12 de dezembro de 2010

Desenvolvimento urbano sob nova perspectiva

Levei vinte e cinco anos para escutar no Brasil, aquilo que me havia sido ensinado no mestrado em design urbano, desta vez por individuos conscientes e capazes de alterar os nossos destinos por seu poder de legislar, que o problema das cidades tem de ser abordado de modo sistêmico e de longo prazo, os fundamentos essenciais do desenvolvimento sustentável.

A conclusão proposta pelo mediador da XI conferencia das cidades, Kalazans Bezerra da Silva, do Rio Grande do Norte, defende que a única solução para as cidades brasileiras é o planejamento estratégico de longo prazo, que ultrapasse a agenda política e permita aos gestores municipais que se sucederem darem prosseguimento as obras e planos pactuados. Pois sem este pacto continuará prevalecendo a lei de cada um por si, que hoje vigora, entre poder publico municipal, estadual e federal.

Este planejamento deverá ser construído de modo participativo, com visão sistêmica, onde todas as questões cruciais estejam incluídas: transporte, moradia, saneamento, saúde, educação, cultura, lazer e meio ambiente. Pois o desenvolvimento sustentável é indissociável da abordagem sistêmica e integradora.

Porém para que as obras e serviços possam ser realizadas é necessária uma redistribuição da arrecadação de todos os tributos, exigindo consciência e consenso sobre as necessidades dos municípios (em sua maioria com todo o orçamento municipal comprometido com a folha de pagamento; 50% dos municipios brasileiros não pagarão o 13° salário este ano) respaldada por uma nova legislação mais consciente e feita de baixo para cima.

Com este recado a comissão de desenvolvimento urbano da Câmara dos Deputados já tem bastante com o que se ocupar e se preocupar.
Debater só não basta.

1 de dezembro de 2010

Produção associada ao turismo. Um novo modismo ou a oportunidade de colocar em prática uma nova estratégia de promoção social e econômica?

Fazendo um balanço dos diversos programas e projetos implementados nos últimos anos, tanto pelo governo federal, governos estaduais, iniciativa privada e organizações não governamentais percebe-se um conjunto expressivo de experimentos demonstrativos de êxito, de intervenções para a promoção de uma oferta associada ao turismo. Projetos como o das Cidades históricas de MG e da Fundação Odebrecht, no sul da Bahia, são dois bons exemplos. Os envolvidos nestes experimentos de êxito são potencias agentes multiplicadores, podendo colaborar na formulação e implantação de políticas públicas para o setor, com propostas apoiadas em práticas consagradas.

Com o novo governo um novo ciclo se inicia que deverá buscar a expansão da oferta seletiva de produtos associados ao turismo. O esperado é a criação de incentivos fiscais e creditícios e de parcerias público-privadas para financiamento e implementação dos projetos e ações diretas, sobretudo para os pequenos empreendimentos.

Para mensurar a relação custo/benéficio destes projetos a adoção de metodologias de intervenção, adaptadas às especificidades locais e apoiadas por ferramentas de mediação do impacto, são necessárias. Os critérios são aqueles que indicam a agregação de valor nos produtos e serviços referenciados na cultura local; a presença da inovação sem descaracterizar a tradição; o incremento da produção e da renda dos produtores; a responsabilidade comercial, social e ambiental.

Para atingir o resultado esperado o planejamento dos projetos deverá levar em consideração o desejo de participação dos diversos atores envolvidos, assim como interiorizando os debates e ações de sensibilização e promoção. Proprietários de pousadas, bares e restaurantes; artesãos; produtores rurais e agentes de viagem deverão pactuar um compromisso mútuo de cooperação. Compromisso esse que deverá também considerar o imperativo de conservação dos recursos naturais, da cultura e das relações sociais, contemplando os capitais humano, produtivo, social e ambiental.

Estas recomendações acima descritas, compiladas no seminário realizado em Salvador, dá a dimensão dos problemas a serem enfrentadas, que irão requer políticas públicas especificas para o setor.

No nível estadual a fusão de programas de artesanato com turismo, abre uma nova fronteira de atuação conjugada, em especial, diante da expectativa do incremento dos produtos com a cara do Brasil, impulsionadas pelo turismo nos próximos anos, em especial, a Copa de 2014.

