Design é uma palavra inglesa cuja tradução literal significa projeto. Projeto de acordo com nosso léxico é um conjunto de atividades programadas, com tempos e custos definidos, cujo resultado final é algo que até então não existia. Entendido desse modo o design significa um processo de construção consciente de novas realidades.
O futuro do design enquanto atividade (e não processo) encaminha-se para um distanciamento cada vez maior de seu significado acadêmico original, com suas clássicas divisões: design de produtos, design de interiores ou design gráfico. Esta forma de compartimentalização tinha sentido em um momento de afirmação de uma atividade ainda incipiente e pouco conhecida da sociedade como um todo e do sistema produtivo em particular. Hoje, as dezenas de novas especialidades no design são uma resposta a demanda de mercado por inovação.
Cinqüenta anos depois de seu surgimento na América Latina, a palavra "design" começa a ser entendida, em muitos setores da economia, como um processo estratégico para o desenvolvimento de empresas, regiões e países.
Isso porque nas últimas duas décadas o design evoluiu como atividade capaz de propor e introduzir novas ferramentas de inovação, além de orientar a gestão integrada de todas as interfaces de uma empresa, pública ou privada, com seu público consumidor ou usuário, interno e externo, de modo harmônico e coerente. Esta percepção holística da empresa, e de seus produtos e serviços é a característica diferenciadora do "design management".
Novas frentes de atuação também se abriram na medida que setores economicamente marginais se viram na contingência de buscar soluções inovadoras para seus problemas de produto, produção e comercialização, como é o caso do artesanato e dos produtos típicos. Atuar junto as estes setores economicamente deprimidos implica levar em consideração, na mesma ordem de importância dos fatores econômicos e produtivos, as questões de ordem social, cultural e ambiental, principalmente a necessidade de geração de trabalho e renda. O artesanato e a pequena produção local, associada a sua cultura e região de origem, consegue através da agregação de valor colocar em evidência seus atributos qualitativos e diferenciadores, novo foco e demanda do "design social" cujo objetivo permanente é "mudar respeitando as origens".
Com relação aos produtos intangíveis a demanda por inovação tem sido exponencial, com tendência sempre crescente e na mesma velocidade do avanço tecnológico. No universo digital a demanda por inteligência, criatividade e expertise requer um nova abordagem profissional que o design busca suprir, substituindo micreiros e vituoses da computação gráfica.
Para os bens de consumo tradicionais, incluindo vestuário, a liberdade de criação é cada vez maior na medida que desaparecem os impedimentos tecnológicos. Antes um designer se capacitava principalmente no “como fazer”, hoje a preocupação é “o que fazer”, já que tudo é possível.
Saindo da escala micro para a escala macro, cidades e territórios representam um problema cuja solução não pode ser monodisciplinar. A complexidade destes espaços requer uma visão integradora, direcionada para o futuro, sem esquecer as lições do passado. Essa fusão de conhecimentos é o processo de trabalho do "design territorial ou urbano". que atua conciliando interesses, visões e expectativas.
Esta multiplicidade de oportunidades e as múltiplas frentes de atuação que se abriram somente são compreensíveis quando entendemos a natureza do design e sua singularidade no modo de abordagem dos problemas, para quem o conteúdo é que define a forma, seja para comunicar ou suprir uma demanda de produto ou serviço de qualquer natureza.
Design significa para mim, antes de tudo, como uma vontade irrefreável de fazer melhor. É descobrir o oculto, revelar o invisível, identificar a beleza, mesmo nas coisas mais simples do cotidiano.
Essa é a dificuldade de se ensinar design. De certo modo foi isso que me distanciou da sala de aula como professor. Descobri que sensibilidade, capacidade de percepção, talento e ousadia são atributos que se potencializam mas não se transmitem. Sem eles o design é pobre, medíocre, simplório e banal.
Ao se orientar na direção da inovação radical as empresas mais competitivas têm no "design estratégico" seu diferencial de qualidade e de marcado. Apple, Sony e Google são exemplos emblemáticos. Uma revolução a cada nova geração de produtos.
Esta é também a forma de se pensar (e construir) o futuro. Olhando os problemas a partir de todos os seus ângulos, privilegiando a pluralidade nas soluções, focadas no individuo e em suas necessidades, desejos e expectativas, sem comprometer, entretanto, as necessidades das futuras gerações.
Parodiando Stefano Marzano “Cada vez que projetamos (ou consumimos) um produto estamos fazendo uma afirmação sobre o futuro que desejamos”.
3 de setembro de 2011
27 de agosto de 2011
O Design, a distância e o valor.
Aprendi que um objeto quando visto de longe dele percebe-se primeiro a forma. Com a proximidade suas cores e elementos de distinção e somente de muito perto seu verdadeiro conteúdo. Esse mesmo raciocínio serve para as pessoas.
A distância entra uma pessoa e outra pessoa, ou a um objeto, é um dos fatores que define o modo como as vemos, e portanto o valor que a ela atribuímos.
Essa distância pode ser temporal, física ou emocional.
A distância temporal diz respeito às coisas passadas, ou fora de tempo, e por isso mesmo ganham outra percepção. Essa distância em geral apaga defeitos e impropriedades e valoriza os atributos e qualidades. “...É a distância que faz o mito” disse Humberto Eco, na Ilha do dia anterior.
As pessoas se tornam boas depois de mortas, algumas viram mitos, outras conseguem congelar sua imagem no tempo. As atrizes de cinema guardam sempre esta distância temporal. Quando as vemos já não mais são. Assim como todas as experiências vividas. Existem apenas na memória ou como imagem.
Produtos da vida cotidiana ganham com a distância temporal um valor simbólico, que por sua vez define o desejo de possuí-lo e o “quantum” de esforço que estamos dispostos a fazer com esse objetivo. Quanto mais raro ou exclusivo for um objeto, ou serviço, maior seu valor de mercado.
A distância física diz respeito ao tempo real e as possibilidades nele presentes. É no momento agora que as coisas existem de modo tangível. Essa distância pode estar ao alcance dos olhos, ou alcance da mão. Ao alcance dos olhos a internet tratou de suprir as distâncias imensuráveis. Hoje, pessoas e objetos interagem em tempo real embora fisicamente distantes. Podemos visitar outros lugares, analisar todas as ofertas de produtos e serviços, conhecendo-os muito mais demoradamente e detalhadamente, se essa distância física não existisse.
A distância ao alcance da mão é aquela mensurável pelos meios que dispomos, sejam esses geográficos ou econômicos. Ao alcance da mão não é uma distância medida em centrimentos, metros ou quilometros. É medida pelo desejo e capacidade de superá-la.
Esses desejos, quando percebidos por quem oferece uma resposta satisfatória, definem o valor dessa oferta. Essa é a lei básica dos mercados, e vale para tudo: Quanto maior o desejo maior o valor. O design, o marketing e a publicidade, conscientes disso, criam mitos e objetos de alto valor simbólico
Esse valor simbólico, que incorpora as percepções subjetivas e intuitivas, que é fruto da experiência, da convivência, da fruição, da estética e acrescido de vínculos afetivos, transforma-se em valor emocional, que é finalmente o principal parâmetro para a definição do valor real das coisas, pessoas e lugares. Quando o valor emocional é forte, relativizam-se os conceitos de tempo e distância, que desaparecem ou perdem sua importância.
O design, enquanto método, busca na distância crítica separar as muitas dimensões que compõem o valor de um produto ou serviço para melhor entender as motivações humanas, suas expectativas, desejos e necessidades.
