo e especialidades e de definir melhor o público-alvo.
  
Durante muitos anos o Governo Brasileiro apoiou e priorizou, direta ou indiretamente, o turismo de massa e os destinos mais conhecidos. A riqueza de nossa diversidade natural e cultural somente há poucos anos comoçou a ser explorada.
A criação dos roteiros culturais é uma das alternativas que precisam ser mais bem trabalhadas para atrair um turismo mais qualificado, mais vivencial, menos impactante.

O turismo vivencial que engloba os segmentos do turismo cultural, ecoturismo, turismo rural é turismo de aventura é o dos novos empreendedores com visão de futuro e dos gestores públicos a partir da percepção que esse é o turista que viaja para aprender, e não para comparar, que respeita e valoriza a cultura alheia. Viaja para viver uma experiência e não para cumprir uma obrigação ou apenas consumir.

O turismo rural é uma nova janela de oportunidades que deve ser trabalhada simultaneamente pelo poder público e pela iniciativa privada. É preciso oferecer capacitação em todos os níveis para as profissões e atividades específicas requeridas em cada destino turístico.
As principais características do turismo rural são:
  • Contato com a natureza e com as práticas e tradições rurais e locais;
  • Estabelecimentos que refletem a forma de ser e de viver no campo;
  • Serviços oferecidos aos visitantes pelos próprios agricultores  (passeios, visitas guiadas, atividades culturais); 
  • Meios de hospedagem com conforto, higiene e segurança e tranquilidade;
  • Predominância de pequenos empreendimentos e adaptações de antigas propriedades rurais;
  • Sazonalidade e baixas taxas de ocupação;
  • Preços acessíveis, geralmente abaixo da rede hoteleira urbana;
  • A recepção e o convívio visam intercâmbio de experiências e respeito mútuo.
Do mesmo modo é preciso cuidar (melhorar e divulgar) os produtos associados ao turismo
  • A arte popular, o artesanato e os produtos agropecuários típicos da região através de uma oferta diferenciada e relacionada com a experiência vivida, contribuindo para a geração local de trabalho e renda;
  • A produção diferenciada (viticultura, artefatos de montaria, cerâmica, etc) motivadora de fluxo turístico e vinculado à identidade local;
  • As manifestações culturais típicas do destino (Festa do Município; Festa da Padroeira; Festivais folclóricos e culturais; Rodeios, etc);
  • Os meios de hospedagem referenciados por sua qualidade e vínculos culturais com recursos humanos locais qualificados, valorizando os artistas da região e adaptando-se a agenda cultural local  
  • Os bares e restaurantes que utilizam ingredientes tipicamente locais e apresentam pratos de consumo tradicionais da região, valorizando os produtos da agricultura familiar e orgânica, promovendo a releitura da gastronomia tradicional estimulando a diversidade e realizando eventos gastronômicos.
O Design Territorial é um modo novo de abordagem sistêmica dos problemas de uma determinada microrregião, capaz de projetar o futuro desejado por seus habitantes.

As principais ações e projetos desse esforço resultam na realização de:
  • Um planejamento estratégico participativo e multidisciplinar, estabelecendo um plano de metas (saneamento, acesso, capacitação); um pacto de cooperação entre os distintos “atores” desse processo; o compromisso público (política de incentivos) e uma política de governabilidade (calendário longo prazo).
  • Uma cartografia ilustrada indicando os pontos de interesse;
  • O desenvolvimento de produtos artesanais de suporte a gastronomia regional, assim como de coleções temáticas vinculadas aos eventos mais expressivos da região.
  • A divulgação eletrônica das rotas e atrativos;
  • Um Guia dos empreendimentos turísticos de referencia cultural;
  • A Identidade da rota, do destino e dos produtos, incluindo um programa de identidade (marca, slogan, aplicações), a seleção dos pontos de interesse e o licenciamento de uso da marca.
  • Uma pesquisa que documente e explore os elementos mais expressivos da cultura material e iconográfica da região, servindo de inspiração para os artistas e empreendedores locais desenvolverem produtos e serviços identificados com sua origem;
  • A padronização e personalização do mobiliário urbano e viário;
  • Uma sinalização urbana e viária identificando os acessos aos pontos de interesse;
  • O desenvolvimento e instalação de equipamentos e serviços relacionados ao turismo rural para a prática do hipismo, arvorismo, canoísmo e outros esportes de aventura.  
Os elementos acima descritos são indispensáveis para qualificar um território criativo, como sendo aquele capaz de promover o melhor uso de seus recursos naturais, culturais e humanos, impulsionando um desenvolvimento mais justo e equitativo com melhor distribuição das oportunidades de trabalho e de renda para a população local. 
“Paisagem cultural” e “Cidades Criativas” são certificações concedidas pela UNESCO, baseada em critérios norteados pela qualidade dos vínculos existentes entre os distintos “atores” do processo de desenvolvimento local.