29 de novembro de 2010

Arte Urbana



Em um dos pontos mais movimentados de Brasília surge esta imagem, sem texto algum que indique sua procedência ou motivação. Seria este cartaz o testemunho de um pai orgulhoso da primeira comunhão de sua filha; uma promessa por alguma graça alcançada; a propaganda subliminar de alguma religião ou simplesmente Arte Urbana?

Seja qual for a motivação que a originou, essa imagem instiga e provoca um momento de reflexão, no meio do transito, na pausa do semáforo fechado. Parece uma foto retirada de algum álbum antigo de família, cuja pureza contrasta com a sujeira da parede que a recebe. Pelo visto ela deverá durar meses, e somente desaparecerá pela ação do tempo e das intempéries, já que a limpeza urbana parece ter esquecido deste pedaço da cidade. Seja como for, cumpre esta imagem a função da arte, que nos instiga, provoca, faz pensar. Muitos nem a percebem, outros tantos dão pouca ou nenhuma importância ocupados demais que estão com seus problemas. Para alguns, entretanto, esta imagem tem o poder de abrir uma janela efêmera de lembranças da infância, dos filhos, da inocência perdida, das crenças místicas e de esperança.

06/junho/2011
O mistério desta foto, que durante meses me tocou, se desfez. O autor desta imagem é Afrânio Ribeiro, único fotógrafo da Cidade de São João Nepomuceno, nos primeiros anos do século XX e o anjinho da foto é sua filha Sônia. Nesta época meu avô, Eduardo Barroso, morava e clinicava nesta mesma cidade, e provavelmente deveria ser no mínimo um conhecido de Afrânio ou cruzado com ele nas festas do Clube Trombeteiros, que fui conhecer nos anos sessenta por seus inesquecíveis bailes de carnaval. São João Nepomuceno ocupa um lugar de estaque em minhas memórias afetivas da adolescência, onde diversas vezes desembarquei de um Trem Maria Fumaça que cortava a região, passando por Mar de Espanha, Pequeri, Guarará e Bicas.
Um século depois a neta de Afrânio, Usha Velasco, também fotógrafa, recuperando os álbuns de família, transformou este acervo em um projeto de arte urbana, através do Prêmio Mark Ferrez, e as áreas públicas de Brasília o espaço de exibição.

27 de novembro de 2010

Mensagem aos designers Chilenos

Na impossibilidade de minha presença física na cerimônia de lançamento de um projeto de inserção do design na produção artesanal em uma determinada localidade do Chile, deixo aqui as palavras que diria nesta ocasião.

Começaria lembrando que a primeira coisa que um designer deve fazer ao decidir trabalhar com uma comunidade artesanal é despir-se do desejo narcisista de passar para a posteridade como um criador de objetos.

Desenhar um produto artesanal é compartilhar com os artesãos de seu processo de produção, cada um aportando seu saber. E o saber do artesão não é somente sua técnica. É principalmente o saber que possui referente à cultura do lugar onde vive. Esta é sua riqueza que deve ser extraída, re-valorizada, re-significada, e novamente por eles próprias percebida como algo seu, que lhe pertence, e que isso tem valor. O artesão não é uma simples mão de obra. Barata ainda por cima. É o sujeito e senhor de um lugar, no tempo, na história, na geografia.

É precisamente isso o que querem os compradores de bens simbólicos. Produtos com a cara do lugar, com uma história para contar. Quando os produtos artesanais incorporam em sua superfície ou forma elementos do repertorio iconográfico local estes produtos estão fazendo uma declaração de pertencimento a um determinado contexto e momento. Ao trazerem uma etiqueta com o nome e referencia do artesão que o produziu e do local de origem, estão criando uma certidão de nascimento de inquestionável valor.

Relacionar estes produtos com outros elementos do repertorio cultural regional é também um modo de extrapolar seu valor puramente utilitário para se transformarem em bens simbólicos, direcionado a um público consumidor com maior poder de compra e maior nível de exigência. Um bom exemplo são os produtos de cerâmica concebidos e produzidos para ser o melhor modo de preparação e de apresentação da gastronomia regional, geralmente desprovida deste tipo de suporte apropriado que lhe empreste valor.

Esta parceria entre designer e artesão não pode existir somente na fase de concepção dos produtos. Deve permanecer e transformar-se em um vinculo quase permanente de colaboração. Durante a produção muitos problemas acontecem que necessitam de ajustes e adequações. Sem a presença do designer, as soluções que forem adotadas podem desvirtuar o produto de seu conceito original. A sutil diferença entre o original e criativo, do exagerado e ridículo reside nos detalhes. Basta uma cor mal escolhida, um verniz demasiado brilhante, um adorno sem função, para afastar o produto de seu potencial comprador.