1 de agosto de 2011
Carta a uma jovem designer
Tenho me perguntado durante todos esses anos que venho tentando fazer design em todas as suas formas, expressões e espaços de oportunidades, quais são as reais possibilidades para aqueles que estão agora entrando no mercado.
Esta reflexão ficou ainda mais aguda quando comecei a lecionar e a dizer que se pode viver bem e com dignidade trabalhando com design, bastando saber identificar as oportunidades, as fortalezas e as ameaças, de nós e dos demais.
Porém isso não basta, como não é suficiente, embora importantissima, uma excelente formação e informação de qualidade para vencer no mercado. É necessário uma inteligência diferenciada, que alguns chamam de talento, sem o qual as chances são exponencialmente menores e, se possível, boas relações sociais. Alguns dizem também que é necessário a sorte, Mas a sorte não é a conseqüência de um conjunto de ações e atitudes para que ela ocorresse?
Todos nós temos algum talento, ou seja uma ou mais de nossas múltiplas inteligências mais desenvolvida. O importante é saber direcioná-lo para o design, que requer cada vez mais o aporte de visões e pensamentos distintos.
Howard Garner argumenta que temos oito tipos de inteligência e cada um de nós desenvolve e explora uma ou mais delas de modo mais expressivo.
Considerando a inteligência como a capacidade de solucionar um problema de modo satisfatório e criativo, a partir dos conhecimentos e experiências acumuladas, as inteligências propostas por Gardener são:
1. A Inteligência naturalista, como sendo a capacidade de nos relacionarmos de modo satisfatório com o nosso meio, natural e humano. É a inteligência voltada para a preservação da saúde e da vida.
2. A Inteligência lógico-matemática como sendo a capacidade de pensar de modo abstrato e de tomar decisões em situações de incerteza. É a visão econômica e financeira, do investimento e do lucro.
3. A Corporal sinestésica é o domínio sobre o corpo e seus movimentos, com impulsos e reflexos precisos.
4. A Inteligência musical como a capacidade de registrar e processar sons músicas e harmonias.
5. A inteligência estética e espacial é a capacidade ordenar imagens, objetos e espaços de modo harmônico e satisfatório
6. A inteligência literária e verbal é a capacidade de assimilar idiomas estrangeiros, de expressar pensamentos claros de modo verbal ou oral. É principalmente a capacidade de argumentação e/ou oratória.
7. A inteligência social é a capacidade de conquistar e preservar vínculos afetivos e colaborativos com pessoas em todos os círculos.
8. A inteligência intrapessoal ou emocional é a capacidade de lidar com as emoções, fazendo-as agir a seu favor.
Todos nós temos um pouco destas oito inteligências, mas em uma delas somos melhores. Esse é o nosso diferencial. É por essa qualidade que seremos conhecidos, admirados e respeitados. E para isso é necessário desenvolver e explorar ininterruptamente esta inteligência sobressalente.
Mas nenhuma destas oito inteligências operará sozinha sem a oitava. A inteligência emocional é fortalecida quando se gosta muito daquilo que se faz. Quando se acredita e se investe naquilo que se faz.
Com essa convicção as coisas vão se encaixando, mesmo que pareçam desordenadas e confusas, como são certas encruzilhadas da vida, quando apesar de todas estas certezas, desejos e expectativas as coisas não acontecem. Apesar de tentar todas as possibilidades, de explorar todas as oportunidades, mesmo assim as coisas não acontecem, contratos não se concretizam, os projetos não se realizam. Este é o momento de reavaliar nossas escolhas. E esta pergunta pode acontecer em muitos momentos da vida.
Em qual bifurcação dos caminhos devo seguir?
Na dúvida opte pelo caminho do sonho, pois mesmo se o resultado não for aquilo que se sonhava a simples tentativa terá valido à pena.
Esta reflexão ficou ainda mais aguda quando comecei a lecionar e a dizer que se pode viver bem e com dignidade trabalhando com design, bastando saber identificar as oportunidades, as fortalezas e as ameaças, de nós e dos demais.
Porém isso não basta, como não é suficiente, embora importantissima, uma excelente formação e informação de qualidade para vencer no mercado. É necessário uma inteligência diferenciada, que alguns chamam de talento, sem o qual as chances são exponencialmente menores e, se possível, boas relações sociais. Alguns dizem também que é necessário a sorte, Mas a sorte não é a conseqüência de um conjunto de ações e atitudes para que ela ocorresse?
Todos nós temos algum talento, ou seja uma ou mais de nossas múltiplas inteligências mais desenvolvida. O importante é saber direcioná-lo para o design, que requer cada vez mais o aporte de visões e pensamentos distintos.
Howard Garner argumenta que temos oito tipos de inteligência e cada um de nós desenvolve e explora uma ou mais delas de modo mais expressivo.
Considerando a inteligência como a capacidade de solucionar um problema de modo satisfatório e criativo, a partir dos conhecimentos e experiências acumuladas, as inteligências propostas por Gardener são:
1. A Inteligência naturalista, como sendo a capacidade de nos relacionarmos de modo satisfatório com o nosso meio, natural e humano. É a inteligência voltada para a preservação da saúde e da vida.
2. A Inteligência lógico-matemática como sendo a capacidade de pensar de modo abstrato e de tomar decisões em situações de incerteza. É a visão econômica e financeira, do investimento e do lucro.
3. A Corporal sinestésica é o domínio sobre o corpo e seus movimentos, com impulsos e reflexos precisos.
4. A Inteligência musical como a capacidade de registrar e processar sons músicas e harmonias.
5. A inteligência estética e espacial é a capacidade ordenar imagens, objetos e espaços de modo harmônico e satisfatório
6. A inteligência literária e verbal é a capacidade de assimilar idiomas estrangeiros, de expressar pensamentos claros de modo verbal ou oral. É principalmente a capacidade de argumentação e/ou oratória.
7. A inteligência social é a capacidade de conquistar e preservar vínculos afetivos e colaborativos com pessoas em todos os círculos.
8. A inteligência intrapessoal ou emocional é a capacidade de lidar com as emoções, fazendo-as agir a seu favor.
Todos nós temos um pouco destas oito inteligências, mas em uma delas somos melhores. Esse é o nosso diferencial. É por essa qualidade que seremos conhecidos, admirados e respeitados. E para isso é necessário desenvolver e explorar ininterruptamente esta inteligência sobressalente.
Mas nenhuma destas oito inteligências operará sozinha sem a oitava. A inteligência emocional é fortalecida quando se gosta muito daquilo que se faz. Quando se acredita e se investe naquilo que se faz.
Com essa convicção as coisas vão se encaixando, mesmo que pareçam desordenadas e confusas, como são certas encruzilhadas da vida, quando apesar de todas estas certezas, desejos e expectativas as coisas não acontecem. Apesar de tentar todas as possibilidades, de explorar todas as oportunidades, mesmo assim as coisas não acontecem, contratos não se concretizam, os projetos não se realizam. Este é o momento de reavaliar nossas escolhas. E esta pergunta pode acontecer em muitos momentos da vida.
Em qual bifurcação dos caminhos devo seguir?
Na dúvida opte pelo caminho do sonho, pois mesmo se o resultado não for aquilo que se sonhava a simples tentativa terá valido à pena.
18 de julho de 2011
O que me leva a pintar um quadro?
Depois de vinte anos sem tocar em um pincel decidi ocupar meus finais de semana Brasilienses com uma atividade lúdica que tanto satisfação havia me havia proporcionado nos anos que me dediquei exclusivamente à arte. Foram apenas dois ou três anos que passei, em minha juventude, na Escola Guignard antes de descobrir o design. Período suficiente para me revelar o prazer indescritível que a pintura, o desenho, a gravura e a escultura proporcionam. Porém curto para me tornar um artista.
