29 de junho de 2011

Dia Mundial do Design Industrial - 29 de junho


O Dia Mundial do Design Industrial (WIDD) é comemorado anualmente no dia 29 de Junho, em reconhecimento à profissão de design industrial.

Por ocasião do 50 º aniversário ICSID – Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial, em 2007, foi criado esse dia especial com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da profissão de design industrial, com destaque para as contribuições feitas pelos profissionais e acadêmicos para melhorar a qualidade social, cultural, ambiental da vida em todo o mundo.

Desde a sua criação o ICSID é uma organização que conecta pessoas de diversas origens que, embora de diferentes culturas ou religiões, têm pelo menos uma coisa em comum: a paixão pelo design industrial.

Este ano o cartaz vencedor do concurso alusivo ao Dia Mundial do Design Industrial foi craido por Paula Beatríz Cabrera Osorio e Vania Farías da Pontificia Universidade Catolica do Chile.

3 de junho de 2011

O futuro e/da inovação

Recebi hoje um ‘e-mail’ com uma apresentação em ‘power point’ anexada tendo como fundo uma foto de estúdio do Antonio Fagundes e o titulo “Eu tenho apenas 58 anos”. O texto enumerava boa parte da cultura material dos dias de hoje como coisas que sequer se sonhavam há 58 anos atrás. O que, para espanto do netinho, interlocutor dessa estória, imaginou ter seu avô uns 200 anos.

O texto incluía, dentre outras coisas: celular, computador, internet, raios laser, microondas, televisão, cartão de crédito, lente de contato, lavadoras, ar condicionado, relógio que não precisa de dar corda...

Isso me fez lembrar que o mesmo gradiente de distância tecnológica que nos separa de 50 anos atrás até os dias de hoje serão os mesmo para daqui a 10 anos. O desenvolvimento tecnológico verificado nos últimos anos demonstra que para cada ano de evolução a distância é de cinco anos para trás.

A cada novo lançamento de um gadget eletrônico o mundo não pode mais viver sem ele. O iPhone criou um abismo com relação aos demais celulares, obrigando todos a evoluírem rapidamente em sua direção, ou senão correr o risco de desaparecer do mercado.

Necessidades são criadas. A vida hoje sem a internet, sem o google e sem as redes sociais seria a repetição de um filme velho em que fomos atores e não queremos mais vive-lo.

No mundo ocidental a moral e os costumes se modificaram na mesma velocidade. Uma só geração assistiu a liberalização sexual com a invenção da pílula anticoncepcional e sua reversão com o aparecimento da Aids. A diferença de raças e de gênero caírem por terra, com um negro-muçulmano ser presidente dos Estados Unidos e mulheres serem presidentes de vários países.

O choque de duas civilizações, com projetos de futuro diferentes, resultaram em milhões de mortes inocentes, cujo maior ícone, foram às torres gêmeas.

É ilusório pensar que chegamos ao fim da história. Mudanças radicais ocorrerão cada vez mais e com maior velocidade. Mudanças tecnológicas e mudanças culturais. Para isso é necessário pensar em um novo modelo para produzir inovações radicais. Mais multidisciplinar, mais prospectivo. É preciso antes de desenhar um novo produto desenhar o mundo onde ele irá operar.

Os laboratórios, como espaços privilegiados de experimentações, deverão incorporar a cultura como insumo indispensável de cada projeto, entendendo cultura como a janela pela qual enxergamos o mundo. Não somente o que vivemos mas o aquele que pretendemos viver. Toda construção humana nasce primeiro no cérebro e no coração.

Estes laboratórios, para desenharem o futuro necessitam privilegiar a multidisciplinaridade. EquipeS monodisciplinares tendem a auto-referência. Bebendo da mesma fonte fazem as mesmas construções mentais ou pensam sobre o mesmo ângulo. A natureza demonstra que tudo que é homogêneo tende a entropia. A construção da inovação começa na aceitação dos muitos saberes, das múltiplas inteligências, para o enfrentamento dos problemas complexos.

2 de junho de 2011

Jogos de empresas em empresas publicas – parte 2


Levamos exatos oito meses para sairmos da idéia à ação. Postei aqui nesse blog em 15 de outubro passado a idéia, ainda embrionária, de utilizar os Jogos de Empresas como forma de buscar uma mudança de mentalidade e de atitude frente aos desafios do presente e do futuro.

No dia 14 de junho próximo começam oficialmente os Primeiros Jogos Internos do CNPq. Durante quatro meses equipes heterogêneas irão disputar provas relacionadas com oito tipos de inteligências. Nestes oito meses que se passaram um pequeno porém extraordinário e motivado grupo de colaboradores trabalhou arduamente para propor, desenvolver e organizar a realização de 23 atividades lúdico-competitivas, que não encontram precedência no serviço público.

A gênese deste processo, fruto de alguns ensaios e experimentos que conduzi, principalmente os Primeiros Jogos de Design realizados na Universidade da Antuérpia, na Bélgica, em 1995, partem da premissa que para alterar o curso dos acontecimentos é necessário mudar primeiro o comportamento e o ângulo de visão dos envolvidos com os problemas. O futuro é quase sempre um reflexo do passado. Basta olhar para trás e ver como as coisas evoluem para imaginar como se desenvolverão, para melhor ou para pior. Se as opções escolhidas no passado estão levando a um mal resultado manter inalterados os comportamentos, os métodos e as rotinas, servirá apenas para aprofundar e tornar ainda mais difícil a solução dos problemas. Contudo, se o futuro que desejamos é diferente daquele que se anuncia também será diferente a rota a ser seguida. Problemas novos exigem soluções novas. Jogos são espaços de vivência de situações novas para construção de novas possibilidades ou realidades.