Conceber um novo produto é incorporá-lo a uma família já existente. Ele deve ser diferente, porém sem perder as características de seu lugar de origem. Às vezes basta uma pequena mudança incremental para dar nova vida a um produto obsoleto ou em decadência comercial. Outro detalhe fundamental que os artesãos quase nunca se preocupam é com a embalagem, principalmente quando se trata e produtos frágeis como a cerâmica. Uma embalagem bem concebida além de proteger o produto agrega valor e informa a origem, elementos valorizados pelos turistas.

Concluiria dizendo que um designer consciente de seu papel na sociedade encontra uma enorme satisfação e gratificação quando percebe que trabalho contribui para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Esse é um objetivo que deve permear sempre nossas escolhas.

12 de novembro de 2010

Resultado do Juri da UNESCO para Reconhecimento da Excelência para os produtos artesanais da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai



Os critérios estabelecidos pela UNESCO para concessão do “Reconhecimento da Excelência” para os produtos artesanais.

1. Qualidade (estética, domínio técnico, materiais e acabamento utilizados)
2. Autenticidade (expressão da identidade cultural local)
3. Inovação (design contemporâneo em sintonia com os valores tradicionais)
4. Comercialização (preço compatível com o mercado e com a qualidade do produto)

Os produtos devem ainda cumprir com as exigências de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social.

5 de novembro de 2010

05 de novembro - Dia Nacional do Design - Uma justa homenagem à Aloísio Magalhães.


Aloísio Magalhães foi um dos pioneiros do design brasileiro, senão o mais importante deles. Em seu escritório no Rio de Janeiro, a PVDI, com os sócios Rafael Rodrigues e Joaquim Redig, criou a identidade visual de grandes empresas brasileiras, tais como Petrobras, Ligth, Furnas, entre outras. Como artista plástico criou os Cartemas, composições feitas com cartões postais. Esta mesma proposta gráfica adotou na criação do padrão monetário brasileiro, em 1966, para o Cruzeiro Novo, que teve vida curta corroída pela inflação.
Grande pensador da cultura brasileira foi o responsável pela criação do Centro Nacional de Referência Cultural – CNRC, junto à FUNARTE. Aloísio faleceu em Pádua, Itália em 1982, quando defendia, com suas aquarelas, a condição de “Cidade Patrimônio da Humandidade” para Olinda. Nesta ocasião tomaria posse como presidente da Reunião de Ministros da Cultura dos Países Latinos.
Em sua homenagem propuz em 1984, para João Roberto Nascimento (Peixe) presidente da APDINS/PE, a criação do Dia Nacional do Design Brasileiro, tendo como referência sua data de nascimento de Aloisio, 05 de novembro de 1927. Esta proposta foi aprovada na Assembléia de encerramento do 4º Encontro Nacional de Designers realizado em Curitiba, sendo adotada por todos os designers e comemorada desde então em todo o país.

I Seminário de Sensibilização e Promoção da Produção Associada ao Turismo‏

18 de outubro de 2010

Dia dos Médicos

Hoje, Dia do Médico, me lembrei de meu pai, que foi da primeira turma de medicina da UFMG. Embora só tenha vivido com ele meus seis primeiros anos (relação abortada por um infarto fulminante) tive de reconstruí-lo a partir dos relatos que ouvia ou de minhas próprias deduções lógicas. Depreendo desta reflexão tardia que, de certo modo, tivemos uma vida parecida. Descobri que ele não trabalhava pelo dinheiro, mas por ideais.
Durante mais de 20 anos foi médico no interior de Minas, na Cidade de Mar de Espanha, e da carta de despedida que deixa para os habitantes consigo algumas preciosas informações, do mesmo modo, nas frases sublimadas nos livros que deixou. O juramento de Hipocrates, emoldurado e em lugar de destaque da casa, era a prova de seu orgulho pela profissão que escolhera.
Herdei dele uma caneta Parker 51 com o símbolo dos médicos, duas cobras envoltas em um bastão, incrustadas na tampa.
Era como um dever de família seguir a profissão, pois os dois Eduardo´s que me antecederam haviam feito esta escolha. Por isso optei por cursar o cientifico (assim se chamava naquela época) direcionado para as ciências biológicas. Desisti na ultima hora, até por juízo, e fiz vestibular para Belas Artes, que depois larguei, quando descobri o design.