Como os sonhos nunca morrem de repente me vejo comprando tubos de tinta a óleo e pincéis, disposto a dialogar comigo mesmo diante de uma tela em branco.
O que motiva um artista a definir o sujeito de um quadro antes de iniciá-lo? Suponho que alguns querem apenas expressar seus sentimentos e emoções transferindo para o pincel os gestos e movimentos que mais se harmonizam com este estado de espírito. O resultado final sempre surpreende já que não existia uma imagem pré-concebida na mente.
Conheci grandes pintores que definem o motivo de um quadro como um exercício de virtuosismo técnico, na expectativa do aplauso dos pares e da admiração dos amantes da arte. Buscam incansavelmente desenvolver novas técnicas ou aprimorar aquelas que dominam para satisfazer seu ego. Afinal, todo artista se nutre do amor que seu público lhe dedica.
Existem também, talvez em maior número, aqueles que desejam apenas desfrutar o prazer que experimentam no ato de pintar e na tentativa de perenizar com uma imagem uma lembrança ou o testemunho visual de um momento único. Buscam, entretanto, uma coerência entre seus quadros anteriores, na convicção da necessidade de guardar uma relação entre si, expressas no traço, na técnica e na temática que caracteriza e distingue um artista de outro.
Eu decidi usar os pinceis e tintas como quem conta uma estória. Existe por trás de cada tela um discurso não verbal. Uma reflexão sobre um determinado sujeito. Penso na imagem que irei pintar como se fosse a capa do livro dessa estória ficcional.
Conto com meus quadros estórias que nunca serão totalmente assimiladas do mesmo modo que as concebi. Os símbolos e as metáforas visuais dão pistas, mas também podem enganar. Componho imagens abertas à possibilidade para que cada um veja nele as estórias que imaginar.
Como os sonhos nunca morrem de repente me vejo comprando tubos de tinta a óleo e pincéis, disposto a dialogar comigo mesmo diante de uma tela em branco.
O que motiva um artista a definir o sujeito de um quadro antes de iniciá-lo? Suponho que alguns querem apenas expressar seus sentimentos e emoções transferindo para o pincel os gestos e movimentos que mais se harmonizam com este estado de espírito. O resultado final sempre surpreende já que não existia uma imagem pré-concebida na mente.
Conheci grandes pintores que definem o motivo de um quadro como um exercício de virtuosismo técnico, na expectativa do aplauso dos pares e da admiração dos amantes da arte. Buscam incansavelmente desenvolver novas técnicas ou aprimorar aquelas que dominam para satisfazer seu ego. Afinal, todo artista se nutre do amor que seu público lhe dedica.
Existem também, talvez em maior número, aqueles que desejam apenas desfrutar o prazer que experimentam no ato de pintar e na tentativa de perenizar com uma imagem uma lembrança ou o testemunho visual de um momento único. Buscam, entretanto, uma coerência entre seus quadros anteriores, na convicção da necessidade de guardar uma relação entre si, expressas no traço, na técnica e na temática que caracteriza e distingue um artista de outro.
Eu decidi usar os pinceis e tintas como quem conta uma estória. Existe por trás de cada tela um discurso não verbal. Uma reflexão sobre um determinado sujeito. Penso na imagem que irei pintar como se fosse a capa do livro dessa estória ficcional.
Conto com meus quadros estórias que nunca serão totalmente assimiladas do mesmo modo que as concebi. Os símbolos e as metáforas visuais dão pistas, mas também podem enganar. Componho imagens abertas à possibilidade para que cada um veja nele as estórias que imaginar.
3 de julho de 2011
Imagens inesquecíveis - Critérios de análise de uma fotografia

Uma fotografia permite duas leituras. A primeira é o registro visual sobre um determinado momento e a segunda o discurso subjacente que traz consigo. As imagens não são apenas pessoas e objetos captados em um segundo de sua existência. São depoimentos visuais de um lugar e de um instante que nunca mais existirão. Contam uma história em função dos elementos que a compõem, da forma como foram dispostos, iluminados, refletidos, focados.
A fotografia de um casa ou de uma edificação pode ser um simples registro de caráter documental-arquitetônico ou um tipo de mensagem visual sobre seu significado e conteúdo. Hospitaleiro ou inóspito, frio ou caloroso, repressor ou transgressor, humano ou cruel...
A dramaticidade de uma imagem é fruto de um instante único. Um movimento, um gesto, um sorriso, um olhar, uma lágrima possuem uma força expressiva exatamente por ser o a captura visual de uma fração de segundo, é o tempo suspenso, que sintetiza uma emoção que perdurará na memória.
Algumas imagens nunca as esquecerei. O andar atrapalhado de Jânio Quadros (refletindo seu governo); a menina correndo nua queimada por napalm, síntese da loucura da Guerra do Vietnã; o olhar messiânico do Che, que escondia a crueldade do personagem; a saia plissada de Marilyn Monroe revelando sua sensualidade ingênua; o Beijo roubado em frente ao Hotel De Ville em Paris; a língua pra fora na atitude debochada de Einstein. Essas são imagens tão fortes que viraram ícones, sonho de todo fotógrafo.
Ao apontar a objetiva de sua máquina fotográfica em uma direção, o fotógrafo sensível olha o visor não com os olhos, mas com o coração. Busca uma emoção e não somente uma imagem estática e sem alma.
Uma fotografia não é somente um retrato de uma pessoa, um objeto ou um lugar. É uma forma de expressão contemporânea, onde todas as intervenções e experimentações são possíveis, sobretudo depois da criação da fotografia digital e das ferramentas de edição de imagens. Novas tecnologias cujos limites de uso e exploração estão ainda longe de serem alcançados.
O sujeito tratado, a força expressiva e plástica da imagem, o dominio da técnica e a mensagem contida são os elementos que definem o valor de uma fotografia, independente de seu tempo e lugar.
2 de julho de 2011
Um novo olhar (design da fotografia)
Existem coisas que de tão vistas não são mais enxergadas. O desenho da cerâmica do piso, de um lugar qualquer que entramos, não consegue ser descrito pela maioria das pessoas, se pedirmos a elas que o façam. Este exemplo se aplica a maioria dos objetos que nos cercam. Estamos cada vez mais submetidos a uma profusão incontrolável de produtos e mensagens, cada uma com seu apelo e história. O excesso de oferta e de informação tem como subproduto a indiferença das pessoas a tudo aquilo que é banal, comum, cotidiano.
Essa mudança comportamental permite duas reflexões. De um lado é o banal, o singular, o cotidiano, o despercebido (pois incorporado a realidade) é que tem valor como produto cultural de um determinado contexto, tempo e lugar. Revelar esta realidade é um desafio, cujo produto é sua valorização por aqueles que não a percebiam.
Por outro lado nosso cérebro está permanente direcionado a perceber o novo.
Registra somente aquilo que surpreende e emociona. Busca permanentemente avançar além dos limites do conhecido. A inovação se transformou na arma estratégica das civilizações.
A idéia de somar as virtudes de casa uma dessas duas vertentes é o desafio.
Inovar tendo a cultura como pano de fundo, aqui entendida, como sendo a janela por onde olhamos o mundo e o mundo nos percebe.
jogos internos
Essa mudança comportamental permite duas reflexões. De um lado é o banal, o singular, o cotidiano, o despercebido (pois incorporado a realidade) é que tem valor como produto cultural de um determinado contexto, tempo e lugar. Revelar esta realidade é um desafio, cujo produto é sua valorização por aqueles que não a percebiam.
Por outro lado nosso cérebro está permanente direcionado a perceber o novo.
