27 de outubro de 2011

Prestando contas com o CNPq

Promessas e metas cumpridas em 20 meses.

Creio ter cumprido com meu propósito de pagar, em parte, a dívida que tenho com o CNPq por tudo que me proporcionou na vida. Sinto que estou perto de poder afirmar que os compromissos que assumi desde que retornei a Brasília assim como as metas que estabeleci foram todas alcançadas.

As principais promessas e ações, sobre as quais procurei imprimir a visão estratégica do design, inscritas no âmbito de minha atuação enquanto gestor de recursos humanos, foram:

1. Transparência e abertura ao diálogo
A porta da sala da coordenação geral permanentemente aberta como demonstração de receptividade e transparência. Todas as solicitações de reuniões ou debates feitas por servidores isolados ou em grupo imediatamente atendidas foram a constância e espelho da filosofia de trabalho.

Os três primeiros dias da nova gestão foram dedicados ao Planejamento Estratégico da CGERH com a participação de todos os servidores e colaboradores lotados na área.

Por nossa iniciativa foi recomposto o Fórum dos Coordenadores Gerais. A intermediação efetiva do diálogo dos servidores com a alta direção.

A criação da rede social interna, Entrenós, como veiculo de participação e debate e de incremento das relações interpessoais.

3. O compromisso com os servidores
A implantação do mestrado e doutorado “in company” permitindo 15 admissões ao doutorado junto com o consorcio de Universidades do Rio Grande do Sul e 15 admissões ao mestrado junto com o CDS/UnB atendendo antiga aspiração dos servidores.

Os investimentos na atualização profissional dos servidores, através da organização e oferecimento de cursos, palestras técnicas, e apoio à participação em eventos e congressos com recursos duplicados do Programa de Capacitação.

A avaliação e o monitoramento permanente do grau de satisfação e eficiência no trabalho com o desenvolvimento e aplicação semestral de uma ferramenta de pesquisa estruturada e disponível na Intranet.

A proposição do projeto “Memória do Servidor” para registro da história oral na visão dos servidores aposentados ou em vias de se aposentarem.

A proposição dos “Círculos da Saúde”, de auto-monitoramento, apoiadas por médios, psicólogos e fisioterapeutas.

Resgate da filosofia de "Gestão por competência" atuando na mediação dos processos mais dificeis de movimentação de pessoas, procurando compatibilizar os interesses institucionais com as expectativas e competências individuais.


4. O compromisso com a instituição
A realização de concurso público e a admissão de 96 novos servidores.

A coordenação das atividades alusivas aos 60 anos do CNPq

5. Compromisso com a inovação
A criação e realização dos Primeiros Jogos Internos do CNPq como processo de adaptação às mudanças, melhoria do clima organizacional e incremento das relações interpessoais.

A criação do Passaporte Cultural como atividade de integração em 2012.

A proposição do lançamento de um Edital direcionado às Industrias Criativas (aprovada pela DEX).

A proposta de um projeto institucional para maior aproveitamento do Capital Intelectual disponível na instituição para ampliação da cooperação técnica e intercambio internacional.

A realização de todas essas ações somente foi possível graças ao apoio da Diretoria e da Presidencia do CNpq, dos colegas do Fórum dos coordenadores que acreditaram em nosssas iniciativas e do corpo técnico da CGERH que com competência, comprometimento e disposição tornaram possível colocar tudo isso em prática. A todos eles meus sinceros agradecimentos.

21 de outubro de 2011

A Nona Inteligência

Se Howard Gardner, o autor da “Teoria das Oito Inteligências”, tivesse vivido no Brasil, provavelmente teria descoberto a Nona Inteligência. Aquela típica de nosso temperamento luso-tropical, forjada desde os tempos da colônia, construída sobre a ética do compadrio e do conluio, das vantagens obtidas com a prática de favores e da ocupação dos espaços vazios que nenhuma legislação soube coibir.

Um exemplo típico dessa Nona Inteligência é a capacidade, quase infinita, do brasileiro contornar as leis e as normas com seu “jeitinho” esperto e malandro. É a Lei do Gerson. Para os que não se lembram, logo depois da Copa de 70, em um comercial de televisão, o famoso centro-avante da seleção canarinho dizia que sua opção por determinada marca de cigarros era fruto de sua filosofia, traduzida na frase “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. Errado, respondeu o Brasil em coro, retirando a propaganda do ar e estigmatizando o pobre Jogador que apenas repetiu numa frase idiota, que publicitários idiotas, fizeram sair de sua boca. Como ilustra o wikipedia “ O fato é que a Lei de Gérson acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter nacional, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens pessoais”.