Espaços com estas características atraem visitantes que identificados com a qualidade de vida, com as oportunidades e condições de trabalho criativo, optam por fixarem-se no local, ampliando ainda mais a oferta especializada. 
Este espaço necessário para que a criatividade floresça, requer:
  • Recursos materiais, instrumentais e humanos qualificados;
  • Oportunidade de requalificação e aperfeiçoamento;
  • Oportunidades e liberdade de trabalho;
  • Conectividade colaborativa;
  • Apoio e estímulo à inovação.
Pesquisa realizada em 2011 junto as principais pousadas do litoral sul de Pernambuco apontaram os elementos mais valorizados pelos turistas que viajem com o foco na cultura local.
  1. Localização do empreendimento (facilidade de acesso, interesse cultural e ambiental);
  2. Arquitetura integrada à paisagem, personalizada, utilizando os recursos naturais da região;
  3. Decoração baseada nos elementos da cultura local, da arte popular e do artesanato;
  4. Gastronomia regional, com intervenções autorais valorizando os produtos da pesca artesanal, da agricultura familiar e do terroir.;
  5. Respeito ao meio ambiente e adoção de práticas ecológicas;
  6. Conforto e qualidade das instalações;
  7. Hospitalidade do atendimento com pessoal qualificado do local; 
  8.  Imagem do empreendimento planejada e baseada em elementos do repertório cultural local;
  9. Comprometimento  com a produção e agenda cultura regional, valorizando os artistas locais;
  10. Conectividade e abertura para receber públicos multiculturais;
  11. Avaliações positivas recebidas dos hospedes (booking).
Uma das conclusões é que na nova economia o importante e estratégico não é fazer mais barato, cada vez mais difícil em um mundo globalizado, mas fazer diferente.

Sugestões de projetos integrados:
  • Desenvolver novas coleções de produtos com a identidade do lugar.
  • Implantar um programa de capacitação e de relacionamento com outros polos turísticos. 
  • Lançar uma campanha promocional dos empreendimentos (selecionados) com foco no turismo qualificado e na gastronomia com denominação de origem.
  • Estabelecer uma agenda cultural comum entre os diversos integrantes do polo turístico.
  • Avançar na construção de planos estratégicos e de projetos de design territorial.
Tudo isso representa um grande desafio que necessitará da total convergência de interesses e da sinergia entre poder público e iniciativa privada.




7 de agosto de 2012

Principios para o bom design






Velhos ensinamentos que fazem falta aos jovens designers de hoje. Para trangredir é necessário conhecer as regras, e conseguir fazer ainda melhor esquecendo algumas delas. Eu pessoalmente agregaria que um bom design deve causar emoção, surpresa e encantamento. Em um jantar em sua casa, em Frankfurt, descobri em Dieter Rams uma coerência estética e formal rigorosa, fruto de uma disciplina germânica e do pensamento Bauhausiano. Sem sair de seu mundo monocromático Dieter conseguiu, junto com a Empresa Braun, serem ícones do design do século XX. Para ele meu respeito e admiração.

8 de julho de 2012

Criatividade + pensamento divergente = Paradigmas do século XXI

Entendo a criatividade como sendo um processo de conceber  ideias originais que tenham valor. A criatividade não é um dom, fruto de um talento nato. É um atributo comum a todos os seres humanos que pode, e deve, ser continuamente exercitado através do pensamento divergente.  
Pensamento divergente é aquele que permite gerar ideias de modo radial, não linear, com multiplicação exponencial de possibilidades.
Dois conceitos que quando se juntam caracterizam os indivíduos, ou empresas, superdotados de inteligência criativa, motor da nova economia.

São raros estes indivíduos? Uma pesquisa feita com 1.500 crianças de 5 anos mostrou que 98% delas tinham essa característica, que infelizmente foi sendo perdida com o tempo. A causa disso? O processo educacional que obriga o indivíduo a desenvolver o pensamento linear, cartesiano, previsível.
O processo do pensamento divergente parte de um problema. Sem um problema não existe porque mudar de posição, tempo ou lugar.  Cada problema aponta para um complexo numero de perguntas onde cada resposta pode apontar diferentes direções. Para cada resposta,  ou ideia, existe sempre uma ideia em oposição. Destes dois extremos surgem outras possibilidades, que vão identificado ângulos novos e ainda não vistos do problema inicialmente colocado. Essa forma de pensamento gera uma enorme quantidade de alternativas de soluções, algumas delas não usuais, inesperadas, revolucionárias.
O pensamento divergente se estimula diante da possibilidade de descobrir os lados não aparentes ou ainda não revelados de um problema. Eliminar o óbvio e escolher o caminho oposto para encontrar novas pistas. Como em tudo é necessário um ambiente propício, com estímulos positivos, para que este processo se realize.  As empresas e instituições da nova economia criativa possuem traços característicos comuns.  São ambientes que apoiam, e apostam, na criatividade.