Quinze anos depois de usar os Jogos como método de trabalho, e agora vivendo a responsabilidade de gerenciar os recursos humanos de uma organização com sessenta anos de história, de pioneirismo e de protagonismo, no trato das questões que envolvem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, encontro na filosofia do design um guia norteador.

Um diagnóstico da realidade atual aporta as informações necessárias que justificam uma mudança de metodologia no trato das pessoas. Uma ação de escuta das insatisfações é a ferramenta escolhida para comprovar o que a intuição e as observações já haviam revelado. Mapear os problemas e identificar suas origens compõe a base de informações que servem para orientar as ações a serem empreendidas e também como um embrião de um processo permanente, e indispensável, de monitoramento de sinais de mudanças, dentro e fora do espaço institucional.

Quando o tecido social de uma organização está esgarçado uma tensão se estabelece, e com ela a ansiedade, a insatisfação e a doença. Quando 10% da força de trabalho de uma organização encontra-se de licença médica um alarme tem de soar, e medidas corretivas devem ser tomadas imediatamente. E, para priorizar as ações necessárias é preciso classificá-las por importância e ocorrência. Visão sistêmica permite saber por onde começar e qual problema deve ser resolvido primeiro.

Alguns destes problemas nunca haviam sido antes enfrentados, faltando à experiência necessária para melhor gerenciá-los. O principal deles foi à mudança física do local de trabalho de 1500 pessoas, alternando rotinas, excluindo todos de uma zona de conforto na qual estavam habituados. Somando-se a isso a constatação da perda do sentimento coletivo de orgulho e pertencimento à instituição por sua importância e história. A própria perda da memória institucional, sem o registro das contribuições individuais é uma falha a ser corrigida. Comportamentos autoritários herdados subsistem e enfraquecem a mobilidade interna e a gestão por competências. Rotinas de trabalho desestimulantes corroem a satisfação no trabalho. O distanciamento da função de formulador de políticas de estado, para simples organismo de fomento passivo destroem a auto-estima e a possibilidade de valorização do capital intelectual da instituição.

Os Jogos Corporativos surgem como um processo alternativo para lidar com este conjunto de problemas de modo inovador e com baixo investimento. Brincando colocam-se temas importantes em discussão, dentre eles a construção de cenários futuros, as necessárias mudanças frente aos problemas ambientais e a cultura como pano de fundo.

Vozes dissonantes e descrentes seguramente serão ouvidas, apostando na cizânia e no fracasso. Afinal tudo que é inovador incomoda os que estão lucrando com a manutenção do "status quo" e com o caos.

Mas como tudo na vida, maiores são os riscos melhores serão os resultados se tudo der certo. Aposto nisso com a convicção que dentro de 3 meses, quando terminarem os jogos, teremos um novo ânimo coletivo, e uma nova estratégia para a gestão de pessoas.

3 de maio de 2011

Excelência UNESCO para o Artesanato dos países Andinos

Durante a última semana de abril estive novamente diante de um novo desafio, de enorme responsabilidade, que foi o de escolher os produtos artesanais dos países Andinos que receberam o selo de Excelência da UNESCO. Dividi esta tarefa com duas especialistas de enorme projeção internacional: Sandra Theule, responsável pelas relações institucionais do Ateliers d’Art da França e Rafaela Luft, diretora do Fundo Nacional para o Fomento do Artesanato do México.

Este evento, realizado em Lima no Peru, amplia a visibilidade do artesanato produzido na América Latina cuja seleção se iniciou pela escolha dos melhores produtos artesanais do México e Brasil, em 2006 em Salvador na Bahia. Na seqüência o selo foi concedido ao artesanato dos países do Caribe, em 2008 em Havana; depois os países do Mercosul em 2010 em Santiago do Chile.

A experiência de haver participado como jurado nestes três eventos reforça minha visão sobre a importância deste trabalho e o quanto ele pode ser determinante para o futuro profissional dos agraciados. A enorme visibilidade internacional que este reconhecimento aporta aos artesãos e o valor que agrega a seus produtos conferem uma dimensão nova a nossa difícil tarefa de julgar o “melhor dentre os melhores”.

Nossa decisão se pautou pelos critérios recomendados pela UNESCO, que foram:
1. Qualidade (estética, domínio técnico, materiais e acabamento utilizados)
2. Autenticidade (expressão da identidade cultural local)
3. Inovação (design contemporâneo em sintonia com os valores tradicionais)
4. Comercialização (preço compatível com o mercado e com a qualidade do produto)
Os produtos devem ainda cumprir com as exigências de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social.

Dentre os 67 produtos selecionados pelos paises participantes, com exceção da Colômbia que inexplicavelmente não os enviou, os agraciados foram:

BOLIVIA
"Poncho medio ojo", de Hilda Ramos Figueroa

EQUADOR
"El venado andino", de Segundo Honorio Cocha Ladino
"Línea de productos funcionales a base de la fibra natural cabuya sisal", del Centro Artesanal de la Asociación SIMIATUG SAMAI
"Peineta de filigrana", de Andrea Tello de Ecuador
"Sombrero súper fino de paja toquilla" de Flerida Yolanda Pachay Anchundia
“Oso de anteojos", de Héctor Parión Aigaje

PERU
"Camélidos", de Gustavo Salas Palomino
"Cuadro de mate burilado", de Tito Medina Salomé
"Kero contemporáneo con plata", de Juan Alberto Estrada Ortega
"Poncho femenino", de Ruth Pimentel Quishpe
"Retablo taller de mascaras", de Julio César Gallardo Montoya
"Tabla de Sarhua de enamoramiento", de Pompeyo Berrocal Evanan
"Wawa waltha", de Abraham Fausto Aller Escalante

VENEZUELA
"Chinchorro de Curagua", de Ramona Antonia Romero Chiguita
"Chinchorro Wayuu doble cara", de Leixy Zoila Uriana
"Susú con dos técnicas” de la Cooperativa Ayataulee

As todos eles minhas mais sinceras felicitações.