Registra somente aquilo que surpreende e emociona. Busca permanentemente avançar além dos limites do conhecido. A inovação se transformou na arma estratégica das civilizações.
A idéia de somar as virtudes de casa uma dessas duas vertentes é o desafio.
Inovar tendo a cultura como pano de fundo, aqui entendida, como sendo a janela por onde olhamos o mundo e o mundo nos percebe.
jogos internos
29 de junho de 2011
Dia Mundial do Design Industrial - 29 de junho

O Dia Mundial do Design Industrial (WIDD) é comemorado anualmente no dia 29 de Junho, em reconhecimento à profissão de design industrial.
Por ocasião do 50 º aniversário ICSID – Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial, em 2007, foi criado esse dia especial com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da profissão de design industrial, com destaque para as contribuições feitas pelos profissionais e acadêmicos para melhorar a qualidade social, cultural, ambiental da vida em todo o mundo.
Desde a sua criação o ICSID é uma organização que conecta pessoas de diversas origens que, embora de diferentes culturas ou religiões, têm pelo menos uma coisa em comum: a paixão pelo design industrial.
Este ano o cartaz vencedor do concurso alusivo ao Dia Mundial do Design Industrial foi craido por Paula Beatríz Cabrera Osorio e Vania Farías da Pontificia Universidade Catolica do Chile.
6 de junho de 2011
3 de junho de 2011
O futuro e/da inovação
Recebi hoje um ‘e-mail’ com uma apresentação em ‘power point’ anexada tendo como fundo uma foto de estúdio do Antonio Fagundes e o titulo “Eu tenho apenas 58 anos”. O texto enumerava boa parte da cultura material dos dias de hoje como coisas que sequer se sonhavam há 58 anos atrás. O que, para espanto do netinho, interlocutor dessa estória, imaginou ter seu avô uns 200 anos.
O texto incluía, dentre outras coisas: celular, computador, internet, raios laser, microondas, televisão, cartão de crédito, lente de contato, lavadoras, ar condicionado, relógio que não precisa de dar corda...
Isso me fez lembrar que o mesmo gradiente de distância tecnológica que nos separa de 50 anos atrás até os dias de hoje serão os mesmo para daqui a 10 anos. O desenvolvimento tecnológico verificado nos últimos anos demonstra que para cada ano de evolução a distância é de cinco anos para trás.
A cada novo lançamento de um gadget eletrônico o mundo não pode mais viver sem ele. O iPhone criou um abismo com relação aos demais celulares, obrigando todos a evoluírem rapidamente em sua direção, ou senão correr o risco de desaparecer do mercado.
Necessidades são criadas. A vida hoje sem a internet, sem o google e sem as redes sociais seria a repetição de um filme velho em que fomos atores e não queremos mais vive-lo.
No mundo ocidental a moral e os costumes se modificaram na mesma velocidade. Uma só geração assistiu a liberalização sexual com a invenção da pílula anticoncepcional e sua reversão com o aparecimento da Aids. A diferença de raças e de gênero caírem por terra, com um negro-muçulmano ser presidente dos Estados Unidos e mulheres serem presidentes de vários países.
O choque de duas civilizações, com projetos de futuro diferentes, resultaram em milhões de mortes inocentes, cujo maior ícone, foram às torres gêmeas.
É ilusório pensar que chegamos ao fim da história. Mudanças radicais ocorrerão cada vez mais e com maior velocidade. Mudanças tecnológicas e mudanças culturais. Para isso é necessário pensar em um novo modelo para produzir inovações radicais. Mais multidisciplinar, mais prospectivo. É preciso antes de desenhar um novo produto desenhar o mundo onde ele irá operar.
Os laboratórios, como espaços privilegiados de experimentações, deverão incorporar a cultura como insumo indispensável de cada projeto, entendendo cultura como a janela pela qual enxergamos o mundo. Não somente o que vivemos mas o aquele que pretendemos viver. Toda construção humana nasce primeiro no cérebro e no coração.
Estes laboratórios, para desenharem o futuro necessitam privilegiar a multidisciplinaridade. EquipeS monodisciplinares tendem a auto-referência. Bebendo da mesma fonte fazem as mesmas construções mentais ou pensam sobre o mesmo ângulo. A natureza demonstra que tudo que é homogêneo tende a entropia. A construção da inovação começa na aceitação dos muitos saberes, das múltiplas inteligências, para o enfrentamento dos problemas complexos.
O texto incluía, dentre outras coisas: celular, computador, internet, raios laser, microondas, televisão, cartão de crédito, lente de contato, lavadoras, ar condicionado, relógio que não precisa de dar corda...
Isso me fez lembrar que o mesmo gradiente de distância tecnológica que nos separa de 50 anos atrás até os dias de hoje serão os mesmo para daqui a 10 anos. O desenvolvimento tecnológico verificado nos últimos anos demonstra que para cada ano de evolução a distância é de cinco anos para trás.
A cada novo lançamento de um gadget eletrônico o mundo não pode mais viver sem ele. O iPhone criou um abismo com relação aos demais celulares, obrigando todos a evoluírem rapidamente em sua direção, ou senão correr o risco de desaparecer do mercado.
Necessidades são criadas. A vida hoje sem a internet, sem o google e sem as redes sociais seria a repetição de um filme velho em que fomos atores e não queremos mais vive-lo.
No mundo ocidental a moral e os costumes se modificaram na mesma velocidade. Uma só geração assistiu a liberalização sexual com a invenção da pílula anticoncepcional e sua reversão com o aparecimento da Aids. A diferença de raças e de gênero caírem por terra, com um negro-muçulmano ser presidente dos Estados Unidos e mulheres serem presidentes de vários países.
O choque de duas civilizações, com projetos de futuro diferentes, resultaram em milhões de mortes inocentes, cujo maior ícone, foram às torres gêmeas.
É ilusório pensar que chegamos ao fim da história. Mudanças radicais ocorrerão cada vez mais e com maior velocidade. Mudanças tecnológicas e mudanças culturais. Para isso é necessário pensar em um novo modelo para produzir inovações radicais. Mais multidisciplinar, mais prospectivo. É preciso antes de desenhar um novo produto desenhar o mundo onde ele irá operar.
Os laboratórios, como espaços privilegiados de experimentações, deverão incorporar a cultura como insumo indispensável de cada projeto, entendendo cultura como a janela pela qual enxergamos o mundo. Não somente o que vivemos mas o aquele que pretendemos viver. Toda construção humana nasce primeiro no cérebro e no coração.
Estes laboratórios, para desenharem o futuro necessitam privilegiar a multidisciplinaridade. EquipeS monodisciplinares tendem a auto-referência. Bebendo da mesma fonte fazem as mesmas construções mentais ou pensam sobre o mesmo ângulo. A natureza demonstra que tudo que é homogêneo tende a entropia. A construção da inovação começa na aceitação dos muitos saberes, das múltiplas inteligências, para o enfrentamento dos problemas complexos.
2 de junho de 2011
Jogos de empresas em empresas publicas – parte 2
Levamos exatos oito meses para sairmos da idéia à ação. Postei aqui nesse blog em 15 de outubro passado a idéia, ainda embrionária, de utilizar os Jogos de Empresas como forma de buscar uma mudança de mentalidade e de atitude frente aos desafios do presente e do futuro.
No dia 14 de junho próximo começam oficialmente os Primeiros Jogos Internos do CNPq. Durante quatro meses equipes heterogêneas irão disputar provas relacionadas com oito tipos de inteligências. Nestes oito meses que se passaram um pequeno porém extraordinário e motivado grupo de colaboradores trabalhou arduamente para propor, desenvolver e organizar a realização de 23 atividades lúdico-competitivas, que não encontram precedência no serviço público.