Esses ambientes são espaços de troca de ideias, por indivíduos que aportam diferentes experiências, conhecimentos e visões, em busca de um objetivo comum. A aparente ausência de regras tradicionais, tais como estações individuais de trabalho, horários de expediente fixos e hierarquias verticais demonstram outro modo de administrar os talentos. Esse modelo de gerenciamento, adotado no Laboratório Brasileiro de Design seguia os mesmos princípios ideológicos e filosóficos praticados pelo grupo de design do CETEC, nos anos setenta.  
No LBDI as condições propiciavam um convívio intenso entre todos os mebros da equipe, fixos ou transitórios. Os espaços de trabalho e os espaços de moradia no mesmo lugar e uma tradição de acolhimento festivo de todos que chegavam e partiam os elementos diferenciais no modo de trabalhrar e de viver.  Designers de todo o mundo trabalhando juntos no desenvolvimento de um novo produto, com todas as limitações linguísticas possíveis, conseguiam propostas a frente de seu tempo.  Em dez anos mais de duzentos professores e conferencistas, dos cinco continentes, participaram em memoráveis eventos, trazendo novas ideias, métodos e visões, em um processo continuo de aprendizagem coletiva. Contruiu-se assim uma rede de relações internacionais que deu sustentação aos eventos que marcam uma época. Fomos os primeiros a realizar e documentar uma experiência de design social no Brasil e de aplicar o discurso das tecnologias sociais e seus vínculos com a cultura. Estas eram, em sua época, formas divergentes de se pensar e praticar o design.
Hoje, com o surgimento de empresas absurdamente criativas, que geram produtos que revolucionam o comportamento humano, como é o caso da Google, é bom dar uma olhada em suas instalações e formas de trabalho. Eles devem estar certos.

Sobre esse assunto recomendo esse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=DA0eLEwNmAs&feature=youtu.be&t=1s

5 de julho de 2012

O ato de criar

O ato de criação. Esse momento mágico, único, em que uma luz se ilumina na mente e surge algo novo.  Muitas vezes a ideia nasce completa, quase adulta, pronta para ser experimentada. Muitas vezes nasce como um pequeno embrião, que vai se transformando e ganhando forma pouco a pouco. Nasce ainda necessitando de atenção permanente.  Qualquer que seja o processo, lento ou imediato, o ato de criar é uma das experiências mais gratificantes que os seres humanos podem experimentar. A usarmos nossas habilidades, destrezas, inteligência e a busca permanente pelo novo, pelo ainda não visto, pelo invisível aos outros, aí sim estamos vivendo a emoção de criar. Artistas, artesãos, arquitetos, designers, músicos, poetas, escultores, pintores, sabem do que estou falando. E, maior a vocação maior é o prazer  de criar.

Mas o ato de criar não é exclusivo destas áreas inseridas no âmbito da cultura. Os pesquisadores, engenheiros, tecnólogos, químicos, biólogos, conseguem às vezes o privilégio de criar algo novo em suas buscas e investigações. Penso que o ato de criar algo novo, grandioso, a altura de nossas necessidades e aspirações, se incorporado e voltado para o bem pelos políticos e gestores públicos, cambiaria o mundo.  
Mas a pergunta é. Por que essa busca desenfreada pelo novo? Para muitos, ou poucos, como está, está de bom tamanho. A resposta é simples. É porque tudo pode ser mudado para melhor. Esse é um dos desafios da vida. Torná-la melhor, para si, e para os outros.

Mais humana, portanto mais segura, portanto mais livre, mais prazerosa, mais feliz. Assim voltamos ao começo do ato de criar. Se, o final do que aspiramos é a felicidade, portanto é dela que partimos.  
Ver surgir, brotar, nascer, uma ideia que contribuirá com estes princípios é um sentimento raro, como uma bateria que ao mesmo tempo em que consome energia retribui com mais energia ainda. O ato de criação por isso é viciante. Quando se descobre este prazer dele não mais abdicamos.  Sofrimento passa ser a rotina, a burocracia, a monotonia das coisas e dias iguais.
Quem se vicia no ato de criar é essencialmente um inconformista que acredita que tudo em sua volta pode ser mudado, para melhor. Por isso cada dia é uma surpresa, uma nova opção, um levantar da cama de um modo diferente, com um olhar mais atento e sensível.  

Ocupar as mãos e a mente com a criação de coisas novas, ou novas realidades, é uma dádiva que pode ser explorada ao extremo. Quanto mais se cria, mais se tem vontade de criar. Impondo limites e se esforçando para ultrapassá-los. Quando o que se cria é bom, maior é satisfação pessoal que se transforma em novo esforço cujo resultado será ainda melhor, e assim sucessivamente em uma espiral virtuosa.
Dizem que alguém perguntou para Picasso qual de seus quadros (ou fases) ele gostava mais. Ele respondeu: Da próxima.  

4 de julho de 2012

O futuro das cidades

O modelo de cidade com o qual estamos vivendo, e convivendo sem a dimensão de sua fragilidade, não aponta para um futuro satisfatório. Os privilégios conquistados por uma parcela mínima da população impedem que reformas estruturais sejam empreendidas. Soma-se a isso a falta de visão de futuro dos gestores públicos, fruto de instrução e de informação precária; leis anacrônicas ou a simples existências delas, que impeçam ou coíbam a exploração desordenada do território; a crescente demanda por transporte individual em detrimento do coletivo; a insegurança gerada pela falta de proteção ao cidadão; a incompreensão da amplitude do conceito de saúde que passa pela existência de um saneamento básico decente;  a especulação imobiliária que afasta cada vez mais do centro as pessoas de menor poder aquisitivo. Essas são algumas das conclusões que se somam ao diagnóstico elaborado pelo Professor Dalmo Viera, e discutidas em uma pequena reunião entre amigos que ainda acreditam que é possível encontrar saídas para o caos urbano em que nossas cidades estão mergulhadas, ou em sua inevitável direção.