Os anos se passaram e a Rede Globo importa da Holanda um “Reality Show” aqui rebatizado de BBB, cuja essência consiste em colocar um grupo de pessoas em uma casa, em um convívio forçado, numa espécie de “jogo” onde tudo vale. É a lógica do vencer a todo custo, não importando o sentimento dos demais, a ética e a moral.

Para consertar os estragos feitos em nossa frágil moral coletiva serão necessários anos de reeducação e de permanente indignação.

Rui Barbosa em um famoso discurso no Senado Federal, proferiu há quase cem anos uma frase que continua atual nos dias de hoje: ”De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

12 de outubro de 2011

Prêmio SEBRAE TOP 100 do Artesanato


Chega a sua terceira edição o Prêmio que criamos para o SEBRAE em 2006, cujos objetivos são:
• Identificar, premiar e divulgar os casos de maior sucesso na área do artesanato, apontando as 100 melhores unidades de produção cujos produtos transcendam os aspectos puramente estéticos e culturais, colocando em evidência o compromisso social, econômico e ambiental.
• Dispor de informações atuais e confiáveis sobre a realidade do segmento artesanal, permitindo a tomada de decisões sobre a oportunidade e necessidade de projetos e ações para o desenvolvimento sustentável do setor artesanal.

Período de inscrições: De 03 de Outubro a 30 de novembro de 2011

Capacitação dos gestores: 17 e 18 de outubro de 2011
Capacitação dos consultores: 28 e 29 novembro de 2011
Visitas de consultores as unidades: De 10 de janeiro a 30 de março de 2012
Entrega de relatórios dos consultores ao SEBRAE estadual: Abril de 2012
Divulgação dos resultados: Junho de 2012
Evento de premiação e rodada de negócios: Agosto de 2012

http://www.top100.sebrae.com.br/

9 de outubro de 2011

Todas las canciones hablan de mi


“Todas as canções falam de mim” é um surpreendente e bonito filme espanhol, dirigido por Jonas Trueba, que rompe com alguns paradigmas sobre o tempo que uma cena pode durar na tela, entre outras pequenas proezas. Tentar falar do filme é recordar com carinho de dezenas de momentos surpreendentes.

Romero, o personagem principal, esta saindo de uma relação de seis anos. Para ele não está sendo fácil colocar a vida de novo nos trilhos. Seu mundo, seus desejos, suas dúvidas e suas memórias são simples e comuns. Por isso todos se identificam com ele e se reconhecem em seus sofrimentos e angustias. O drama convive com o humor todo o tempo, principalmente com a figura de Lucas, o tipo de amigo que todos nós gostaríamos de ter, sincero, engraçado e humano.

A trilha sonora é de uma qualidade extraordinária, desde a fidelidade aos ruídos simples do cotidiano, como o mastigar de cereais, até o processo de sintonia no rádio de uma música cafona, que toca do principio ao fim, com um Ramiro estático e de costas ouvindo e curtindo sua letra e nos fazendo lembrar de situações idênticas que já vivemos.

As falas dos personagens são as mesmas que já ouvimos da boca de nossos amigos, exprimindo sentimentos com os quais todos nos identificamos, ou fazendo citações geniais. “Todas as cartas de amor são ridículas, porém mais ridículos são aqueles que nunca as escreveram” disse Fernando Pessoa.

O final, uma inesquecível cena de 3 minutos de duração com a música crescendo enquanto Ramiro decide abrir o jogo com Andréa, é arrebatadora e nos deixa com a sensação de que a vida real é mais interessante e charmosa que a maioria das produções de Hollywood.

6 de outubro de 2011

O Design e as tabelas nutricionais


Vivemos em uma Aldeia Global como antevia Marshall MacLuhan nos anos setenta.
Temos hoje a disposição um universo jamais imaginado de informação disponível em tempo real, ao simples toque de um dedo. O Google como ferramenta eletrônica de buscas na internet é hoje uma espécie de “oráculo” devido a sua infinita capacidade de processamento de informações digitais com razoável grau de confiabilidade. O tradutor automático de línguas estrangeiras, inclusive com reconhecimento de voz, já é uma realidade.

Todas estas novas invenções do gênio humano criaram na prática essa aldeia global. Principio da mudança, a mais profunda, na história da humanidade, cuja dimensão mal se consegue hoje imaginar. A idéia decorre do progresso tecnológico reduzindo o mundo à dimensão de uma aldeia onde todos se comunicam com todos, eliminam-se as distâncias e barreiras, e se multiplica exponencialmente o poder do índivíduo.