14 de abril de 2011

O valor das coisas tangíveis

Consultando as estatísticas desse meu blog descubro que o texto mais acessado é o que tem por titulo “como calcular o preço de venda de um produto artesanal” com mais de 900 visualizações. Deduzo, portanto, que a maioria dos que me visitam são artesãos ou pessoas com eles envolvidas, com exceção dos patrícios que me confundem com um cirurgião e um juiz de futebol que são meus homônimos e que vivem em Portugal.

Suponho também que a questão do preço e conseqüentemente a comercialização são os temas mais preocupantes para este grupo de visitantes. Deste modo, me sinto compelido a trazer outras reflexões sobre estes temas.

A primeira delas diz respeito ao valor agregado, ou valor percebido pelos consumidores, expresso na capacidade de atração, de encantamento, de sedução ou de surpresa que um produto é capaz de despertar nas pessoas. Este “algo mais” que distancia um produto do lugar comum, do “déjà vu”, está sobre uma linha tênue que separa o banal do extraordinário. Para alcançar e se manter nesta posição de fronteira é necessário ousar, transgredir, romper as convenções estéticas e formais. Significa perscrutar o coração e a mente dos seus consumidores buscando decodificar seus desejos e aspirações ainda não reveladas.

Este exercício criativo, ao invés de copiar as boas idéias alheias, é tarefa para pessoas treinadas na pratica cotidiana da inovação, como é o caso dos artistas, designers e afins. Esta parceria entre criadores e produtores deve ser apoiada, estimulada, fomentada e patrocinada pelas instituições, como o SEBRAE, que atuam no setor pois, salvo exceções, as unidades de produção artesanal assim como as micro e pequenas empresas não possuem capital, e cultura de risco, para investir na contratação destes serviços.

A segunda reflexão está relacionada ao valor monetário que pode ser acrescido ao preço básico de um produto (obtido pela soma do tempo utilizado em sua produção, dos insumos, matéria prima e encargos) cuja margem de elasticidade é determinada em parte pela concorrência, mas principalmente pelo poder e disponibilidade de compra do público visado, fruto da experiência e da vivência que o uso, a proximidade, a contemplação ou fruição que aquele produto proporcionou.

Os consumidores de maior poder aquisitivo, e de maior grau de compreensão/inclinação cultural para o artesanato, a arte popular e o design vernacular, público mais disposto em adquirir produtos de preço mais elevado, não são os freqüentadores habituais das feiras artesanais e lojas de souvenir. Para alcançá-los é necessário uma mudança de estratégia. Trata-se de procurar ir até onde estão, e não esperar que venham até você.

Como fazer isso?
Separando-se da manada, buscando um espaço ou nicho específico que esteja em conexão direta com esse público culturalmente mas exigente. Entrando em seu "habitat", fixo ou provisório, como algo que tem uma história para contar, ou uma emoção para relembrar.

Fazendo parte integrante dos espaços interiores das pousadas e hoteis, dos restaurantes temáticos,das residencias oficiais e dos formadores de opinião.

Fazendo parcerias estratégicas na comercialização, com estes mesmos fornecedores de serviços exclusivos. Como dizem os arqueiros: É mirando (e pensando) mais alto que se acerta o alvo. E o preço se determina de trás para frente. Ou seja,avaliando o quanto vale no mercado a diferença que meu produto possui?

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Veja o artigo: "Como calcular o preço de venda de um produto artesanal"

9 de abril de 2011

Insectopia - Uma proposta interessante


Produto: Hotel para insetos
Objetivo: Promover e diversidade biológica no espaço urbano
Cliente: Prefeitura do 13eme arrodissement / Paris
Local instalado: Parc des grands Moulins
Fabricante: l'Ateliers Seewhy - Bruno Clanet et Jean-Kanora You
Design: Vaulot&Dyèvre

wwww.vaulotdyevre.com

2 de março de 2011

O artesanato dentro da lógica de uma “produção associada”.

Entendo primeiramente a expressão “produção associada” como sendo uma oferta de produtos compatíveis, ou complementares, provenientes de unidades de produção independentes que interagem e cooperam-se entre si, nas distintas fases da cadeia de produção e comercialização. A produção associada presume uma lógica semelhante a dos “arranjos produtivos locais” ou dos “clusters”, com estímulo a constituição de cooperativas de produtores e um plano estratégico comum.

Produtos artesanais com maior qualidade percebida são geralmente feitos com diversos materiais, trabalhados por artesãos diferentes e especializados. Esta soma de materiais e técnicas permite uma maior exploração estética e funcional, tornando o produto único e singular.

Obter um produto artesanal que seja a soma de distintos saberes é um desafio de logística e de gerenciamento (do tempo, dos custos e do individualismo dos artesãos) cujo resultado pode ser o incremento dos ganhos para todos os envolvidos. Esta tem sido a lógica perseguida por alguns projetos, dentre eles os “saberes e sabores do Maranhão”, onde um recipiente de cerâmica dentro de um cesto de palha trançada tem seu valor comercial maior que a soma dos dois produtos vendidos separadamente. O mesmo raciocínio vale para as panelas de pedra sabão de Minas Gerais com suas alças de cobre, ou as cachaças cujas garrafas são cobertas com fibra vegetal trabalhada (Exemplos: Germana e Ypioca) gerando centenas de oportunidades de trabalho.