A primeira das propostas debatidas foi  a necessidade de ampliar os preceitos que uma cidade deve ter, enquanto espaço de vivencia do cidadão.  A proposta é agregar aos verbos morar, trabalhar, circular e desfrutar, o verbo “conviver”. Isso significa, dentre outras ações de importância, revitalizar os centros urbanos criando neles novos espaços de moradia e de produção cultural; criar áreas de lazer e entretenimento em espaços públicos devolutos; restringir a circulação de veículos em zonas ou horários previamente estabelecidos favorecendo a circulação de pedestres; investir em transporte urbano não convencional e com elevado grau de confiabilidade dos horários e, finalmente, produzir de modo compartilhado com a população, através de consultas públicas e sugestões de suas representações organizadas,  um “plano de metas de gestão do município’ e o compromisso firmado de prestação de contas semestral das ações realizadas, compromisso esse assegurado na “Lei Orgânica do Município”. Dos mais de 5.500 municípios brasileiros menos de 0,5% deles já asseguraram este direito aos seus cidadãos. É ainda muito pouco.  
Estas intervenções acima descritas, capazes de cerzir o tecido urbano (hoje esgarçado e remendado de modo precário por intervenções casuísticas)  dando-lhe mais espaço de cidadania, dependem muito mais do desejo comum do que recursos financeiros, começando pela troca do calendário político pelo planejamento prospectivo de longo prazo. O início das mudanças começa muitas vezes por soluções pontuais de problemas crônicos, em uma espécie de homeopatia urbana, atacando as causas e não as consequências.

Estas reflexões são oportunas, pois as vésperas de um processo eleitoral que irá decidir o destino dos municípios brasileiros, os candidatos a prefeito, assim como os pretendentes a o cargo de vereadores, deveriam deixar claras as causas que defendem e suas intenções, reveladas por um posicionamento formal sobre o futuro que aspiram para nossas cidades. 
Imbuídos deste espírito transgeneracional  talvez consigamos escolher novos representantes e gestores capazes de redesenharem a cidade do Século XXI, cujos contornos podemos  visualizar. Uma cidade mais sustentável, inclusiva, multicultural, harmônica e criativa. Esse é o nosso sonho possível.

22 de junho de 2012

Mudanças

Todo processo de mudança é uma ruptura com um lugar, situação ou momento, para outro ainda incerto e desconhecido. O tempo muda tudo, de estado ou de lugar, constantemente, às vezes de modo lento, às vezes de modo brusco e repentino. É essa imprevisibilidade da mudança que pode ser mais bem controlada se estivermos preparados para ela. Isso significa disponibilidade permanente para o câmbio, de vida, de trabalho, de meta, de estratégia, fazendo opções às vezes difíceis, sendo uma delas a decisão de deixar uma zona de conforto e assumir novos riscos. Neles estão às oportunidades de conquistar novamente a esperança e a confiança em um futuro ainda melhor.
Mudar significa se despojar, se desprender, se desvencilhar de um presente, lugar ou projeto, que caiu na rotina, na imobilidade ou no lugar comum. Passar por uma mudança nos ensina como melhor gerenciá-la. E, em cada mudança se aprende um pouco mais, sabendo que nunca será a última. A Constância do mundo é a mudança. Somente com ela se evolui.  
Com as últimas mudanças (de cidade, de trabalho, de paradigma) sintetizo como sendo seis os parâmetros de êxito. São eles:
A predisposição permanente para à mudança (querendo ou não elas ocorrem);
A capacidade de planejamento (alguma coisa sempre dá errado, sejam custos, prazos ou fatos imprevistos);
A rapidez do movimento (mudança lenta é sempre incremental e nunca muda nada realmente. Mudança radical se faz em tempo real);
A organização da execução; (minimizar as perdas no caminho) 
Tempo disponível para adaptação à nova realidade (criar novos estímulos) e, principalmente,
A visão de futuro e com ela a perspectiva de novos projetos desafiadores (como razão da mudança).
Tenho como princípio que toda mudança será sempre para melhor, seja essa intencional ou não. Mesmo aquelas mudanças inesperadas, que aparentemente significam alguma perda ou aparentem um retrocesso, tem sua razão de ser, e com o tempo se justificam.
Por isso temos de estar sempre prontos para partir, abrir mão dos hábitos adquiridos e dos confortos conquistados, e voltar a colocar o pé na estrada. Lá, seja onde for, será o lugar e o momento de recomeçar, de novo, e cada dia. Renascer, de dentro para fora.
Assim, e no final, tudo dará certo, e se ainda não der é porque, com certeza, ainda não se chegou à verdadeira mudança.