Os sinais desta mudança no curso da história já são percebidos. No Oriente Médio as revoluções recentes nasceram do twitter. Os internautas de todo o mundo descobriram o poder de sua voz e com isso emerge um sentimento de cidadania global. Quando se rompem as barreiras da comunicação às mudanças sociais surgem como conseqüência. Os indivíduos passam a exigir seus direitos, dentre eles o direito de segurança, sobretudo aquela que privilegie a vida ao invés da propriedade.

A necessidade de comunicação é uma característica nata do ser humano, que desde as cavernas da pré-história deixa as marcas de seus ritos de passagens, cujos significados perderam-se no tempo. Na ausência de uma linguagem escrita nossos ancestrais se valiam de símbolos para expressar e transmitir aos demais seus propósitos ou feitos. Formas geométricas, orgânicas, antropomorfas ou zoomorfas deixaram indícios, mas não certezas sobre seus significados.

Nas sociedades mais desenvolvidas os símbolos fazem parte de sua cultural e representam um conceito, sem a precisão da palavra escrita. A presença ostensiva destes símbolos possui significado e valor. A força de uma imagem, impregnada na memória das pessoas, é a certeza de seu poder de comunicação. Da cruz do Cristianismo a suástica do Nazismo como exemplos diametralmente opostos de credos e intenções, a sociedade foi construindo no imaginário coletivo uma linguagem universal.

Em qualquer país o desenho de uma caveira representa a morte, mesmo que seja como uma broma mexicana, assim como o desenho de um raio como símbolo da eletricidade, são exemplos clássicos da capacidade da comunicação não verbal para expressar o perigo.

Os avanços científicos que permitiram a possibilidade de divisão do átomo, criando a energia atômica obrigaram a criação de um pictograma como o símbolo da radioatividade, de compulsório uso universal, constituído de três segmentos de um círculo.

O vermelho, amarelo e verde nos semáforos de todo o mundo parte desta necessidade de uma informação inequívoca relacionada a preservação da vida.

O mesmo esforço fazem os aeroportos de todo o mundo, buscando adotar a mesma iconografia básica, construindo-se aos poucos um repertório visual-simbólico universal

Em breve a sociedade começará a exigir, por meio de seu maior instrumento que é o poder de compra, que os produtos alimentícios industrializados tenham informações claras e compreensíveis sobre seus possíveis efeitos no organismo humano.

Um saquinho de batatas fritas ou de pipocas teria estampando em sua embalagem ícones representando gordinhos cuja tamanho ou quantidade repetida do icone seria proporcional a taxa de gordura saturada encontrada no produto. Corações riscados ao meio como sugestão de elemento gráfico indicaria a quantidade de sódio, apenas para citar dois exemplos.

As tabelas nutricionais cumpriram um papel relevante de abrir a caixa preta dos alimentos, mas seu conteúdo é incompreensível pela maioria da população, principalmente nas regiões e países mais pobres.

A hipótese de uma iconografia específica e aplicável nas embalagens de alimentos, traduzindo simbolicamente os efeitos sobre o organismo é bastante promissora. Embora já se antevejam dificuldades para sua implementação, devido às legislações e normas ainda vigentes. Um desafio para a ANVISA.

29 de setembro de 2011

Restaurante do Futuro

Em meu conceito o Restaurante do Futuro é aquele que representa e explora a gastronomia regional singular, baseada em produtos do território, cuja preparação, apresentação e consumo são partes indissociáveis, concebidas com o mesmo propósito de oferecer uma experiência vivencial diferenciada, fruto de um projeto multidisciplinar de abrangência socioeconômica, cultural e ambientalmente responsável.

Cada região do planeta possui características de solo, vegetação, clima e tradições que as diferenciam das demais. Em todas elas alguns produtos se destacam por valerem-se exatamente destas características singulares. São produtos que compõe o repertório cultural da região, tido hoje como um ativo turístico a ser explorado.

O consumo destes produtos regionais não obedecem mais, na maioria das vezes, rituais e tradições locais, nem em sua preparação, apresentação ou consumo. Reverter esta situação significa agregar valor a gastronomia através da proposição de uso de utensílios específicos para cada prato típico além de incorporar a preparação como parte do ritual da restauração, onde o consumidor participa como sujeito ativo.

Esta fusão da culinária com a produção de objetos locais e com a valorização dos produtos alimentícios do território cria uma espiral virtuosa, gera mais oportunidades de trabalho e renda para os produtores locais e preservar o patrimônio cultural imaterial.