Acho que o que mais me assustava, e por isso admiro tanto os médicos, era a capacidade de lidar com a vida dos outros, e quase sempre em situação de sofrimento.

A opção pela arte era uma forma inconsciente de alienação e que depois revelou ser um prazer tão imenso do qual é dificil abdicar. Criar é um dos maiores prazeres da existência humana, mesmo que seja somente para si mesmo. Limitação que você consegue superar quando descobre a capacidade de melhorar a vida das pessoas também nas pequenas coisas do cotidiano.

15 de outubro de 2010

Jogos de empresas em empresas públicas?

O desafio de trazer “Jogos de Empresas” para empresas públicas reside primeiramente na diferença cultural. Nas empresas privadas se antecipar às mudanças do mercado é uma estratégia de sobrevivência, dos mais aptos e adaptados. Na empresa pública o planejamento nunca é de longo prazo. No máximo planos com a duração do calendário político. Contudo devemos pensar não nos próximos cinco, mas nos próximos cinqüenta anos, no mínimo. Uma urgente mudança nos padrões de consumo são um imperativo inadiável, pois a frágil capa de nossa bioesfera está prestes a chegar em uma zona de irreversibilidade. O lema “Pensar global e agir local”, prognosticado por Peter Drucker há mais de vinte anos ainda não faz parte do repertório de muitas empresas, privadas e públicas.

Tendo claro o objetivo social de uma empresa pública percebe-se que os compromissos assumidos são permanentes e deveriam ser internalizados por todos, para poderem ser praticados todo o tempo. Isso inclui a construção de cenários futuros, buscando soluções alternativas para os problemas potencialmente capazes de ocorrerem. Isto envolve a necessidade da existência de uma área permanente de planejamento, controle e avaliação, capaz de realizar estas tarefas.

Uma mudança de comportamento nas empresas públicas significa decidir pela meritocracia; fomentar setores emergentes e promissores como são as indústrias criativas; investir na capacitação contínua dos servidores, em todos os níveis, inclusive a possibilidade de fazer um mestrado e um doutorado “in company”. Um caminho curto para algumas e longo para muitas.

Porém como toda mudança, deve começar pela base, buscando o comprometimento e uma mudança de mentalidade. Menos o venha à nós e mais ao vosso reino. Afinal servidor é para servir. Uma idéia, uma causa, um país.

Quem sabe começando de modo lúdico o processo de envolvimento seja mais efetivo e menos custoso financeiramente. Adaptar os Jogos de Empresas para uma empresa pública é uma idéia que vale a pena ser tentada.

14 de outubro de 2010

Escolhida a nova marca comemorativa dos 60 anos do CNPq


O concurso para escolher a logomarca comemorativa aos 60 anos do CNPq, a serem completados em 2011, acaba de divulgar o trabalho vencedor. Arnaldo da Silva Mota , de Belém do Pará, vai ganhar o prêmio de R$ 15 mil, a entrega do cheque vai acontecer dia 26 de outubro na sede do CNPq. Ao todo foram recebidas 182 inscrições com trabalhos oriundos de todo o país.

A comissão julgadora se reuniu no último dia 7, na sede do CNPq, em Brasília, constituída por cinco membros, dois indicados pela Associação dos Designers Gráficos (ADG), Cláudia Regina Ramalho El-Moor e Carlos Eduardo Meneses de Souza Costa; duas representantes da Associação para o Ensino do Design Gráfico no Brasil (AEND-BR), Ana Beatriz Pereira de Andrade e Adriana Valese e presidida pelo coordenador geral de Recursos Humanos do CNPq, Eduardo Barroso Neto.

Assessoria de Comunicação Social do CNPq
comunicacao@cnpq.br
(61) 2108-9414

20 de setembro de 2010

Algumas reflexões sobre o trabalho autoral dos Irmãos Campana


Antes de tudo cabe esclarecer que os trabalhos dos Irmãos Campana, embora muitos torçam o nariz para este argumento, é sim design, no sentido restrito do termo. No entendimento comum, design significa projeto, e por projeto entendemos como um conjunto de atividades programadas com tempos e custos definidos visando solucionar um problema e cujo resultado é algo que até então não existia. Portanto não sei se cabe questionamento, pois isso eles fazem, com resultados sempre surpreendentes e inovadores.