4 de junho de 2012

TOP 100 do Artesanato - Resultado da Premiação de 2012


  • ADERE - ASSOCIAÇÃO P/ DESENVOLVIMENTO EDUCAÇÃO E RECUPERAÇÃO DO EXCEPCIONAL / SP
  • ALEX MONT'ELBERTO / PE
  • AMO BIO DESIGN / MS
  • ANART ARTESANATO / PE
  • APAMI – ASSOCIAÇÃO DE PROTEÇÃO E ASSISTÊNCIA A MATERNIDADE, A INFÂNCIA E AO MEIO RURAL / RN
  • ART EM COCO / RN
  • ARTE CAMUCIM / AC
  • ARTE E RAIZ /AP
  • ARTE PRIMITIVA / PE
  • ARTECAM / PI
  • ARTES E OFÍCIOS / PE
  • ARTESANATO CANA BRAVA / PE
  • ARTESANATO CANDANGO / DF
  • ARTESANATO EM FIBRA DE BANANEIRA / SE
  • ARTESANATO PAMPA CAVERÁ / RS
  • ARTESANATO TRANÇAS DA TERRA - TEREZA BITTENCOURT / SC
  • ARTESANIA / RS
  • ARTFIO / CE
  • ASSOAM – ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DE MONTEIRO / PB
  • ASSOCIAÇÃO COMFRIBA / PR
  • ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DE MOCOTÓ DE VARZEA ALEGRE / CE
  • ASSOCIAÇÃO DA RAPOSA / MA
  • ASSOCIAÇÃO DAS ARTESÃS DE VILA SAMAMBAIA / SE
  • ASSOCIAÇÃO DAS PRODUTORAS DE ARTESANATO DAS MULHERES INDIGENAS DE TARAUACÁ E JORDÃO / AC
  • ASSOCIAÇÃO DE ARTESANATO E APICULTURA DOS POVOADOS TIGRE E JUNÇA / SE
  • ASSOCIAÇÃO DE INCLUSÃO SOCIAL BORDADEIRAS DE PENEDO – AISBOPE / AL
  • ASSOCIAÇÃO DO BABAÇU DA AMAZONIA  / TO
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DE CASTELO DO PIAUÍ / PI
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DE PIMENTA BUENO / RO
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DE SANTA MARIA – AASM / MA
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR – AASJR / MA
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DO CAPIM DOURADO PONTEALTENSE - VALTAIR DANIEL / TO
  • ASSOCIAÇÃO DOS ARTESÃOS DO PONTAL DE CORURIPE / AL
  • ASSOCIAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA RENDA IRLANDESA DE DIVINA PASTORA / SE
  • ASSOCIAÇÃO RIO GRANDE / MA
  • ASSOCIAÇÃO SANTA RITA DO AÇUZINHO / SE
  • ATELIE DE PRATA / PI
  • ATELIÊ MIRITI DA AMAZÔNIA / PA
  • ATELIER FEDALTO & OTERO / PR
  • ATUAR MUNDO NOVO / ES
  • BICHOS DO MAR DE DENTRO - NÚCLEO ARROIO GRANDE / RS
  • BORDADEIRAS DE TAGUATINGA / DF
  • BORDADOS DE TIMBAUBA / RN
  • CAFÉ IGARAÍ / SP
  • CARQUEIJO ARTESANATO / CE
  • CASA CATARINA - CLAUDIA BARTCZAK / SC
  • CEARÁ DESIGNER / CE
  • CENTRAL VEREDAS / MG
  • CENTRO DE ARTESANATO DE IBIPORA / PR
  • CERÂMICA DO CABO / PE
  • CERÂMICA NEGRA DA MARÉ / RJ
  • CERÂMICA SERRA DA CAPIVARA / PI
  • COOBAN – COOPERATIVA DAS BORDADEIRAS DE ALAGOA NOVA / PB
  • COOPERART – POTY / PI
  • COOPERATIVA DAS BORDADEIRAS LILI ESCÓRCIO / PI
  • COOPERATIVA DOS ARTESÃOS DO RIO GRANDE DO SUL - PROJETO CANOA - EDY FERREIRA RIBEIRO / RS
  • COOPERATIVA DOS PRODUTORES E PRODUTORAS RURAIS DA APA DO PRATIGI – COOPRAP /BA
  • COOPERATIVA LÃ PURA / RS
  • DEDO DE GENTE ARTESANATO / MG
  • DESFIAR – LABIRINTO / PB
  • DÔRA BORDADOS / SE
  • ELSON ANGELIM / RJ
  • ENCANTO E ARTE ARTESANATO / RJ
  • ENGENHO DA TERRA / SE
  • FATINHA FIBRAS E FIOS / GO
  • FIBRAS COM ARTE / MG
  • FIO BRASIL / MG
  • FLOR DE XARAÉS / MS
  • FLOR DO CERRADO DESIGN E ARTESANATO LTDA / DF
  • FLORES DE GABI / GO
  • FORMIGUINHAS EM AÇÃO / SE
  • GARIMPO DAS ARTES / MG
  • GIBARBOSA / ES
  • ISNALDO REIS / PE
  • JM BRINQUEDOS EDUCATIVOS EM MADEIRA / SP
  • JOIAS DO PANTANAL / MS
  • LOLI COLPA ECO DESIGN / SP
  • MÃOS À OBRA / MS
  • MARCHETARIA DO ACRE / AC
  • MARCHETARIA MORAIS / PE
  • MARIAS / MG
  • MONICA CARVALHO / RJ
  • MOSAICO DAS ARTES / MA
  • MULHERES DE FIBRA / MA
  • MULHERES DO FREI / SC
  • NABOA / ES
  • NATURAL FASHION / PB
  • NOV'ARTE /AM
  • NÚCLEO BOA NOVA DE ARTE E CULTURA / GO
  • OFICINA PRODUTIVA EQUILLIBRIUM / ES
  • OPALAS PEDRO II / PI
  • PROART / MS
  • RITA PROSSI /AM
  • SABOARANA ARTE EM MADEIRAS /AM
  • SOL A FIO / PI
  • STUDIO GABRIELA ROSSI / SP
  • TAPEÇARIA TIMBI / PE
  • TOCA TAPETES / SC
  • WS ARTES / PE
  • 1001 RETALHOS / SP