A demanda por essa gastronomia local é aspiração dos turistas que viajam para aprender e não para comparar. São os turistas vivenciais que buscam uma imersão na cultura do local. É o turismo que se apóia nos meios de hospedagem alternativos, tais como: pousadas, albergues, hotéis de charme, residências temporárias e restaurantes que valorizam a gastronomia local. Estes turistas apreciam o artesanato e a arte popular local, a arquitetura integrada a paisagem, o respeito ao meio ambiente e a responsabilidade social.

O Restaurante do futuro, voltado a este público de maior repertório cultural, oferece não somente a alimentação e a fruição do ambiente, mas uma experiência pessoal, única e singular, do cliente fazer parte de um processo que o integra como agente ativo, participando na elaboração final do prato; levando consigo a receita e comprando os utensílios relacionados.

27 de setembro de 2011

A assimetria e o espelho retrovisor- Pilares da Inovação



A busca da perfeição, em alguns campos da expressão humana, esteve durante muito tempo relacionada com a simetria das formas e objetos, em função do equilíbrio e da harmonia que representa. Isso não traz, somente por si mesmo, um ganho estético. O design de um objeto simétrico tende a ser facilmente banalizado por sua monotonia e previsibilidade, devendo recorrer a outros artifícios como textura e cor para ser notado e memorizado.

O mesmo se aplica ao pensamento e conseqüentemente ao comportamento humano cuja opção preferencial pelos caminhos simétricos, onde um lado é o espelho do outro, conduz inevitavelmente a resultados previsíveis. A simetria é antes de tudo uma visão pragmática, portanto econômica, no mundo das coisas tangíveis. A reflexão simétrica justifica causa com conseqüência, definindo os fenômenos dentro de nossa concepção de espaço e tempo sobre uma linha continua e ininterrupta. Assim enxergamos o passado e sobre essa linha projetamos o futuro, linearmente.

Se, no entanto, abdicarmos desta tentação cartesiana e imaginarmos que o que buscamos é a surpresa e o encantamento, estamos falando da essência e do significado de inovação positiva. O novo, em todas as suas acepções, é tudo aquilo que até então não existia e que para nós aparece sob outra forma ou aspecto. Através do pensamento assimétrico é que conseguimos ampliar nossa percepção daquilo que nos cerca abrindo as portas de outras realidades, mais complexas e mais interrelacionadas.

A dificuldade de lidar com o pensamento assimétrico é a ausência de parâmetros, de balizas que indiquem quanto estamos próximos ou distantes do caminho do meio e do equilíbrio. Isso ao invés de ser uma deficiência do processo mental deve ser visto como sua maior qualidade, pois o caminho do meio costuma ser também o caminho da mediocridade, onde não há sofrimento e nem prazer.

A questão que se coloca é a dúvida de como romper com os paradigmas estabelecidos? Como sair dos quadrados mentais que criamos? Como enxergar o essencial, invisível aos olhos de muitos. Como romper bolhas após bolhas, círculos através de outros círculos? Como uma pedra jogada em um lago, criando formas concêntricas que vão se diluindo à medida que se afastam?

A melhor resposta nos propõe Ítalo Calvino com uma digressão filosófica sobre a importância do espelho retrovisor nos automóveis como inovação que foi capaz de alterar o comportamento humano ao descobrir a possibilidade de ter esse olhar atrás simultâneo ao olhar para frente.

Essa visão assimétrica, capaz de ver lados até então não revelados dos problemas, para propor uma solução que traga prazer e não sofrimento é que deve ser nosso compromisso permanente e exercitado cotidianamente.
Isso serve para o trabalho e para uma vida criativa e feliz.


Leiam também
http://bodisatva.com.br/autocentramento-uma-praga-curavel-sobre-a-sabedoria-do-espelho-retrovisor/

16 de setembro de 2011

Rua Aurora s/n


A alvorada de um novo tempo, um tempo sem tempo, que mistura passado com futuro e onde o presente é apenas a ponte de ligação do impossível (pois já vivido) com o improvável devir, começa agora.

Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas e por isso mesmo o momento de avaliar os caminhos percorridos, de perceber as bifurcações que ficaram para trás e para os destinos (in) prováveis que conduziriam. Estes percursos trilhados, que construíram o momento presente, não podem ser desconsiderados. Foram deles que se condensou a energia para as decisões tomadas, cuja prova de acerto é o fato de estarmos aqui e agora, íntegros e conscientes de nossas possibilidades e potencialidades.