A gênese deste processo, fruto de alguns ensaios e experimentos que conduzi, principalmente os Primeiros Jogos de Design realizados na Universidade da Antuérpia, na Bélgica, em 1995, partem da premissa que para alterar o curso dos acontecimentos é necessário mudar primeiro o comportamento e o ângulo de visão dos envolvidos com os problemas. O futuro é quase sempre um reflexo do passado. Basta olhar para trás e ver como as coisas evoluem para imaginar como se desenvolverão, para melhor ou para pior. Se as opções escolhidas no passado estão levando a um mal resultado manter inalterados os comportamentos, os métodos e as rotinas, servirá apenas para aprofundar e tornar ainda mais difícil a solução dos problemas. Contudo, se o futuro que desejamos é diferente daquele que se anuncia também será diferente a rota a ser seguida. Problemas novos exigem soluções novas. Jogos são espaços de vivência de situações novas para construção de novas possibilidades ou realidades.
Quinze anos depois de usar os Jogos como método de trabalho, e agora vivendo a responsabilidade de gerenciar os recursos humanos de uma organização com sessenta anos de história, de pioneirismo e de protagonismo, no trato das questões que envolvem o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, encontro na filosofia do design um guia norteador.
Um diagnóstico da realidade atual aporta as informações necessárias que justificam uma mudança de metodologia no trato das pessoas. Uma ação de escuta das insatisfações é a ferramenta escolhida para comprovar o que a intuição e as observações já haviam revelado. Mapear os problemas e identificar suas origens compõe a base de informações que servem para orientar as ações a serem empreendidas e também como um embrião de um processo permanente, e indispensável, de monitoramento de sinais de mudanças, dentro e fora do espaço institucional.
Quando o tecido social de uma organização está esgarçado uma tensão se estabelece, e com ela a ansiedade, a insatisfação e a doença. Quando 10% da força de trabalho de uma organização encontra-se de licença médica um alarme tem de soar, e medidas corretivas devem ser tomadas imediatamente. E, para priorizar as ações necessárias é preciso classificá-las por importância e ocorrência. Visão sistêmica permite saber por onde começar e qual problema deve ser resolvido primeiro.
Alguns destes problemas nunca haviam sido antes enfrentados, faltando à experiência necessária para melhor gerenciá-los. O principal deles foi à mudança física do local de trabalho de 1500 pessoas, alternando rotinas, excluindo todos de uma zona de conforto na qual estavam habituados. Somando-se a isso a constatação da perda do sentimento coletivo de orgulho e pertencimento à instituição por sua importância e história. A própria perda da memória institucional, sem o registro das contribuições individuais é uma falha a ser corrigida. Comportamentos autoritários herdados subsistem e enfraquecem a mobilidade interna e a gestão por competências. Rotinas de trabalho desestimulantes corroem a satisfação no trabalho. O distanciamento da função de formulador de políticas de estado, para simples organismo de fomento passivo destroem a auto-estima e a possibilidade de valorização do capital intelectual da instituição.
Os Jogos Corporativos surgem como um processo alternativo para lidar com este conjunto de problemas de modo inovador e com baixo investimento. Brincando colocam-se temas importantes em discussão, dentre eles a construção de cenários futuros, as necessárias mudanças frente aos problemas ambientais e a cultura como pano de fundo.
Vozes dissonantes e descrentes seguramente serão ouvidas, apostando na cizânia e no fracasso. Afinal tudo que é inovador incomoda os que estão lucrando com a manutenção do "status quo" e com o caos.
Mas como tudo na vida, maiores são os riscos melhores serão os resultados se tudo der certo. Aposto nisso com a convicção que dentro de 3 meses, quando terminarem os jogos, teremos um novo ânimo coletivo, e uma nova estratégia para a gestão de pessoas.
1 de junho de 2011
3 de maio de 2011
Excelência UNESCO para o Artesanato dos países Andinos
Durante a última semana de abril estive novamente diante de um novo desafio, de enorme responsabilidade, que foi o de escolher os produtos artesanais dos países Andinos que receberam o selo de Excelência da UNESCO. Dividi esta tarefa com duas especialistas de enorme projeção internacional: Sandra Theule, responsável pelas relações institucionais do Ateliers d’Art da França e Rafaela Luft, diretora do Fundo Nacional para o Fomento do Artesanato do México.
Este evento, realizado em Lima no Peru, amplia a visibilidade do artesanato produzido na América Latina cuja seleção se iniciou pela escolha dos melhores produtos artesanais do México e Brasil, em 2006 em Salvador na Bahia. Na seqüência o selo foi concedido ao artesanato dos países do Caribe, em 2008 em Havana; depois os países do Mercosul em 2010 em Santiago do Chile.
A experiência de haver participado como jurado nestes três eventos reforça minha visão sobre a importância deste trabalho e o quanto ele pode ser determinante para o futuro profissional dos agraciados. A enorme visibilidade internacional que este reconhecimento aporta aos artesãos e o valor que agrega a seus produtos conferem uma dimensão nova a nossa difícil tarefa de julgar o “melhor dentre os melhores”.
Nossa decisão se pautou pelos critérios recomendados pela UNESCO, que foram:
1. Qualidade (estética, domínio técnico, materiais e acabamento utilizados)
2. Autenticidade (expressão da identidade cultural local)
3. Inovação (design contemporâneo em sintonia com os valores tradicionais)
4. Comercialização (preço compatível com o mercado e com a qualidade do produto)
Os produtos devem ainda cumprir com as exigências de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social.
Dentre os 67 produtos selecionados pelos paises participantes, com exceção da Colômbia que inexplicavelmente não os enviou, os agraciados foram:
BOLIVIA
"Poncho medio ojo", de Hilda Ramos Figueroa
EQUADOR
"El venado andino", de Segundo Honorio Cocha Ladino
"Línea de productos funcionales a base de la fibra natural cabuya sisal", del Centro Artesanal de la Asociación SIMIATUG SAMAI
"Peineta de filigrana", de Andrea Tello de Ecuador
"Sombrero súper fino de paja toquilla" de Flerida Yolanda Pachay Anchundia
“Oso de anteojos", de Héctor Parión Aigaje
PERU
"Camélidos", de Gustavo Salas Palomino
"Cuadro de mate burilado", de Tito Medina Salomé
"Kero contemporáneo con plata", de Juan Alberto Estrada Ortega
"Poncho femenino", de Ruth Pimentel Quishpe
"Retablo taller de mascaras", de Julio César Gallardo Montoya
"Tabla de Sarhua de enamoramiento", de Pompeyo Berrocal Evanan
"Wawa waltha", de Abraham Fausto Aller Escalante
VENEZUELA
"Chinchorro de Curagua", de Ramona Antonia Romero Chiguita
"Chinchorro Wayuu doble cara", de Leixy Zoila Uriana
"Susú con dos técnicas” de la Cooperativa Ayataulee
As todos eles minhas mais sinceras felicitações.
Este evento, realizado em Lima no Peru, amplia a visibilidade do artesanato produzido na América Latina cuja seleção se iniciou pela escolha dos melhores produtos artesanais do México e Brasil, em 2006 em Salvador na Bahia. Na seqüência o selo foi concedido ao artesanato dos países do Caribe, em 2008 em Havana; depois os países do Mercosul em 2010 em Santiago do Chile.
A experiência de haver participado como jurado nestes três eventos reforça minha visão sobre a importância deste trabalho e o quanto ele pode ser determinante para o futuro profissional dos agraciados. A enorme visibilidade internacional que este reconhecimento aporta aos artesãos e o valor que agrega a seus produtos conferem uma dimensão nova a nossa difícil tarefa de julgar o “melhor dentre os melhores”.