As jóias, em sua maioria, representam um bom exemplo de produto artesanal cujo altíssimo valor comercial decorre não somente pelos materiais nobres que utiliza, mas também pela qualidade criativa e apuro técnico em sua produção. Outro exemplo são as rendas, que isoladamente possuem um valor comercial cujo teto está muito aquém do valor que poderia alcançar estando associada a uma roupa de luxo.

Estas reflexões remetem a uma outra dimensão do conceito de “produção associada” que é vincular a oferta de produtos a um determinado nicho de mercado. O artesanato pode buscar se associar ao mercado de luxo; ao mercado de turismo; ao mercado de decoração; ao mercado de moda; ao mercado de produtos agro-alimentares ou ao mercado de presentes e lembranças. Para cada nicho de mercado que se desejar atender é necessário fazer preliminarmente um detalhamento da demanda, com informações atuais e confiáveis sobre disposição de compra; sazonalidade; destino da aquisição; preços máximos; tipologias e características.

Cada um destes nichos é constituído de grupos de indivíduos com desejos e expectativas diferentes. Para alguns o valor cultural é o mais importante para outros é a exclusividade, ou a surpresa.
A observação atenta destes grupos demandantes tem permitido apontar algumas janelas novas de oportunidade a serem exploradas pelas unidades de produção artesanais mais dinâmicas, criativas e qualificadas.

Para atender o comercio de luxo é necessárias uma qualidade estética e um acabamento perfeito e diferenciado. O luxo não se expressa pelo valor comercial da peça artesanal, mas por seu valor emocional, trazido pela dimensão humana, presente nas mãos que o produziu. Os consumidores típicos do comercio de luxo possuem hoje acesso a todos os produtos que desejam adquirir. Não existem mais barreiras alfandegárias e os custos de logística permitem o comercio mundial em larga escala ser competitivo.
Estima-se que na Cidade de São Paulo vivam 60 mil milionários. Para eles foram criados os shoppings exclusivos e o comercio da região dos Jardins. Nestes locais existe tudo de melhor que a capacidade criativa do homem foi capaz de produzir.
Esta hiper-oferta qualificada chega a um ponto de saturação quando o seu valor simbólico se banaliza. Quem já tem tudo não deseja o mais do mesmo. Busca o novo, a surpresa e o encantamento. Perceber isso é estar no lugar certo, na hora certa e diante das pessoas certas.

Este é o momento e a oportunidade para oferecer o “luxo emocional” apresentado na forma de um serviço ou produto único, exclusivo, com uma história para contar sobre um tempo e um lugar.

Este mesmo tipo de qualidade espera o turista frente à oferta artesanal, acrescido do fato que o produto deve ser parte ou testemunho da vivencia emocional que esta pessoa experimenta. Para justificar estes argumentos basta verificar o comportamento de três grandes grupos de turistas: o acidental, o tradicional e o existencial. O acidental é aquele viajante que fica entre um e cinco dias em média nos destinos. Viaja por compromisso pessoal, profissional, familiar ou religioso e compra apenas os presentes compulsórios. Já o turista tradicional viaja a lazer, para escapar, se evadir da realidade cotidiana. Em geral não procura o novo tendo em vista o grau de risco que toda novidade incorpora. Quer os serviços e os produtos consagrados, conhecidos, sem surpresas.

E por fim o turista existencial. Este viaja para se misturar com outros povos e outras culturas. Viaja para experimentar, aprender e conviver com o novo. Para estes o produto deve ser um vinculo estreito com o momento e o lugar vividos.

Cresce exponencialmente uma demanda reprimida por produtos de qualidade, feita por um tipo de consumidor sazonal, de nível socioeconômico e cultural mais elevado, disposto a pagar mais por um produto que chame sua atenção e o seduza. Este produto deve estar associado à experiência que se está vivendo. Com o tempo este produto será transformado em prova física, testemunha de um momento especial que sobreviverá apenas na memória.

Porém não basta apenas melhorar ou adequar à oferta ao seu publico visado. É necessário pensar novas estratégias de comunicação, divulgação e comercialização para este artesanato diferenciado.

Os turistas que freqüentam feirinhas e lojas de artesanato vão em busca do souvenir, da lembrançinha, do presente compulsório. O turista existencial adquire aquilo que vem de encontro a ele, mesmo que seja como parte da decoração de sua pousada ou hotel ou dos serviços a ele oferecidos. O convivo natural com estes produtos cotidianos cria uma proximidade entre o usuário e o objeto, uma espécie de intimidade silenciosa, de cumplicidade involuntária, que se transforma em desejo de uma lembrança perene. Para estes a assinatura do artesão na peça é como uma certidão de nascimento. Sem ela a origem é desconhecida e duvidosa.
São estes mesmos turistas que procuram, experimentam e divulgam para o mundo os produtos singulares do território. Estes produtos do “terroir”, em especial as comidas e bebidas típicas, precisam de uma embalagem adequada que coloque em evidência seus diferencias de qualidade.

Qualquer que seja o foco do artesanato, algumas condições de trabalho são necessárias; um método e alguns compromissos. O método preconizado pelo SEBRAE abrange as oito etapas do ciclo de inovação: Identificar demanda; Identificar oferta; Desenvolver produtos; Melhorar processos; Capacitar produtores; Agregar valor; Divulgar e Comercializar.

Dentre os compromissos, atendo-se aqueles definidos pelo Prêmio “TOP 100 do
artesanato”, merecem destaque: inovação; respeito ao meio ambiente; respeito à cultura; responsabilidade social; responsabilidade comercial; preço justo; condições de trabalho adequadas; promoção e comercialização seletiva.

Tudo isso é apenas o principio de uma longa caminhada cuja meta é posicionar o produto artesanal brasileiro no lugar de destaque no mercado mundial reservado para os bens simbólicos de forte expressão cultural.