Os destinos prováveis, que serão frutos de nossas escolhas, têm no passado sua referencia. O alinhamento destas ações pretéritas indica trajetórias prováveis, ascendentes ou descendentes, que desenharão o futuro. Se este resultado projetado for diferente das expectativas impõe-se uma correção de rumo, recalculando os prejuízos e ganhos dessa decisão, lembrando que quanto maior for a distancia entre o desejo e o resultado projetado, mas radical deverá ser a mudança de rota exigida.

O fim de um ciclo é o inicio de outro. Como na música, o trem que chega é o mesmo da partida onde a despedida é também encontro, do que foi e do que poderá vir a ser.

3 de setembro de 2011

O futuro do design e o design do futuro

Design é uma palavra inglesa cuja tradução literal significa projeto. Projeto de acordo com nosso léxico é um conjunto de atividades programadas, com tempos e custos definidos, cujo resultado final é algo que até então não existia. Entendido desse modo o design significa um processo de construção consciente de novas realidades.

O futuro do design enquanto atividade (e não processo) encaminha-se para um distanciamento cada vez maior de seu significado acadêmico original, com suas clássicas divisões: design de produtos, design de interiores ou design gráfico. Esta forma de compartimentalização tinha sentido em um momento de afirmação de uma atividade ainda incipiente e pouco conhecida da sociedade como um todo e do sistema produtivo em particular. Hoje, as dezenas de novas especialidades no design são uma resposta a demanda de mercado por inovação.

Cinqüenta anos depois de seu surgimento na América Latina, a palavra "design" começa a ser entendida, em muitos setores da economia, como um processo estratégico para o desenvolvimento de empresas, regiões e países.

Isso porque nas últimas duas décadas o design evoluiu como atividade capaz de propor e introduzir novas ferramentas de inovação, além de orientar a gestão integrada de todas as interfaces de uma empresa, pública ou privada, com seu público consumidor ou usuário, interno e externo, de modo harmônico e coerente. Esta percepção holística da empresa, e de seus produtos e serviços é a característica diferenciadora do "design management".

Novas frentes de atuação também se abriram na medida que setores economicamente marginais se viram na contingência de buscar soluções inovadoras para seus problemas de produto, produção e comercialização, como é o caso do artesanato e dos produtos típicos. Atuar junto as estes setores economicamente deprimidos implica levar em consideração, na mesma ordem de importância dos fatores econômicos e produtivos, as questões de ordem social, cultural e ambiental, principalmente a necessidade de geração de trabalho e renda. O artesanato e a pequena produção local, associada a sua cultura e região de origem, consegue através da agregação de valor colocar em evidência seus atributos qualitativos e diferenciadores, novo foco e demanda do "design social" cujo objetivo permanente é "mudar respeitando as origens".

Com relação aos produtos intangíveis a demanda por inovação tem sido exponencial, com tendência sempre crescente e na mesma velocidade do avanço tecnológico. No universo digital a demanda por inteligência, criatividade e expertise requer um nova abordagem profissional que o design busca suprir, substituindo micreiros e vituoses da computação gráfica.

Para os bens de consumo tradicionais, incluindo vestuário, a liberdade de criação é cada vez maior na medida que desaparecem os impedimentos tecnológicos. Antes um designer se capacitava principalmente no “como fazer”, hoje a preocupação é “o que fazer”, já que tudo é possível.

Saindo da escala micro para a escala macro, cidades e territórios representam um problema cuja solução não pode ser monodisciplinar. A complexidade destes espaços requer uma visão integradora, direcionada para o futuro, sem esquecer as lições do passado. Essa fusão de conhecimentos é o processo de trabalho do "design territorial ou urbano". que atua conciliando interesses, visões e expectativas.

Esta multiplicidade de oportunidades e as múltiplas frentes de atuação que se abriram somente são compreensíveis quando entendemos a natureza do design e sua singularidade no modo de abordagem dos problemas, para quem o conteúdo é que define a forma, seja para comunicar ou suprir uma demanda de produto ou serviço de qualquer natureza.

Design significa para mim, antes de tudo, como uma vontade irrefreável de fazer melhor. É descobrir o oculto, revelar o invisível, identificar a beleza, mesmo nas coisas mais simples do cotidiano.

Essa é a dificuldade de se ensinar design. De certo modo foi isso que me distanciou da sala de aula como professor. Descobri que sensibilidade, capacidade de percepção, talento e ousadia são atributos que se potencializam mas não se transmitem. Sem eles o design é pobre, medíocre, simplório e banal.