Nossa decisão se pautou pelos critérios recomendados pela UNESCO, que foram:
1. Qualidade (estética, domínio técnico, materiais e acabamento utilizados)
2. Autenticidade (expressão da identidade cultural local)
3. Inovação (design contemporâneo em sintonia com os valores tradicionais)
4. Comercialização (preço compatível com o mercado e com a qualidade do produto)
Os produtos devem ainda cumprir com as exigências de respeito ao meio ambiente e responsabilidade social.
Dentre os 67 produtos selecionados pelos paises participantes, com exceção da Colômbia que inexplicavelmente não os enviou, os agraciados foram:
BOLIVIA
"Poncho medio ojo", de Hilda Ramos Figueroa
EQUADOR
"El venado andino", de Segundo Honorio Cocha Ladino
"Línea de productos funcionales a base de la fibra natural cabuya sisal", del Centro Artesanal de la Asociación SIMIATUG SAMAI
"Peineta de filigrana", de Andrea Tello de Ecuador
"Sombrero súper fino de paja toquilla" de Flerida Yolanda Pachay Anchundia
“Oso de anteojos", de Héctor Parión Aigaje
PERU
"Camélidos", de Gustavo Salas Palomino
"Cuadro de mate burilado", de Tito Medina Salomé
"Kero contemporáneo con plata", de Juan Alberto Estrada Ortega
"Poncho femenino", de Ruth Pimentel Quishpe
"Retablo taller de mascaras", de Julio César Gallardo Montoya
"Tabla de Sarhua de enamoramiento", de Pompeyo Berrocal Evanan
"Wawa waltha", de Abraham Fausto Aller Escalante
VENEZUELA
"Chinchorro de Curagua", de Ramona Antonia Romero Chiguita
"Chinchorro Wayuu doble cara", de Leixy Zoila Uriana
"Susú con dos técnicas” de la Cooperativa Ayataulee
As todos eles minhas mais sinceras felicitações.
14 de abril de 2011
O valor das coisas tangíveis
Consultando as estatísticas desse meu blog descubro que o texto mais acessado é o que tem por titulo “como calcular o preço de venda de um produto artesanal” com mais de 900 visualizações. Deduzo, portanto, que a maioria dos que me visitam são artesãos ou pessoas com eles envolvidas, com exceção dos patrícios que me confundem com um cirurgião e um juiz de futebol que são meus homônimos e que vivem em Portugal.
Suponho também que a questão do preço e conseqüentemente a comercialização são os temas mais preocupantes para este grupo de visitantes. Deste modo, me sinto compelido a trazer outras reflexões sobre estes temas.
A primeira delas diz respeito ao valor agregado, ou valor percebido pelos consumidores, expresso na capacidade de atração, de encantamento, de sedução ou de surpresa que um produto é capaz de despertar nas pessoas. Este “algo mais” que distancia um produto do lugar comum, do “déjà vu”, está sobre uma linha tênue que separa o banal do extraordinário. Para alcançar e se manter nesta posição de fronteira é necessário ousar, transgredir, romper as convenções estéticas e formais. Significa perscrutar o coração e a mente dos seus consumidores buscando decodificar seus desejos e aspirações ainda não reveladas.
Este exercício criativo, ao invés de copiar as boas idéias alheias, é tarefa para pessoas treinadas na pratica cotidiana da inovação, como é o caso dos artistas, designers e afins. Esta parceria entre criadores e produtores deve ser apoiada, estimulada, fomentada e patrocinada pelas instituições, como o SEBRAE, que atuam no setor pois, salvo exceções, as unidades de produção artesanal assim como as micro e pequenas empresas não possuem capital, e cultura de risco, para investir na contratação destes serviços.
A segunda reflexão está relacionada ao valor monetário que pode ser acrescido ao preço básico de um produto (obtido pela soma do tempo utilizado em sua produção, dos insumos, matéria prima e encargos) cuja margem de elasticidade é determinada em parte pela concorrência, mas principalmente pelo poder e disponibilidade de compra do público visado, fruto da experiência e da vivência que o uso, a proximidade, a contemplação ou fruição que aquele produto proporcionou.
Os consumidores de maior poder aquisitivo, e de maior grau de compreensão/inclinação cultural para o artesanato, a arte popular e o design vernacular, público mais disposto em adquirir produtos de preço mais elevado, não são os freqüentadores habituais das feiras artesanais e lojas de souvenir. Para alcançá-los é necessário uma mudança de estratégia. Trata-se de procurar ir até onde estão, e não esperar que venham até você.
Como fazer isso?
Separando-se da manada, buscando um espaço ou nicho específico que esteja em conexão direta com esse público culturalmente mas exigente. Entrando em seu "habitat", fixo ou provisório, como algo que tem uma história para contar, ou uma emoção para relembrar.
Fazendo parte integrante dos espaços interiores das pousadas e hoteis, dos restaurantes temáticos,das residencias oficiais e dos formadores de opinião.
Fazendo parcerias estratégicas na comercialização, com estes mesmos fornecedores de serviços exclusivos. Como dizem os arqueiros: É mirando (e pensando) mais alto que se acerta o alvo. E o preço se determina de trás para frente. Ou seja,avaliando o quanto vale no mercado a diferença que meu produto possui?
__________ Veja o artigo: "Como calcular o preço de venda de um produto artesanal"
Suponho também que a questão do preço e conseqüentemente a comercialização são os temas mais preocupantes para este grupo de visitantes. Deste modo, me sinto compelido a trazer outras reflexões sobre estes temas.
A primeira delas diz respeito ao valor agregado, ou valor percebido pelos consumidores, expresso na capacidade de atração, de encantamento, de sedução ou de surpresa que um produto é capaz de despertar nas pessoas. Este “algo mais” que distancia um produto do lugar comum, do “déjà vu”, está sobre uma linha tênue que separa o banal do extraordinário. Para alcançar e se manter nesta posição de fronteira é necessário ousar, transgredir, romper as convenções estéticas e formais. Significa perscrutar o coração e a mente dos seus consumidores buscando decodificar seus desejos e aspirações ainda não reveladas.
Este exercício criativo, ao invés de copiar as boas idéias alheias, é tarefa para pessoas treinadas na pratica cotidiana da inovação, como é o caso dos artistas, designers e afins. Esta parceria entre criadores e produtores deve ser apoiada, estimulada, fomentada e patrocinada pelas instituições, como o SEBRAE, que atuam no setor pois, salvo exceções, as unidades de produção artesanal assim como as micro e pequenas empresas não possuem capital, e cultura de risco, para investir na contratação destes serviços.
A segunda reflexão está relacionada ao valor monetário que pode ser acrescido ao preço básico de um produto (obtido pela soma do tempo utilizado em sua produção, dos insumos, matéria prima e encargos) cuja margem de elasticidade é determinada em parte pela concorrência, mas principalmente pelo poder e disponibilidade de compra do público visado, fruto da experiência e da vivência que o uso, a proximidade, a contemplação ou fruição que aquele produto proporcionou.
Os consumidores de maior poder aquisitivo, e de maior grau de compreensão/inclinação cultural para o artesanato, a arte popular e o design vernacular, público mais disposto em adquirir produtos de preço mais elevado, não são os freqüentadores habituais das feiras artesanais e lojas de souvenir. Para alcançá-los é necessário uma mudança de estratégia. Trata-se de procurar ir até onde estão, e não esperar que venham até você.
Como fazer isso?