A palestra que faria dia 23/03 na Fundação Luis Eduardo Magalhães em Salvador, a convite do SEBRAE/BA, onde exploraria melhor estes temas, foi cancelada por razões alheias a minha vontade.

13 de fevereiro de 2011

Imagem – identidade – design.

Em uma sociedade dominada cada vez mais pelos meios de comunicação, a imagem de uma empresa (ou de uma pessoa) está sujeita ao julgamento público em virtude de suas atitudes e das opiniões que sobre ela são divulgadas. O conjunto de externalidades (ou de interfaces) de uma empresa (ou individuo) junto ao mercado (ou sociedade) é que desenhara uma imagem e definirá uma identidade.

A Imagem de uma empresa é fruto das sensações e percepções que as pessoas têm dela, construída pela qualidade dos produtos ou serviços que oferece e complementada por todas as formas e meios de comunicação utilizados. Assim a publicidade, a identidade visual, o ponto de venda, a apresentação, a embalagem, o atendimento ao consumidor ou cliente, tudo isso deve trazer uma coerência e traduzir uma mesma mensagem ou conceito único.

De nada adianta investir milhões de reais em publicidade se a operadora de telemarketing desta empresa nos importuna em horas indevidas; se o atendimento ao consumidor é rude ou descortês, se serviço pós-venda não funciona; se o comportamento da empresa com relação aos novos compromissos socioculturais e ambientais deixa a desejar.

Ao conceber um produto ou serviços é indispensável pensar nas necessidades, desejos, carências e expectativas das pessoas, lembrando quais são os valores que defendem e quais práticas abominam.

O ordenamento coerente destas interfaces da empresa com o mercado é a tarefa que a gestão do design propõe solucionar. Traduzir em imagens e momentos o que esta empresa tema dizer ao seu público-alvo.

Assim somos nós em nossa individualidade. Podemos fazer o mesmo paralelo para antecipar o julgamento que as pessoas farão de nós. Nossa forma de vestir (nossa embalagem) e a nossa forma de se comportar desenharão na cabeça das pessoas uma imagem (identidade) que colarão junto com nosso nome. Se esta imagem poderá corresponder ou não a realidade é a tarefa que temos de pensar todos os dias.

Os grupos humanos definem valores éticos e morais que estabelecem os limites para o que é bom e desejável (visando à felicidade de todos), cujas fronteiras, cada vez mais tênues, dão liberdade para que as pessoas assumam suas atitudes, mesmo que extremas, porém cada uma com seus ônus e seus bônus.

Nossa individualidade se manifesta em nossas escolhas, que sempre possuem conteúdo e intenção, que por sua vez definirão uma imagem e uma identidade.
Somos aquilo que pensam sobre nós.

A idéia de um permanente autoredesign é bastante atraente.
Certa vez li um poema que justifica esta proposta ao afirmar que “conseguimos ser diferentes de nós mesmos duas horas depois”, já que toda experiência de certo modo nos afeta, e nos altera, para melhor ou para pior.

2 de fevereiro de 2011

Sugestões aos gestores que se preocupam com o artesanato e o turismo com valor agregado

Os produtores de bens simbólicos de alto valor agregado, principalmente de artesanato, vivem hoje um dilema. Para sobreviver em um mercado cada vez mais seletivo o primeiro passo é sair da informalidade. Isso significa ter obrigações sociais, pagar impostos, mas também acesso mais adequado ao mercado. Desejo e fim de todos que produzem algo de valor.

O mercado nacional, até pouco tempo restrito e fechado vivendo em uma redoma artificial impostas por políticas protecionistas, abriu suas fronteiras. Descobriu outras culturas e começou a enxergar o valor da sua própria. As comemorações dos 500 anos do descobrimento serviram para os brasileiros resgatarem sua auto-estima e divulgar a marca Brasil mundo afora. Esta visibilidade crescente tende a aumentar exponencialmente nos próximos cinco anos por conta da Copa do mundo e das Olimpíadas. Os produtos “Made in Brazil” passarão a ser ainda mais desejados.

Ao mesmo tempo o mercado de consumo mundial vive um momento novo, comportando todo tipo de produtos, cujo fenômeno foi apresentado por Chris Anderson em seu livro “A Cauda Longa”. Diante do crescimento exponencial da oferta começa a haver uma polarização nos mercados mais seletivos. De um lado os produtos e marcas globais, conhecidas, consagradas, cosmopolitas e confiáveis. De outro lado os produtos singulares, diferenciados, surpreendentes, vinculados a sua região de origem, com uma história para contar.

O consumo mundial esta pendendo entre produtos globais x produtos locais. Nestes dois extremos ainda existe muito espaço de crescimento e quem tiver bons produtos seguramente encontrará muita demanda, que se devidamente prospectada poderá ser contadas aos milhares, ou milhões, de unidades por encomenda.

Aquilo que parece ser a solução de todos os problemas, que é ter propostas de compra diante de si, na verdade é apenas uma ponta de todo o ciclo produtivo. Vender é a meta final de quem produz. Porém é preciso vender aquilo que se tem para oferecer.
Como na música de Jorge Drexler cada um só pode dar aquilo que tem ou recebe. Nada é mais simples. Não existe outra norma.

Neste novo cenário global podemos falar da importância das “fábricas sociais de artesanato”. Unidades produtivas que utilizam alta intensidade de mão-de-obra, qualificada e diferenciada. Com crescente capacidade produtiva na medida em que investem na formação de novos colaboradores e na substituição de tecnologias obsoletas, porém sem perder as características singulares que o diferenciam seus produtos da concorrência. São unidades capazes não somente de produzir bens culturais mas também são capazes de fazê-los chegar inteiros ao seu destino. Alguns empresas artesanais já exibem estas caracterisicas. São as que estão exportando.