Os móveis e objetos “projetados” pelos Irmãos Campana tem antes de tudo o mérito de colocar em discussão a própria natureza do design, enquanto atividade responsável pela concepção dos produtos que serão ofertados pelas industrias, contrariando as exigências tradicionais de redução de custos, racionalização da produção e adequação ergonômica, apenas para mencionar três aspectos fundamentais do design contemporâneo ensinado nas escolas.

Talvez este seja o segredo do trabalho deles, pois como nunca freqüentaram, na condição de alunos, um curso de design, não se sentem obrigados a seguir as normas e recomendações, em especial uma das máximas do design que apregoa que “menos é mais”.

Um é advogado e o outro é arquiteto por formação. Durante boa parte de suas vidas fizeram outras coisas e somente começaram a projetar objetos há pouco mais de quinze anos, segundo podemos observar em sua biografia, disponível em seu sítio web. Este fato seguramente contribuiu para aportar uma distância critica do design, com poucas influências perceptíveis e um repertório ilimitado de possibilidades. Este conhecimento restrito do design, enquanto método de projetar objetos e mensagens, comporta um paradoxo inquietante que é a liberdade extraordinária para pensar, projetar e produzir o que lhes vier à cabeça. Esta alegria quase infantil presente na cadeira Favela, apenas para citar um exemplo, remete à nossa infância de “casas na arvore” ou de carrinhos de rolimã feitos com pedaços de tábuas e restos de madeira.

Sempre ouvi dizer que é a ignorância sobre certos processos que nos dá a condição de questioná-los e afrontar seus limites. Não teria sido o desconhecimento de Niemeyer sobre calculo estrutural que deu a ele a coragem de projetar o que antes se julgava impossível?

A ousadia no uso de certos materiais, parecem também traduzir uma critica a sociedade de consumo e por conseqüência o próprio design. Os objetos resultantes deste processo lúdico de projetar, ampliados pelas lentes de uma forte sensibilidade estética e formal, despertaram a atenção de todo o mundo e deu aos irmãos Campana uma notoriedade sem precedentes na história do design brasileiro.

O que fazem enquadra-se com perfeição naquilo que podemos denominar de “design autoral” cujo compromisso assemelha-se mais ao do artista que do designer tradicional. Para o artista seu compromisso é consigo mesmo e com seu tempo. Para o designer seu compromisso é com o mercado, através da compatibilização dos anseios e necessidades de quem produz com aqueles que consomem.

Sem os exageros de parte á parte, de um lado a idolatria cultivada por aqueles que aspiram alcançar a condição semelhante de passarem a posteridade como fazedores de objetos de culto e admiração e tampouco sem a acidez critica dos designers tradicionais corroídos de desprezo por aqueles que não rezam em suas cartilhas, atrevo-me a dizer que o serviço prestado pelos Irmãos Campana ao design brasileiro assemelha-se ao que fez Phillipe Starck conseguiu para o design francês, gostem disso ou não.

Por outro lado, o trabalho deles nada tem de artesanal, a não ser a dificuldade de produzir em série aquilo que projetam. Esta condição não é suficiente apara qualificarmos estes produtos como sendo artesanato, pois a habilidade dos artesãos, os vínculos com a cultura de onde foram concebidos assim como a origem local dos insumos, e outros atributos inerentes ao artesanato não parecem ser condições consideradas por aqueles que projetam, como por aqueles que produzem e por aqueles que consomem.

11 de setembro de 2010

A dependência do feminino

Existem homens que não gostam de passar um dia sequer de suas vidas sem a presença e o respaldo de uma mulher. Eu sou um deles.

Quando digo isso não estou aludindo a uma questão de sexualidade, mas da importância do universo do feminino para que o masculino se complete e se realize. A presença feminina, onipresente na minha vida, me deu uma segurança ímpar, o de se saber cuidado. Talvez mais do que a o próprio amor penso que o homem deseja é saber que alguém vela por ele. Dos seus iguais espera a admiração e o companheirismo, que por maiores que sejam como valores, não suprem a ausência do pensamento diferenciado que o feminino aporta.