Separando-se da manada, buscando um espaço ou nicho específico que esteja em conexão direta com esse público culturalmente mas exigente. Entrando em seu "habitat", fixo ou provisório, como algo que tem uma história para contar, ou uma emoção para relembrar.
Fazendo parte integrante dos espaços interiores das pousadas e hoteis, dos restaurantes temáticos,das residencias oficiais e dos formadores de opinião.
Fazendo parcerias estratégicas na comercialização, com estes mesmos fornecedores de serviços exclusivos. Como dizem os arqueiros: É mirando (e pensando) mais alto que se acerta o alvo. E o preço se determina de trás para frente. Ou seja,avaliando o quanto vale no mercado a diferença que meu produto possui?
__________ Veja o artigo: "Como calcular o preço de venda de um produto artesanal"
9 de abril de 2011
Insectopia - Uma proposta interessante
2 de março de 2011
O artesanato dentro da lógica de uma “produção associada”.
Entendo primeiramente a expressão “produção associada” como sendo uma oferta de produtos compatíveis, ou complementares, provenientes de unidades de produção independentes que interagem e cooperam-se entre si, nas distintas fases da cadeia de produção e comercialização. A produção associada presume uma lógica semelhante a dos “arranjos produtivos locais” ou dos “clusters”, com estímulo a constituição de cooperativas de produtores e um plano estratégico comum.
Produtos artesanais com maior qualidade percebida são geralmente feitos com diversos materiais, trabalhados por artesãos diferentes e especializados. Esta soma de materiais e técnicas permite uma maior exploração estética e funcional, tornando o produto único e singular.
Obter um produto artesanal que seja a soma de distintos saberes é um desafio de logística e de gerenciamento (do tempo, dos custos e do individualismo dos artesãos) cujo resultado pode ser o incremento dos ganhos para todos os envolvidos. Esta tem sido a lógica perseguida por alguns projetos, dentre eles os “saberes e sabores do Maranhão”, onde um recipiente de cerâmica dentro de um cesto de palha trançada tem seu valor comercial maior que a soma dos dois produtos vendidos separadamente. O mesmo raciocínio vale para as panelas de pedra sabão de Minas Gerais com suas alças de cobre, ou as cachaças cujas garrafas são cobertas com fibra vegetal trabalhada (Exemplos: Germana e Ypioca) gerando centenas de oportunidades de trabalho.
As jóias, em sua maioria, representam um bom exemplo de produto artesanal cujo altíssimo valor comercial decorre não somente pelos materiais nobres que utiliza, mas também pela qualidade criativa e apuro técnico em sua produção. Outro exemplo são as rendas, que isoladamente possuem um valor comercial cujo teto está muito aquém do valor que poderia alcançar estando associada a uma roupa de luxo.
Estas reflexões remetem a uma outra dimensão do conceito de “produção associada” que é vincular a oferta de produtos a um determinado nicho de mercado. O artesanato pode buscar se associar ao mercado de luxo; ao mercado de turismo; ao mercado de decoração; ao mercado de moda; ao mercado de produtos agro-alimentares ou ao mercado de presentes e lembranças. Para cada nicho de mercado que se desejar atender é necessário fazer preliminarmente um detalhamento da demanda, com informações atuais e confiáveis sobre disposição de compra; sazonalidade; destino da aquisição; preços máximos; tipologias e características.
Cada um destes nichos é constituído de grupos de indivíduos com desejos e expectativas diferentes. Para alguns o valor cultural é o mais importante para outros é a exclusividade, ou a surpresa.
A observação atenta destes grupos demandantes tem permitido apontar algumas janelas novas de oportunidade a serem exploradas pelas unidades de produção artesanais mais dinâmicas, criativas e qualificadas.
Para atender o comercio de luxo é necessárias uma qualidade estética e um acabamento perfeito e diferenciado. O luxo não se expressa pelo valor comercial da peça artesanal, mas por seu valor emocional, trazido pela dimensão humana, presente nas mãos que o produziu. Os consumidores típicos do comercio de luxo possuem hoje acesso a todos os produtos que desejam adquirir. Não existem mais barreiras alfandegárias e os custos de logística permitem o comercio mundial em larga escala ser competitivo.
Estima-se que na Cidade de São Paulo vivam 60 mil milionários. Para eles foram criados os shoppings exclusivos e o comercio da região dos Jardins. Nestes locais existe tudo de melhor que a capacidade criativa do homem foi capaz de produzir.
Esta hiper-oferta qualificada chega a um ponto de saturação quando o seu valor simbólico se banaliza. Quem já tem tudo não deseja o mais do mesmo. Busca o novo, a surpresa e o encantamento. Perceber isso é estar no lugar certo, na hora certa e diante das pessoas certas.
Este é o momento e a oportunidade para oferecer o “luxo emocional” apresentado na forma de um serviço ou produto único, exclusivo, com uma história para contar sobre um tempo e um lugar.
Este mesmo tipo de qualidade espera o turista frente à oferta artesanal, acrescido do fato que o produto deve ser parte ou testemunho da vivencia emocional que esta pessoa experimenta. Para justificar estes argumentos basta verificar o comportamento de três grandes grupos de turistas: o acidental, o tradicional e o existencial. O acidental é aquele viajante que fica entre um e cinco dias em média nos destinos. Viaja por compromisso pessoal, profissional, familiar ou religioso e compra apenas os presentes compulsórios. Já o turista tradicional viaja a lazer, para escapar, se evadir da realidade cotidiana. Em geral não procura o novo tendo em vista o grau de risco que toda novidade incorpora. Quer os serviços e os produtos consagrados, conhecidos, sem surpresas.
E por fim o turista existencial. Este viaja para se misturar com outros povos e outras culturas. Viaja para experimentar, aprender e conviver com o novo. Para estes o produto deve ser um vinculo estreito com o momento e o lugar vividos.
Cresce exponencialmente uma demanda reprimida por produtos de qualidade, feita por um tipo de consumidor sazonal, de nível socioeconômico e cultural mais elevado, disposto a pagar mais por um produto que chame sua atenção e o seduza. Este produto deve estar associado à experiência que se está vivendo. Com o tempo este produto será transformado em prova física, testemunha de um momento especial que sobreviverá apenas na memória.
Porém não basta apenas melhorar ou adequar à oferta ao seu publico visado. É necessário pensar novas estratégias de comunicação, divulgação e comercialização para este artesanato diferenciado.
Os turistas que freqüentam feirinhas e lojas de artesanato vão em busca do souvenir, da lembrançinha, do presente compulsório. O turista existencial adquire aquilo que vem de encontro a ele, mesmo que seja como parte da decoração de sua pousada ou hotel ou dos serviços a ele oferecidos. O convivo natural com estes produtos cotidianos cria uma proximidade entre o usuário e o objeto, uma espécie de intimidade silenciosa, de cumplicidade involuntária, que se transforma em desejo de uma lembrança perene. Para estes a assinatura do artesão na peça é como uma certidão de nascimento. Sem ela a origem é desconhecida e duvidosa.
São estes mesmos turistas que procuram, experimentam e divulgam para o mundo os produtos singulares do território. Estes produtos do “terroir”, em especial as comidas e bebidas típicas, precisam de uma embalagem adequada que coloque em evidência seus diferencias de qualidade.
Qualquer que seja o foco do artesanato, algumas condições de trabalho são necessárias; um método e alguns compromissos. O método preconizado pelo SEBRAE abrange as oito etapas do ciclo de inovação: Identificar demanda; Identificar oferta; Desenvolver produtos; Melhorar processos; Capacitar produtores; Agregar valor; Divulgar e Comercializar.