O conhecido “ciclo da inovação e do design” descrito no termo de referência sobre o artesanato brasileiro e publicado pelo SEBRAE, aponta oito passos necessários para se chegar ao mercado. Este ciclo deve ser completo, sem pular etapas, para não repetir erros passados e cair em velhas armadilhas. São ações que resultam em um ciclo virtuoso que se vale de competências diferenciadas em todos os níveis.

Estes oito passos já deveriam ter sido seguidos por centenas de unidades artesanais do Brasil cujo reconhecimento tem sido concedido bianualmente na forma de um premio as cem melhores. Porém um olhar detalhado sobre os vencedores permite identificar ainda carências não satisfeitas e problemas não resolvidos. Problemas que vão desde a falta de capital de giro para adquirir matéria-prima diante de grandes encomendas até a ausência de embalagens capazes de diminuir as perdas no transporte.

A promoção e o esforço de venda, indispensável e desejável, deve ser acompanhado de um compromisso em todos os níveis da cadeia de produção. Os contratos de compra cujos prazos de entrega não são cumpridos ou a entrega de produtos que não correspondem em qualidade aquilo que foi encomendado são as causas de fechamento de promissoras cooperativas e empresas artesanais antes existentes.

O artesanato brasileiro, salvo algumas exceções, ainda busca a maturidade necessária para aspirar sua inserção definitiva no mercado internacional. Devemos ter a capacidade critica de perceber nossas deficiências, sendo a primeira delas a falta de dados atuais e confiáveis sobre a demanda (dados que confrontados se transformam em informação, e esta quando assimilada vira conhecimento e que aplicada na solução de problema se transforme em inteligência competitiva).

O desafio é conseguir uma renovação anual da oferta de produtos que valorize suas raízes e vínculos culturais, criando ofertas seletivas regionais em produções associdas, somada a uma capacitação técnica e gerencial dos produtores. E finalmente uma atuação consorciada do artesanato com o turismo.

20 de janeiro de 2011

O que o design brasileiro revela sobre nós?

Um produto, qualquer que seja sua natureza, industrial ou artesanal, deve possuir um vínculo cultural, seja com relação aos seus destinatários seja com relação à sua origem.

A idéia de um produto universal, que possa ser usado satisfatória e indistintamente por qualquer consumidor do planeta é uma quimera que somente pode ser conseguida por grandes corporações com penetração e reconhecimento no mercado mundial. Mesmo assim estes produtos trazem consigo uma linguagem formal e visual própria e elementos simbólicos que os distingue dos demais. Esta lógica se insere na teoria dos 80/20 muito em voga nas ultimas décadas do século passado. De acordo com esta teoria 20% dos produtos dominavam 80% do mercado; 80% da riqueza do planeta estariam nas mãos de 20% da população; 20% dos veículos detinham 80% da informação e assim sucessivamente.

Nesta segunda década do século XXI o que se desenha no horizonte do provável no mercado mundial, agora dominado pelas transações eletrônicas, é a teoria da Cauda Longa proposta por Chris Andersen que explica o surgimento de dezenas de milhares de novos nichos de mercado, criando igual número de novas janelas de oportunidades.
Somam-se a isso as novas exigências ditadas pela Economia da Experiência que privilegia bens e serviços de caráter mais exclusivos ou de forte conteúdo simbólico e temos um panorama onde os produtos centrados na cultura de origem ganham expressivo diferencial competitivo. Este é o caminho que tem sido perseguido pelas empresas conscientes que a aceitação e o preço de um produto é determinado pela quantidade de satisfação que provoca no usuário e/ou consumidor e não mais pelo esforço, matéria prima e insumos invertido em sua produção.

As pesquisas conduzidas por Domenico de Massi em 2002 e publicadas pelo SEBRAE sob o titulo de “Cara Brasileira” define, argumenta e defende o uso dos elementos que configuram nossas especificidades culturais como sendo nosso grande patrimônio intangível, na criação de uma oferta qualificada, tanto para o mercado interno, como para o mercado externo. Exemplos demonstram que muitos produtos obtêm sucesso no mercado justamente porque possuem essa densidade cultural como é o caso da moda, do artesanato, da música, da cachaça, e de certos produtos feitos com matérias primas específicas de nossos ecossistemas. Na introdução da pesquisa supra citada argumenta-se que “o caráter hospitaleiro do brasileiro; a exuberância do país, onde tudo é abundante, sobretudo o sentimento, as cores; o fato de ser uma nação jovem, criativa, tropical e abrigar a convivência pacífica de diferentes raças e culturas – são todos aspectos norteadores de uma estratégia de valorização do Brasil e do seu segmento produtivo”.

Porém, a pergunta/titulo deste artigo, para ser respondida, deve separar o geral do particular. Neste sentido a grande maioria dos produtos criados, desenvolvidos e produzidos no Brasil ainda são reproduções imperfeitas de produtos consagrados no mercado mundial. Os investimentos sistemáticos em inovação estão presentes somente em menos de 2% das empresas brasileira com mais de dez funcionários, percentual irrisório quando comparado com os países industrializados, onde mais de 50% de empresas que compõe seu parque industrial são comprometidas com a inovação e conseqüentemente com o design.

Estamos no meio de um processo histórico de construção de uma nova cultura material, onde a forma não segue mais a função e sim a emoção que pretende provocar nas pessoas. Essa tem sido a tônica das discussões sobre o que devemos fazer diante das novas oportunidades que estão surgindo com a crescente visibilidade do Brasil no cenário mundial, potencializado pela Copa do Mundo de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016. O desafio proposto é: surpreender, encantar e emocionar o mundo.

15 de janeiro de 2011

Cultura material brasileira e a valorização dos produtos singulares

Quais são os produtos que têm a cara do Brasil, ícones de nossa cultura material, singulares e expressivos e de uso/consumo consagrado?