 
Júri da Terceira Edição do Prêmio SEBRAE TOP 100 do Artesanato
  • Claudia Leitão – Socióloga - Secretária da Economia Criativa do Ministério da Cultura.
  • Marcelo Rosembaum - Designer
  • Cristina Franco - Jornalista e consultora de moda
  • Fátima Mergulhão - Estilista e empresária
  • Angela Carvalho – Designer
  • Márcio Waked de Moraes- Diretor da Bio Fair Trade / Comércio Justo.
  • Eduardo Barroso Neto - Designer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 de maio de 2012

Tempus fugit x arte e design (Como calcular o custo da hora técnica de um projeto ?)

A percepção do tempo, visto como sendo a duração de um determinado evento ou fenômeno, varia de pessoa para pessoa e de uma cultura para outra, sendo um fator decisivo para definir o valor dos acontecimentos com os quais somos confrontados, sendo o mais importante deles a própria vida. Essa importância é devida pelo fato de que nenhum de nós tem a informação de qual será a duração de sua própria existência e pela consciência que a morte é o único e inexorável evento do qual não podemos fugir. Por isso somos levados a conferir mais importância ao tempo na medida que percebemos seu transcurso. Quanto mais o tempo passa menos tempo teremos para viver. 

Uma característica intrínseca da natureza humana, diferente dos demais seres viventes, é a percepção do tempo e de suas dimensões, passado, presente e futuro, que por sua vez moldaram as perguntas fundamentais da filosofia: Quem sou? De onde venho? Para onde vou?
A visão do tempo como sendo a sequência de acontecimentos, uns após outros, nos permite criar uma “linha do tempo” e sobre ela colocar os acontecimentos dentro de uma ordem cronológica. Assim, somos levados a acreditar que todos os eventos que ocorrem no universo obedecem a uma lógica seqüencial e linear.
Ao posiciornamos os fatos dentro de uma dimensão temporal, com os parâmetros que dispomos, julgamos que o passado é tudo aquilo que já foi e o futuro o que virá, sendo o presente apenas uma fração que os divide e que ao ser, já deixou de sê-lo.

Mas existem outras visões e teorias sobre o tempo, sendo uma delas aportada pela física quântica que trata da assimetria do tempo, múltiplo e diferenciado, em função do ponto onde se encontra o observador.  Do ponto de vista poético, Jorge Luis Borges nos surpreende com o magnífico conto “Os jardins de veredas que se bifurcam” que narra a existência de um livro com este mesmo nome, sendo uma parábola sobre o tempo. O tempo não se apresenta em sua concepção como algo uniforme e absoluto. Em suas palavras Borges fala sobre o narrador do conto que descreve: “...Acreditava em infinitas séries de tempo, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Não existimos na maioria desses tempos; em alguns existe o senhor e não eu, em outros, eu, e não o senhor; em outros os dois.”

Qualquer que seja a percepção do tempo, uma coisa é certa, nosso tempo é finito. O célebre aforismo de Hipócrates “Ars longa, Vita brevis” nos lembra a efemeridade da existência humana diante da atemporalidade da obra de arte cujo grande propósito é mostrar o que nunca foi visto, de revelar os sentimentos e percepções únicas e singulares de cada individuo e seu potencial criador.

O tempo para os seres humanos de modo geral e para os artistas, em particular, é o maior e intransponível desafio, estabelecendo um limite, quantitativo e qualitativo, para sua produção. Diante das infinitas possibilidades de fruição que a obra de arte poderá proporcionar caberá sempre a busca pela imortalidade da obra e através dela a dos indivíduos, mesmo que anonimamente. Séculos depois de serem realizadas, algumas obras de arte são capazes de provocar profundas emoções naqueles que as contemplam, sendo por isso imortais, diferentemente de quem as produziu. Nunca saberemos quem esculpiu a Vênus de Villendorf há mais de 20 mil anos, porém sua força expressiva continua sendo admirada por gerações após gerações.   