Minha admiração por esse mundo estranho e sedutor, cheio de mistérios e valores subjetivos, me instiga a buscar explicações e justificativas. A ciência já demonstrou o funcionamento diferenciado da mente feminina através da maior intensidade de atividade no hemisfério direito do cérebro, área responsável pela intuição e pela emoção. Fascina-me a capacidade da mulher de superar a dependência masculina pelas aparências em seus impulsos e escolhas afetivas; de conseguir representar vários papeis simultâneos (profissional, mulher e mãe) e de propor quase sempre soluções pouco cartesianas a partir de uma lógica nebulosa que não opta nem pelo sim e nem pelo não, muito antes pelo contrário. São estes os elementos, que definem o que qualifico como sendo o “pensamento assimétrico” fundamental para os processos criativos.

A mulher busca, desde tempos imemoriais, formas de superar sua capacidade de atração, onde a maquiagem é apenas uma das armas de sedução. A indústria de cosméticos movimenta mais de cem bilhões de dólares por ano, segundo cálculos da ONU. O mundo feminino é pródigo de fetiches, transformados em acessórios, cujo sapato hoje é o campeão. A maioria das mulheres ocidentais, de um determinado extrato social, contam os pares de sapato, em seus armários, em centenas. A média de consumo mensal no Brasil é hoje de um par de sapatos por mês por cada mulher. Observar os sapatos das mulheres e disso tirar alguma conclusão pode ser um exercício prazeroso, mas impossível de aportar uma resposta conclusiva e satisfatória. Falar de cor então, nem se fala...

Trabalhar com as mulheres é absolutamente fundamental para o sucesso de qualquer empreitada, mas tenho dúvidas, pelo ao menos pelo momento, se o mesmo principio vale para conduzir o país, não por uma questão de gênero, mas de personagem.

A dependência do feminino foi descrita com precisão no livro “Eurico o Presbítero de Alexandre Herculano, na metade do século XIX. “Dai às paixões todo o ardor que puderes, aos prazeres mil vezes intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertereis o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, onde os deleites serão apenas o prelúdio do tédio."

Somos todos frutos da união entre o feminino e o masculino e trazemos em nosso DNA esta dupla referencia, com maior ou menor presença de um destes lados, cujas escolhas conscientes ou não, constroem nossa identidade individual e moldam nossa sensibilidade.

30 de agosto de 2010

Incitação ao coletivo - Resumo de minha intervenção no Encontro Técnico da UNISOL

Nos últimos dez anos nenhum país do mundo ocidental investiu tanto no segmento artesanal como o Brasil. A soma dos recursos aportados pelos Programas Estaduais de Artesanato, pelo SEBRAE, Artesanato Solidário, FBB, CEF, BNB, apenas para citar os patrocinadores mais expressivos, somam algumas centenas de milhões de reais.

A descontinuidade destes programas é uma possibilidade a ser considerada pelos gestores de um novo governo que se avizinha. Uma reflexão sobre o custo e o beneficio destes investimentos, que nem sempre se refletiram, na mesma proporção, na melhoria das condições de vida e de trabalho dos artesãos, poderá alterar o rumo os investimentos públicos no segmento artesanal. O mesmo raciocínio pode ser aplicado as feiras artesanais, cuja soma de gastos ultrapassam algumas vezes as vendas efetivadas pelos artesãos.

Mesmo que estas avaliações não aconteçam ainda é necessário considerar a possibilidade de um ataque de Adanismo, síndrome comum aos governantes que se julgam fundadores de uma nova história, cujas primeiras linhas eles escreveram. Anulam assim os feitos do passado, como fez a Governadora (que apeou Jackson Lago do poder) com a descontinuidade do projeto “Saberes e Sabores do Maranhão” apenas para citar um exemplo recente.

Por que estas coisas ainda acontecem, quando já evoluímos para uma sociedade democrática e com forte discurso social? Creio que isso é fruto da desmobilização dos maiores interessados que são os artesãos. Enganam-se aqueles que acreditam que as reivindicações individuais serão ouvidas. A atenção política se volta sempre para os grupos quantitativamente mais expressivos e melhor organizados.

O único modo de preservar os avanços conquistados nestes últimos dez ou doze anos de políticas sistemáticas e afirmativas de apoio ao artesanato é através das Comissões ou Fóros Estaduais de Artesanato. Mas, para que isso aconteça é necessário deles participar, que jamais recusarão um assento às representações formais dos artesãos.

A cobrança da sociedade organizada tem sido vital para preservar as conquistas sociais, cujo teste poderá acontecer dentro de poucos meses.