Uma lista básica começa com as sandálias havaianas; a garrafa escura de cerveja de 700 ml; o berimbau; o pandeiro e o tamborim; o copo americano; o orelhão; a jangada nordestina; a caixinha de fósforos de madeira; a cuia de tomar chimarrão no sul e a de tacacá no norte; o guaraná; o pão de queijo; o pé de moleque; o licor de jabuticaba...

Reconhecer todos estes produtos é o primeiro passo para criar um acervo de referências possíveis de serem utilizadas em outros contextos, na construção de uma nova oferta de produtos, mais qualificados e sintonizados com as novas demandas do mercado.

Na nova “economia da experiência” os produtos que tenham histórias para contar, que remetam a fatos e lugares, saberes e fazeres tradicionais são muito mais valorizados e desejados. O desafio é colocar em evidências estes atributos, diversificar e direcionar a oferta. Produtos capazes de despertar a curiosidade e o desejo nas pessoas identificadas com a singularidade das raízes culturais brasileiras, acompanhando o crescimento da demanda por bens simbólicos com forte identificação cultural com um determinado território.

O Brasil esta em uma curva ascendente na colocação destes produtos no comercio internacional, crescimento que deve ser potencializado com os próximos eventos mundiais que aqui ocorrerão. O Brasil esta na moda, dizem os mais otimistas.

A proposta de desenvolver um design de características vernaculares, ou seja, que utilize os elementos mais expressivos da cultura brasileira, fazendo uso dos repertórios e códigos simbólicos singulares, reavivando tradições e fazeres próprios e exclusivos de um determinado grupo social, é mais do que uma proposta, é um desafio e uma nova janela de oportunidades para as pequenas empresas industriais e artesanais.

Um “olhar para dentro”, indispensável para dar a partida no processo criativo diferenciado, não se consegue à distância. É necessário a vivência e o mergulho no cotidiano. Muitos são os territórios culturais que conformam o Brasil e me cada um deles uma matriz cultural existe e precisa somente ser revelada.

Em cada vivência dela extrair os cheiros, os sabores, os perfumes, as cores, as histórias, os mitos e ritos do lugar. É necessário o olhar educado, capaz de separar o particular do geral, capaz de distinguir aqueles objetos e imagens que de tão vistas não são mais percebidas e de tão tocadas já não são mais sentidas.

Resgatar o brilho destas imagens e produtos em novos produtos é fazer com que se transformem no brilho no olhar do turista.

12 de janeiro de 2011

Miguel Nicolelis - Fragmentos de uma entrevista

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Para onde a neurociência deve nos levar nos próximos anos?No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão as aplicações computacionais. Nossa relação com as máquinas será completamente diferente: não usaremos mais teclados, monitores, mouse… o computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles.
No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje. Daqui a três meses, publicarei um livro em que comento estes temas.

Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de mover-se obedecendo ao controle da mente). Está sendo desenvolvido na Alemanha. Para o treinamento dos pacientes, construímos salas virtuais onde pessoas paralisadas terão sua atividade cerebral registrada de forma não-invasiva por magneto-encefalógrafos. Vamos ver se elas aprendem a controlar com o pensamento os movimentos de um corpo virtual – um avatar que simula o exoesqueleto. Com uma pessoa tetraplégica será mais fácil, pois é justificável o uso de métodos invasivos como implantar os eletrodos dois milímetros e meio dentro do cérebro. As descobertas vitais já foram feitas. Nosso drama agora é engenharia e conseguir recursos para pagar um projeto que é o equivalente, na neurociência, a uma viagem à Lua.
Outra linha de pesquisa importante em medicina é Parkinson. No ano passado, publicamos um trabalho naScience. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença. Há um milhão de fibras na medula espinhal que sobem para o cérebro. Mandamos uma descarga de alta frequência que chega aos centros motores profundos do cérebro e faz com que eles saiam da sincronia absoluta característica da doença, pois estão todos disparando impulsos nervosos ao mesmo tempo, de um modo semelhante ao que ocorre em uma crise epiléptica. O sinal elétrico tem um efeito caótico que quebra a crise.
Também temos resultados preliminares em macacos obtidos aqui em Natal. Infelizmente, o Hospital Sírio-Libanês não quer continuar a parceria com nosso instituto. Por isso, procuramos outro hospital de grande porte, público ou privado, onde possamos realizar os testes clínicos, talvez já no próximo ano. Gostaria muito de marcar que a tradução dessa pesquisa para a prática clínica aconteceu aqui no Brasil, pois acredito que a Medicina brasileira é a melhor do mundo. Estou propondo uma nova teoria que vai provavelmente acabar com minha carreira (risos). Acredito que não há distinção entre doenças neurológicas e psiquiátricas: todas elas são doenças temporais, relacionadas ao tempo dos neurônios, ou seja, variantes epilépticas. A única doença do cérebro que existe realmente seria uma epilepsia. Já publicamos três trabalhos este ano com modelos de doenças ditas psiquiátricas e, em todas, encontramos uma assinatura temporal que permite classificá-las como distúrbios do tempo, epilépticos. A ideia surgiu quando vi os registros eletrofisiológicos de ratos com Parkinson e eles lembraram muito os registros de uma crise epiléptica central que conheci quando era estudante.

No médio prazo, ainda precisaremos dos nossos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?Em breve, vamos publicar um trabalho descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. A internet como conhecemos vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o principal canal de comunicação. Para entender isso, basta pensar que toda linguagem é um comportamento motor – como mexer o braço. Esse comportamento motor também poderá ser decodificado e transmitido. Grandes empresas – como Google, Intel, Microsoft – já tem suas divisões de interface cérebro-máquina.
Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?
Talvez o primeiro impacto será descobrir que somos todos muito parecidos: as pretensas diferenças entre grupos de seres humanos vão se reduzir pois todos perceberão que somos iguais. Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será ela quem determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O corpo permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar fisicamente. Nossa mente cria as ferramentas e as absorve como extensão do nosso corpo. Agora, a mente vai controlar diretamente as ferramentas. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.