Ao se orientar na direção da inovação radical as empresas mais competitivas têm no "design estratégico" seu diferencial de qualidade e de marcado. Apple, Sony e Google são exemplos emblemáticos. Uma revolução a cada nova geração de produtos.

Esta é também a forma de se pensar (e construir) o futuro. Olhando os problemas a partir de todos os seus ângulos, privilegiando a pluralidade nas soluções, focadas no individuo e em suas necessidades, desejos e expectativas, sem comprometer, entretanto, as necessidades das futuras gerações.

Parodiando Stefano Marzano “Cada vez que projetamos (ou consumimos) um produto estamos fazendo uma afirmação sobre o futuro que desejamos”.








27 de agosto de 2011

O Design, a distância e o valor.


Aprendi que um objeto quando visto de longe dele percebe-se primeiro a forma. Com a proximidade suas cores e elementos de distinção e somente de muito perto seu verdadeiro conteúdo. Esse mesmo raciocínio serve para as pessoas.

A distância entra uma pessoa e outra pessoa, ou a um objeto, é um dos fatores que define o modo como as vemos, e portanto o valor que a ela atribuímos.

Essa distância pode ser temporal, física ou emocional.

A distância temporal diz respeito às coisas passadas, ou fora de tempo, e por isso mesmo ganham outra percepção. Essa distância em geral apaga defeitos e impropriedades e valoriza os atributos e qualidades. “...É a distância que faz o mito” disse Humberto Eco, na Ilha do dia anterior.

As pessoas se tornam boas depois de mortas, algumas viram mitos, outras conseguem congelar sua imagem no tempo. As atrizes de cinema guardam sempre esta distância temporal. Quando as vemos já não mais são. Assim como todas as experiências vividas. Existem apenas na memória ou como imagem.

Produtos da vida cotidiana ganham com a distância temporal um valor simbólico, que por sua vez define o desejo de possuí-lo e o “quantum” de esforço que estamos dispostos a fazer com esse objetivo. Quanto mais raro ou exclusivo for um objeto, ou serviço, maior seu valor de mercado.

A distância física diz respeito ao tempo real e as possibilidades nele presentes. É no momento agora que as coisas existem de modo tangível. Essa distância pode estar ao alcance dos olhos, ou alcance da mão. Ao alcance dos olhos a internet tratou de suprir as distâncias imensuráveis. Hoje, pessoas e objetos interagem em tempo real embora fisicamente distantes. Podemos visitar outros lugares, analisar todas as ofertas de produtos e serviços, conhecendo-os muito mais demoradamente e detalhadamente, se essa distância física não existisse.

A distância ao alcance da mão é aquela mensurável pelos meios que dispomos, sejam esses geográficos ou econômicos. Ao alcance da mão não é uma distância medida em centrimentos, metros ou quilometros. É medida pelo desejo e capacidade de superá-la.

Esses desejos, quando percebidos por quem oferece uma resposta satisfatória, definem o valor dessa oferta. Essa é a lei básica dos mercados, e vale para tudo: Quanto maior o desejo maior o valor. O design, o marketing e a publicidade, conscientes disso, criam mitos e objetos de alto valor simbólico

Esse valor simbólico, que incorpora as percepções subjetivas e intuitivas, que é fruto da experiência, da convivência, da fruição, da estética e acrescido de vínculos afetivos, transforma-se em valor emocional, que é finalmente o principal parâmetro para a definição do valor real das coisas, pessoas e lugares. Quando o valor emocional é forte, relativizam-se os conceitos de tempo e distância, que desaparecem ou perdem sua importância.

O design, enquanto método, busca na distância crítica separar as muitas dimensões que compõem o valor de um produto ou serviço para melhor entender as motivações humanas, suas expectativas, desejos e necessidades.

1 de agosto de 2011

Carta a uma jovem designer

Tenho me perguntado durante todos esses anos que venho tentando fazer design em todas as suas formas, expressões e espaços de oportunidades, quais são as reais possibilidades para aqueles que estão agora entrando no mercado.

Esta reflexão ficou ainda mais aguda quando comecei a lecionar e a dizer que se pode viver bem e com dignidade trabalhando com design, bastando saber identificar as oportunidades, as fortalezas e as ameaças, de nós e dos demais.

Porém isso não basta, como não é suficiente, embora importantissima, uma excelente formação e informação de qualidade para vencer no mercado. É necessário uma inteligência diferenciada, que alguns chamam de talento, sem o qual as chances são exponencialmente menores e, se possível, boas relações sociais. Alguns dizem também que é necessário a sorte, Mas a sorte não é a conseqüência de um conjunto de ações e atitudes para que ela ocorresse?