Dentro de uma ótica econômica quando trabalhamos o que vendemos, em geral, é nosso tempo. E, o tempo que dispomos se torna mais valioso quando mais escasso for. Soma-se ao fator tempo a experiência, fruto da vivência sobre um determinado tema ou situação, medida em geral pelo número de horas dedicado na acumulação desta experiência.

A padronização de um modo específico de perceber o tempo, possível de ser fracionado em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos a partir da observação dos astros, serviu para impor uma ordem em alguns processos de organização da sociedade, para dimensionar os momentos de convívio entre os seres humanos e para calcular o dispêndio necessário de trabalho para realizar uma tarefa. Com o domínio dos mecanismos de medição do tempo, a experiência acumulada na realização de uma determinada tarefa se constitui em informação indispensável para se determinar a quantidade de tempo necessário para repeti-la, quase sempre de modo decrescente, pois a prática leva ao aperfeiçoamento dos métodos e processos utilizados.
A utilidade deste conhecimento sobre a quantidade de tempo necessária para realizar uma atividade serve, por exemplo, para definir os custos de um projeto, já que o que vendemos é nossa inteligência e, consequentemente o tempo que necessitamos para operá-la com eficiência.

De modo simplificado, podemos dizer que um projeto é um conjunto de atividades planejadas, com prazos e custos definidos, cujo resultado final é algo que até então não existia. Esse conjunto de atividades obedece, por sua vez, uma lógica sequencial que se inicia com a definição do problema. Sem um problema para resolver não existe a razão de ser de um projeto. Um problema que tenha o ser humano como preocupação central, que respeite e atenda suas necessidades, expectativas, desejos e anseios, sem desconsiderar as implicações tecnológicas, econômicas, ambientais, sociais e culturais é típica do design. Essa pluralidade de enfoques é o elemento diferenciador do design com as engenharias ou outras disciplinas tecnológicas. A visão do todo é essencial antes de começar a delimitar, definir e detalhar suas partes, e não o contrário.

No modelo conceitual denominado de “Circulo da Inovação e do Design” são oitos os principais passos para a criação e colocação no mercado de um produto ou serviço inovador. São eles: identificação da demanda; identificação da oferta; desenvolvimento de produtos e serviços; adequação dos processos; capacitação das pessoas; agregação de valor; promoção e comercialização. Apresentado deste modo simplificado a lógica proposta pode ser facilmente assimilada. Porém, dentro de cada um desses itens existem varias atividades que devem ser realizadas, cujo detalhamento varia em função das características e do grau de complexidade de cada projeto.

Por razões de natureza prática, sendo a principal delas o controle efetivo das tarefas programadas em um projeto é aconselhável dimensionar as atividades cujo tempo não exceda 40 horas. Isso equivale a uma semana e não podemos nos equivocar e desperdiçar uma semana de nossas vidas. Quanto mais fracionado o detalhamento, mais fácil é seu controle e as correções de rota que se fizerem necessárias no caso de algum atraso involuntário na execução do cronograma.  E, para cada atividade existem seus executores, cujos ganhos são também relacionados com o investimento de tempo que realizam para executarem seu trabalho.
Um profissional deve saber qual é o valor de sua hora de trabalho. Esse é o primeiro dado essencial para a elaboração de um orçamento. Nas sociedades ocidentais, um indivíduo para se sentir remunerado corretamente deveria ganhar o equivalente a sua idade multiplicada por mil dólares por ano. 
A hora de trabalho é o resultado de cálculo de horas de dedicação ao trabalho produtivo por ano. Considerando que um ano tem 52 duas semanas, e descontando o equivalente a quatro semanas de férias e mais uma ou duas para eventualidades sobram, portanto, 46 semanas produtivas, nas quais se trabalha cinco dias por semana e uma média de seis horas por dia. O resto do tempo é utilizado nos deslocamentos, telefonemas, correspondências e um sem fim de atividades rotineiras e burocráticas. 
Exemplificando esta fórmula, uma pessoa de 40 anos dever cobrar, no mínimo, 29 dólares por hora de trabalho (1.380 horas divididas por 40.000 dólares = U$ 28,98), lembrando que sobre esse valor devem ser incluídos os impostos e encargos sociais. 

O tempo para um designer é também objeto de reflexão sobre a permanência das mensagens, produtos e serviços, cuja relevância e compreensão está condicionada ao seu momento e lugar. Usos e costumes mudam constantemente e com eles toda a cultura material e seu universo simbólico e cognitivo. Enquanto a propaganda se pauta pela efemeridade, o design opta pela atemporalidade.

Os designers se realizam quando vêem o fruto de seu trabalho se transformarem em clássicos. Os clássicos são aqueles produtos que superaram suas expectativa de vida, durando no mercado um tempo muito maior que o de seus concorrentes ou similares. Considerando a rapidez com que as coisas surgem e desaparecem, a duração da vida útil dos produtos deve ser uma das preocupações de nossa sociedade, em função da proximidade com o limite da irreversibilidade do impacto ambiental, causado em parte pela descartabilidade e consequente contaminação ao longo do processo de degradação. Ao projetar um produto estamos sempre fazendo uma declaração explícita sobre o tipo de futuro que estamos ajudando a construir. 