De que modo a evolução poderá ser influenciada pelo cérebro?O processo de seleção natural vai agir de uma forma muito mais rápida. Em um mundo onde as pessoas terão de atuar com a atenção dividida entre múltiplas ferramentas, os atributos evolucionais necessários para sobreviver mudam. A mente que consegue controlar vários processos de forma eficaz tem uma vantagem evolucional sobre as outras. Há uma base genética para essa facilidade. À medida que gente com essa vantagem se reproduz mais que os outros, ocorre seleção. Várias pessoas – como os biólogos evolucionistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould – previram que o cérebro passaria a ter um papel mais fundamental na evolução. Mas creio que estamos acelerando este papel. Os neandertais acordaram um dia e encontraram o Homo sapiens jogando bola na esquina da casa deles. Um dia, um sujeito pode acordar e se dar conta de que ele já não pertence mais à espécie dos pais. Mas estamos falando de milênios aqui.

Sua abordagem para criar uma interface cérebro-maquina foi listada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Como ela surgiu?Nós – eu e o neurocientista John Chapin – elaboramos um experimento para contestar a doutrina neuronal dominante no século 20 – que rendeu vários prêmios Nobel. Esta teoria estabelecia o neurônio como unidade funcional do sistema nervoso. Nós provamos que a unidade funcional é uma população de células. Um neurônio isolado – que sozinho constitui, de fato, uma unidade anatômica e computacional – não consegue reunir informação suficiente para gerar comportamento, principal função do cérebro. No fim da década de 80, tivemos a ideia de ligar um cérebro de rato a um robô para mostrar que mesmo o neurônio mais fenomenal não gera movimento. Mas, quando registrávamos populações de cinquenta neurônios – mesmo escolhendo-os de forma aleatória -, o animal conseguia movimentar o braço mecânico como se fosse o seu próprio. Não esperávamos um impacto tão grande. Construímos o primeiro centro de neuroengenharia do mundo na Universidade Duke. Agora, qualquer oficina de fundo de quintal nos Estados Unidos tem um centro de neuroengenharia. Há uma explosão de iniciativas no mundo inteiro: Japão, Suíça, Brasil…

Quais os principais desafios para aprimorar essa tecnologia?Conseguimos registrar hoje cerca de 600 neurônios. Nos próximos dois anos, vamos chegar a 60 mil graças a uma inovadora tecnologia de eletrodos tridimensionais. De qualquer forma, é um método invasivo, o que restringe seu uso. Ninguém vai inserir eletrodos no cérebro para brincar com jogos na internet. Precisamos descobrir técnicas não-invasivas, mas que tenham a mesma resolução para registrar os neurônios.

O que é “registrar neurônios”?Colocamos eletrodos no cérebro e registramos a atividade elétrica dos neurônios. Se você colocar os dados obtidos pelos eletrodos em uma tela de computador, não vai entender nada. É como olhar um programa binário de computador. Há uma mensagem codificada ali, mas com um código que está mudando continuamente, pois o cérebro é um sistema auto-adaptativo: cada vez que você faz alguma coisa, ele muda. Precisávamos descobrir um modo de extrair a informação motora dessas salvas de eletricidade que são, na realidade, padrões espaço-temporais que variam com o tempo. De início, parecia ruído… em boa medida, porque é mesmo ruído Poisson, como costumamos chamar. Mas percebemos que, com métodos de regressão linear, conseguíamos obter a informação. A partir daí, deixamos o próprio cérebro atuar como nosso computador: ele resolvia o sistema de equações lineares e encontrava um equilíbrio ótimo que aproveitávamos para estabelecer a interface.

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo

7 de janeiro de 2011

Patronos do design no Brasil - In memorian - Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque



Faleceu na tarde de ontem (06/01), em Brasília, o ex-presidente do CNPq Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, aos 78 anos de idade. O velório se inicia às 8h de hoje (07/01) e o sepultamento às 17h no cemitério Campo da Esperança, na 916 Sul, em Brasília.

Paraibano de Campina Grande, Lynaldo formou-se em engenharia Civil pela Universidade Federal onde mais tarde se tornaria professor titular e depois Chefe do Departamento de Estrutura e Construção e Diretor da Escola Politécnica, dentre outros, chegando ao cargo de reitor da Universidade Federal da Paraíba em 1977.

Antes de assumir a presidência do CNPq no ano de 1980, onde permaneceu até 1985, foi presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, CRUB. Dentre suas colocações mais recentes estão a Diretoria Executiva da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Industrial (ABIPTI), no período 1991-1997, e diversas consultorias na área de ciência e tecnologia para diversos órgãos governamentais.

Lynado foi o grande incentivador do design brasileiro e responsável pela implementação de um programa de ação institucional que propiciou a criação, na primeira metade da década de 80, dos Laboratórios de Design e da concessão de dezenas de bolsas de mestrado e doutorado em design no exterior, formando toda uma nova geração de docentes que deram um salto qualitativo no ensino do design no país.


Prestamos nossa última homenagem ao Dr. Lynaldo no dia 30 de novembro p.p. quando do lançamento no CNPq de sua biografia escrito por Ivan Rocha. Na foto ladeado por mim e pelo conmpanheiro Alvaro Sanchez.

Mais informações sobre a trajetória pública do professor Lynaldo em
http://centrodememoria.cnpq.br/lynaldo-cavalcanti.html