Todos nós temos algum talento, ou seja uma ou mais de nossas múltiplas inteligências mais desenvolvida. O importante é saber direcioná-lo para o design, que requer cada vez mais o aporte de visões e pensamentos distintos.

Howard Garner argumenta que temos oito tipos de inteligência e cada um de nós desenvolve e explora uma ou mais delas de modo mais expressivo.

Considerando a inteligência como a capacidade de solucionar um problema de modo satisfatório e criativo, a partir dos conhecimentos e experiências acumuladas, as inteligências propostas por Gardener são:
1. A Inteligência naturalista, como sendo a capacidade de nos relacionarmos de modo satisfatório com o nosso meio, natural e humano. É a inteligência voltada para a preservação da saúde e da vida.
2. A Inteligência lógico-matemática como sendo a capacidade de pensar de modo abstrato e de tomar decisões em situações de incerteza. É a visão econômica e financeira, do investimento e do lucro.
3. A Corporal sinestésica é o domínio sobre o corpo e seus movimentos, com impulsos e reflexos precisos.
4. A Inteligência musical como a capacidade de registrar e processar sons músicas e harmonias.
5. A inteligência estética e espacial é a capacidade ordenar imagens, objetos e espaços de modo harmônico e satisfatório
6. A inteligência literária e verbal é a capacidade de assimilar idiomas estrangeiros, de expressar pensamentos claros de modo verbal ou oral. É principalmente a capacidade de argumentação e/ou oratória.
7. A inteligência social é a capacidade de conquistar e preservar vínculos afetivos e colaborativos com pessoas em todos os círculos.
8. A inteligência intrapessoal ou emocional é a capacidade de lidar com as emoções, fazendo-as agir a seu favor.

Todos nós temos um pouco destas oito inteligências, mas em uma delas somos melhores. Esse é o nosso diferencial. É por essa qualidade que seremos conhecidos, admirados e respeitados. E para isso é necessário desenvolver e explorar ininterruptamente esta inteligência sobressalente.

Mas nenhuma destas oito inteligências operará sozinha sem a oitava. A inteligência emocional é fortalecida quando se gosta muito daquilo que se faz. Quando se acredita e se investe naquilo que se faz.

Com essa convicção as coisas vão se encaixando, mesmo que pareçam desordenadas e confusas, como são certas encruzilhadas da vida, quando apesar de todas estas certezas, desejos e expectativas as coisas não acontecem. Apesar de tentar todas as possibilidades, de explorar todas as oportunidades, mesmo assim as coisas não acontecem, contratos não se concretizam, os projetos não se realizam. Este é o momento de reavaliar nossas escolhas. E esta pergunta pode acontecer em muitos momentos da vida.

Em qual bifurcação dos caminhos devo seguir?
Na dúvida opte pelo caminho do sonho, pois mesmo se o resultado não for aquilo que se sonhava a simples tentativa terá valido à pena.

18 de julho de 2011

O que me leva a pintar um quadro?

Depois de vinte anos sem tocar em um pincel decidi ocupar meus finais de semana Brasilienses com uma atividade lúdica que tanto satisfação havia me havia proporcionado nos anos que me dediquei exclusivamente à arte. Foram apenas dois ou três anos que passei, em minha juventude, na Escola Guignard antes de descobrir o design. Período suficiente para me revelar o prazer indescritível que a pintura, o desenho, a gravura e a escultura proporcionam. Porém curto para me tornar um artista.

Como os sonhos nunca morrem de repente me vejo comprando tubos de tinta a óleo e pincéis, disposto a dialogar comigo mesmo diante de uma tela em branco.
O que motiva um artista a definir o sujeito de um quadro antes de iniciá-lo? Suponho que alguns querem apenas expressar seus sentimentos e emoções transferindo para o pincel os gestos e movimentos que mais se harmonizam com este estado de espírito. O resultado final sempre surpreende já que não existia uma imagem pré-concebida na mente.

Conheci grandes pintores que definem o motivo de um quadro como um exercício de virtuosismo técnico, na expectativa do aplauso dos pares e da admiração dos amantes da arte. Buscam incansavelmente desenvolver novas técnicas ou aprimorar aquelas que dominam para satisfazer seu ego. Afinal, todo artista se nutre do amor que seu público lhe dedica.