Dentre os compromissos, atendo-se aqueles definidos pelo Prêmio “TOP 100 do
artesanato”, merecem destaque: inovação; respeito ao meio ambiente; respeito à cultura; responsabilidade social; responsabilidade comercial; preço justo; condições de trabalho adequadas; promoção e comercialização seletiva.
Tudo isso é apenas o principio de uma longa caminhada cuja meta é posicionar o produto artesanal brasileiro no lugar de destaque no mercado mundial reservado para os bens simbólicos de forte expressão cultural.
A palestra que faria dia 23/03 na Fundação Luis Eduardo Magalhães em Salvador, a convite do SEBRAE/BA, onde exploraria melhor estes temas, foi cancelada por razões alheias a minha vontade.
Produtos artesanais com maior qualidade percebida são geralmente feitos com diversos materiais, trabalhados por artesãos diferentes e especializados. Esta soma de materiais e técnicas permite uma maior exploração estética e funcional, tornando o produto único e singular.
Obter um produto artesanal que seja a soma de distintos saberes é um desafio de logística e de gerenciamento (do tempo, dos custos e do individualismo dos artesãos) cujo resultado pode ser o incremento dos ganhos para todos os envolvidos. Esta tem sido a lógica perseguida por alguns projetos, dentre eles os “saberes e sabores do Maranhão”, onde um recipiente de cerâmica dentro de um cesto de palha trançada tem seu valor comercial maior que a soma dos dois produtos vendidos separadamente. O mesmo raciocínio vale para as panelas de pedra sabão de Minas Gerais com suas alças de cobre, ou as cachaças cujas garrafas são cobertas com fibra vegetal trabalhada (Exemplos: Germana e Ypioca) gerando centenas de oportunidades de trabalho.
As jóias, em sua maioria, representam um bom exemplo de produto artesanal cujo altíssimo valor comercial decorre não somente pelos materiais nobres que utiliza, mas também pela qualidade criativa e apuro técnico em sua produção. Outro exemplo são as rendas, que isoladamente possuem um valor comercial cujo teto está muito aquém do valor que poderia alcançar estando associada a uma roupa de luxo.
Estas reflexões remetem a uma outra dimensão do conceito de “produção associada” que é vincular a oferta de produtos a um determinado nicho de mercado. O artesanato pode buscar se associar ao mercado de luxo; ao mercado de turismo; ao mercado de decoração; ao mercado de moda; ao mercado de produtos agro-alimentares ou ao mercado de presentes e lembranças. Para cada nicho de mercado que se desejar atender é necessário fazer preliminarmente um detalhamento da demanda, com informações atuais e confiáveis sobre disposição de compra; sazonalidade; destino da aquisição; preços máximos; tipologias e características.
Cada um destes nichos é constituído de grupos de indivíduos com desejos e expectativas diferentes. Para alguns o valor cultural é o mais importante para outros é a exclusividade, ou a surpresa.
A observação atenta destes grupos demandantes tem permitido apontar algumas janelas novas de oportunidade a serem exploradas pelas unidades de produção artesanais mais dinâmicas, criativas e qualificadas.
Para atender o comercio de luxo é necessárias uma qualidade estética e um acabamento perfeito e diferenciado. O luxo não se expressa pelo valor comercial da peça artesanal, mas por seu valor emocional, trazido pela dimensão humana, presente nas mãos que o produziu. Os consumidores típicos do comercio de luxo possuem hoje acesso a todos os produtos que desejam adquirir. Não existem mais barreiras alfandegárias e os custos de logística permitem o comercio mundial em larga escala ser competitivo.
Estima-se que na Cidade de São Paulo vivam 60 mil milionários. Para eles foram criados os shoppings exclusivos e o comercio da região dos Jardins. Nestes locais existe tudo de melhor que a capacidade criativa do homem foi capaz de produzir.
Esta hiper-oferta qualificada chega a um ponto de saturação quando o seu valor simbólico se banaliza. Quem já tem tudo não deseja o mais do mesmo. Busca o novo, a surpresa e o encantamento. Perceber isso é estar no lugar certo, na hora certa e diante das pessoas certas.
Este é o momento e a oportunidade para oferecer o “luxo emocional” apresentado na forma de um serviço ou produto único, exclusivo, com uma história para contar sobre um tempo e um lugar.
Este mesmo tipo de qualidade espera o turista frente à oferta artesanal, acrescido do fato que o produto deve ser parte ou testemunho da vivencia emocional que esta pessoa experimenta. Para justificar estes argumentos basta verificar o comportamento de três grandes grupos de turistas: o acidental, o tradicional e o existencial. O acidental é aquele viajante que fica entre um e cinco dias em média nos destinos. Viaja por compromisso pessoal, profissional, familiar ou religioso e compra apenas os presentes compulsórios. Já o turista tradicional viaja a lazer, para escapar, se evadir da realidade cotidiana. Em geral não procura o novo tendo em vista o grau de risco que toda novidade incorpora. Quer os serviços e os produtos consagrados, conhecidos, sem surpresas.
E por fim o turista existencial. Este viaja para se misturar com outros povos e outras culturas. Viaja para experimentar, aprender e conviver com o novo. Para estes o produto deve ser um vinculo estreito com o momento e o lugar vividos.
Cresce exponencialmente uma demanda reprimida por produtos de qualidade, feita por um tipo de consumidor sazonal, de nível socioeconômico e cultural mais elevado, disposto a pagar mais por um produto que chame sua atenção e o seduza. Este produto deve estar associado à experiência que se está vivendo. Com o tempo este produto será transformado em prova física, testemunha de um momento especial que sobreviverá apenas na memória.
Porém não basta apenas melhorar ou adequar à oferta ao seu publico visado. É necessário pensar novas estratégias de comunicação, divulgação e comercialização para este artesanato diferenciado.
Os turistas que freqüentam feirinhas e lojas de artesanato vão em busca do souvenir, da lembrançinha, do presente compulsório. O turista existencial adquire aquilo que vem de encontro a ele, mesmo que seja como parte da decoração de sua pousada ou hotel ou dos serviços a ele oferecidos. O convivo natural com estes produtos cotidianos cria uma proximidade entre o usuário e o objeto, uma espécie de intimidade silenciosa, de cumplicidade involuntária, que se transforma em desejo de uma lembrança perene. Para estes a assinatura do artesão na peça é como uma certidão de nascimento. Sem ela a origem é desconhecida e duvidosa.
São estes mesmos turistas que procuram, experimentam e divulgam para o mundo os produtos singulares do território. Estes produtos do “terroir”, em especial as comidas e bebidas típicas, precisam de uma embalagem adequada que coloque em evidência seus diferencias de qualidade.
Qualquer que seja o foco do artesanato, algumas condições de trabalho são necessárias; um método e alguns compromissos. O método preconizado pelo SEBRAE abrange as oito etapas do ciclo de inovação: Identificar demanda; Identificar oferta; Desenvolver produtos; Melhorar processos; Capacitar produtores; Agregar valor; Divulgar e Comercializar.
Dentre os compromissos, atendo-se aqueles definidos pelo Prêmio “TOP 100 do
artesanato”, merecem destaque: inovação; respeito ao meio ambiente; respeito à cultura; responsabilidade social; responsabilidade comercial; preço justo; condições de trabalho adequadas; promoção e comercialização seletiva.
Tudo isso é apenas o principio de uma longa caminhada cuja meta é posicionar o produto artesanal brasileiro no lugar de destaque no mercado mundial reservado para os bens simbólicos de forte expressão cultural.
A palestra que faria dia 23/03 na Fundação Luis Eduardo Magalhães em Salvador, a convite do SEBRAE/BA, onde exploraria melhor estes temas, foi cancelada por razões alheias a minha vontade.
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