Do ponto de vista filosófico os profissionais que têm no projeto a essência de seu trabalho são manipuladores do tempo na medida de sua capacidade de antever e fazer acontecer o futuro como idealizam. Para isso é necessário abdicar da noção de determinismo acreditando que o destino já está traçado e, ao contrário, basear-se na crença de sua capacidade de autodeterminação e de construírem sua (ou nossa) própria sorte a partir de seus atos e intenções.

Em design menos sempre será mais. Isso também vale para compreendermos o tempo em todas suas dimensões e implicações.
O tempo que dispomos para mudar o curso da sociedade, e de seus valores éticos, é cada vez menor frente à quantidade de tempo necessário para operar mudanças culturais profundas e duradouras.

Para concluir lembro as palavras de Santo Agostinho em sua obra “Confissões”. Para ele os tempos são três: O passado no presente, o presente do presente e o futuro no presente. “Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.”
Os tempos, como afirma Santo Agostinho, existem apenas em nossa mente onde o passado é apenas fruto de nossa memória. O presente, por sua vez, é a consciência do momento e de nossa capacidade de ação. Finalmente, o futuro é a resposta às nossas previsões, nossas esperanças e fruto das deliberações que tomarmos agora.

PS.
Para aqueles que conseguiram chegar até aqui, deixo de presente um poema de Mario de Andrade:

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

27 de abril de 2012

Capacitação institucional - Um desafio para as modernas organizações

As instituições públicas, assim como as empresas privadas, necessitam preparar as pessoas que serão vitais para seu futuro. A educação é a base de qualquer mudança e a ausência ou falência dela significa estar atrelado às velhas práticas e conceitos. Educar ou preparar os indivíduos para novos desafios é uma mudança cultural que exige tempo e disposição não sendo uma atribuição exclusiva da família ou da escola. 

O primeiro desafio em educar é saber que tipo de futuro se aspira, tendo a clareza e a consciência de suas implicações. Um futuro que valorize as inteligências individuais e as fortaleça pela multiplicação de vínculos de cooperação, ampliando com isso a inteligência coletiva, passa por novas técnicas, ferramentas, métodos e processos, totalmente diversos daqueles que hoje dominamos. De acordo com as teorias sobre o crescimento exponencial da cultura cientifica e tecnológica, cada ano para frente representa, em termos de avanços, o mesmo gradiente que nos separa de cinco anos atrás. Portanto, dentro de dez anos os produtos e serviços com os quais estaremos lidando com eles cotidianamente hoje sequer foram inventados.

Do mesmo modo, as mudanças culturais serão igualmente profundas, pois a inovação é um conceito que se espalha em todas as direções, com a força sedutora presente naquilo que até então não existia, criando novas necessidades e dependências. Contudo, mudar hábitos arraigados não é uma tarefa trivial, sobretudo quando os indivíduos usam seu conhecimento e informação para se manterem na zona de conforto das velhas práticas.

Um futuro de oportunidades iguais, que aceite e valorize as diferenças culturais entre os povos, que promova a paz e a justiça social, onde o equilíbrio entre o bem estar coletivo e meio ambiente seja compatível, é a única forma de sobrevivermos como espécie humana.

Para isso precisamos não somente de cientistas, pesquisadores e tecnólogos, mas principalmente de indivíduos que além de seus conhecimentos fundamentais e específicos para o desenvolvimento possuam visões amplas, generosas, criativas e libertárias das formas e modelos de organização da sociedade.

Mentes criativas necessitam de espaços de trabalho e de convívio que promovam os valores acima descritos e, principalmente, de formas, modelos, projetos, programas e estratégias de capacitação que considerem estas visões como competências essenciais e que sobre elas sejam formuladas. 

Períodos destinados à capacitação deveriam ser não apenas uma oportunidade, mas um direito de todos os servidores e funcionários, e quanto menos burocratizados forem, quanto mais liberdade de escolha permitirem, melhores serão os resultados. O simples viajar nos faz acumular uma riqueza de experiências cuja importância é complementar àquela que se possa obter em um processo tradicional de transmissão de conhecimento por meio de cursos presenciais.

Assim posto, defendo com convicção a necessidade, a oportunidade e a importância das instituições e empresas criarem programas de capacitação continuada, que crie momentos e espaços de reflexão e de ócio criativo, estimulando a inovação, que necessita de novos ares e horizontes para sua oxigenação permanente. Significa também simplificar os procedimentos que permitam o usufruto deste beneficio, e não complicá-lo atando-o com normas rígidas e entraves burocráticos, na contra-mão das modernas práticas gerenciais.

Isto significa, ainda, dotar os “programas de capacitação institucionais” de recursos instrumentais, econômicos e humanos a altura do desafio proposto e, em um nível hierárquico próximo da alta gerência, em perfeita sintonia com o planejamento estratégico, com gestores com capacidade cognitiva para olhar além das fronteiras herméticas das estruturas existentes, pois são estes os ambientes onde o futuro das organizações é desenhado.