Existem também, talvez em maior número, aqueles que desejam apenas desfrutar o prazer que experimentam no ato de pintar e na tentativa de perenizar com uma imagem uma lembrança ou o testemunho visual de um momento único. Buscam, entretanto, uma coerência entre seus quadros anteriores, na convicção da necessidade de guardar uma relação entre si, expressas no traço, na técnica e na temática que caracteriza e distingue um artista de outro.

Eu decidi usar os pinceis e tintas como quem conta uma estória. Existe por trás de cada tela um discurso não verbal. Uma reflexão sobre um determinado sujeito. Penso na imagem que irei pintar como se fosse a capa do livro dessa estória ficcional.

Conto com meus quadros estórias que nunca serão totalmente assimiladas do mesmo modo que as concebi. Os símbolos e as metáforas visuais dão pistas, mas também podem enganar. Componho imagens abertas à possibilidade para que cada um veja nele as estórias que imaginar.

3 de julho de 2011

Imagens inesquecíveis - Critérios de análise de uma fotografia


Uma fotografia permite duas leituras. A primeira é o registro visual sobre um determinado momento e a segunda o discurso subjacente que traz consigo. As imagens não são apenas pessoas e objetos captados em um segundo de sua existência. São depoimentos visuais de um lugar e de um instante que nunca mais existirão. Contam uma história em função dos elementos que a compõem, da forma como foram dispostos, iluminados, refletidos, focados.

A fotografia de um casa ou de uma edificação pode ser um simples registro de caráter documental-arquitetônico ou um tipo de mensagem visual sobre seu significado e conteúdo. Hospitaleiro ou inóspito, frio ou caloroso, repressor ou transgressor, humano ou cruel...

A dramaticidade de uma imagem é fruto de um instante único. Um movimento, um gesto, um sorriso, um olhar, uma lágrima possuem uma força expressiva exatamente por ser o a captura visual de uma fração de segundo, é o tempo suspenso, que sintetiza uma emoção que perdurará na memória.

Algumas imagens nunca as esquecerei. O andar atrapalhado de Jânio Quadros (refletindo seu governo); a menina correndo nua queimada por napalm, síntese da loucura da Guerra do Vietnã; o olhar messiânico do Che, que escondia a crueldade do personagem; a saia plissada de Marilyn Monroe revelando sua sensualidade ingênua; o Beijo roubado em frente ao Hotel De Ville em Paris; a língua pra fora na atitude debochada de Einstein. Essas são imagens tão fortes que viraram ícones, sonho de todo fotógrafo.

Ao apontar a objetiva de sua máquina fotográfica em uma direção, o fotógrafo sensível olha o visor não com os olhos, mas com o coração. Busca uma emoção e não somente uma imagem estática e sem alma.

Uma fotografia não é somente um retrato de uma pessoa, um objeto ou um lugar. É uma forma de expressão contemporânea, onde todas as intervenções e experimentações são possíveis, sobretudo depois da criação da fotografia digital e das ferramentas de edição de imagens. Novas tecnologias cujos limites de uso e exploração estão ainda longe de serem alcançados.

O sujeito tratado, a força expressiva e plástica da imagem, o dominio da técnica e a mensagem contida são os elementos que definem o valor de uma fotografia, independente de seu tempo e lugar.

2 de julho de 2011

Um novo olhar (design da fotografia)

Existem coisas que de tão vistas não são mais enxergadas. O desenho da cerâmica do piso, de um lugar qualquer que entramos, não consegue ser descrito pela maioria das pessoas, se pedirmos a elas que o façam. Este exemplo se aplica a maioria dos objetos que nos cercam. Estamos cada vez mais submetidos a uma profusão incontrolável de produtos e mensagens, cada uma com seu apelo e história. O excesso de oferta e de informação tem como subproduto a indiferença das pessoas a tudo aquilo que é banal, comum, cotidiano.

Essa mudança comportamental permite duas reflexões. De um lado é o banal, o singular, o cotidiano, o despercebido (pois incorporado a realidade) é que tem valor como produto cultural de um determinado contexto, tempo e lugar. Revelar esta realidade é um desafio, cujo produto é sua valorização por aqueles que não a percebiam.

Por outro lado nosso cérebro está permanente direcionado a perceber o novo.
Registra somente aquilo que surpreende e emociona. Busca permanentemente avançar além dos limites do conhecido. A inovação se transformou na arma estratégica das civilizações.

A idéia de somar as virtudes de casa uma dessas duas vertentes é o desafio.
Inovar tendo a cultura como pano de fundo, aqui entendida, como sendo a janela por onde olhamos o mundo e o mundo nos percebe.

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