29 de abril de 2013

Design Territorial?



Pensar o território de modo mais abrangente, identificando necessidades, desejos, talentos e vocações e disso extrair soluções viáveis e inovadoras, envolvendo os principais atores, é uma abordagem que vem sendo experimentada sob a denominação de Arranjos Produtivos Locais – APL´s aplicada pelo sistema SEBRAE em todo o Brasil. Evolução do conceito de “clusters” tem demonstrado sua capacidade de apoiar o desenvolvimento local. Porém ainda falta nestes projetos às contribuições que o design pode aportar, seja para revelar sentimentos positivos na população, seja para solucionar problemas reais que ainda não foram satisfatoriamente atendidos ou percebidos pelo poder público local.
Uma metodologia específica de design territorial pode ser resumida nos seguintes passos: 
  1. Sensibilização e envolvimento dos atores locais; 
  2. Identificação das aspirações da população, das vocações locais e do potencial de desenvolvimento existente com ênfase aos empreendimentos da Economia Criativa;  
  3. Inventário da matriz identitária da região, em especial de sua cultura material e iconográfica e validação de sua identidade cultural; 
  4. Criação e validação de um “conceito norteador” que traduza de modo afirmativo as qualidades percebidas e identificadas com a cultura do território; 
  5. Desenvolvimento de um projeto de “imagem do território” com definição das formas e veículos de comunicação com a sociedade; 
  6. Cartografia ilustrada do território com e sinalização dos pontos de interesse; 
  7. Melhoria da produção associada ao território e design de embalagens com identificação de origem; 
  8. Desenvolvimento de equipamentos e mobiliário de uso público considerando as matérias primas e capacidade produtiva local; 
  9. Desenvolvimento de projetos de caráter simbólico atrativos de demanda (agendas, rotas e roteiros relacionados às festas e celebrações; praça principal; espaços temáticos, valorização dos pontos de interesse, entre outros).
Em cada uma das etapas acima descritas correspondem técnicas e ferramentas específicas de apoio à decisão no processo de design.
As mais utilizadas são:
  • Planejamento estratégico participativo 
  •  Pesquisa de demandas e tendências; 
  • Pesquisa identitária; 
  •  Oficina Criativa; 
  •  Processos de avaliação e de validação.
Um projeto de Design Territorial necessita de um espaço específico de trabalho, dotado de recursos instrumentais, informacionais e humanos de qualidade e integrado à vida do território, cuja escala seja compatível com o volume de recursos disponíveis e necessidades existentes.

 Laboratórios de Design e Inovação Cultural - Labín
Propus a criação dos Laboratórios de Design Inovação Cultural pela primeira vez durante um evento realizado pela UNESCO na Cidade de Monza, na Itália, em novembro de 2009.
A ideia central é que a inovação também pode ser de ordem cultural, propondo novos produtos e serviços identificados com sua cultura de origem, porém de encontro às necessidades e aspirações da demanda.
Por sua natureza abrangente requer a colaboração de indivíduos capazes de traduzir e aplicar seus conhecimentos na solução dos problemas específicos de natureza técnica, econômica, social e cultural, de modo integrado, ousado, inovador e viável.
Os projetos desenvolvidos possuem um caráter demonstrativo, devendo por essa razão serem acompanhados, documentados e posteriormente difundidos.
É o espaço por excelência para desenvolver um projeto de Design Territorial.

25 de março de 2013

Manifesto – Em memória do LBDI ou “Curtas Histórias do Design – CHD 15X30”



Manifesto entendido aqui  como uma “manifestação dos indivíduos que consideram sua experiência durante o tempo que passaram no LBDI como importante para sua formação como designers e humanistas” através de depoimentos orais, textuais e visuais de sua trajetória profissional após esse período.
Em face da quantidade de antigos colaboradores e amigos do LBDI que devem aderir a essa proposta, e para que todos tenham um tempo reduzido, porém suficiente para dar conta do recado, estipulamos um modelo de evento que chamamos  “Curtas Histórias do Design – CHD 15X30” onde cada participante terá 15 minutos e 30 imagens para sintetizar os aspectos mais relevantes de sua trajetória de vida, experiências, projetos e sonhos.
Para aqueles que não puderem comparecer a possibilidade de apresentação de um audiovisual com o mesmo tempo de duração é possível.  Do mesmo modo os palestrantes que desejarem disponibilizar sua apresentação, pensando naqueles que estiveram ausentes é esperada. Para isso teremos um site, ou blog, especialmente criado para o evento (que se habilita a construí-lo?)
A proposta é realizar este evento em 2015, ano que o LBDI completaria 30 anos de existência, se não tivesse sido extinto em 1997. Nosso evento coincidirá com a realização em Florianópolis da 5ª Bienal Brasileira de Design. Oportunidade de mostrar as novas gerações uma parte da história do design, hoje pouco conhecida.
Mais do que um momento de lembranças e saudosismo será uma oportunidade de novas aproximações, destinos que se cruzaram, tomaram rumos diferentes e agora voltam a se encontrar em um lugar que os uniu, com uma visão de futuro.
Propomos a data de 04 a 07 de setembro de 2015 lembrando que dia 07 será uma segunda-feira, feriado nacional. Com esse formato podemos ter até 80 apresentações, com folga para curtir uma praia pela manhã e festas noturnas.
Acreditamos ser possível realizar esse evento com a participação dos protagonistas assumindo suas próprias despesas de viagem e estadia. Contudo, teremos de buscar apoio junto das instituições que davam suporte ao LBDI, para cobrir as despesas de realização (espaços, equipamentos e acolhimento).
O manifesto em “Memória do LBDI” é ao mesmo tempo uma convocatória e um produto futuro contendo um conjunto de trajetórias que se cruzaram, construíram outros caminhos, assumiram outros desafios, mas permaneceram de certo modo unidos por esse vínculo do passado.   
PS. Será necessária uma imagem gráfica para divulgar. Que tal um trabalho em equipe para começar? Quem se habilita?  

4 de março de 2013

O pensamento do design




Nos últimos anos especialistas em marketing começaram a usar o termo “Design thinking” para definir o pensamento e modo particular como os designers abordam os problemas.  Essas tentativas, por serem formuladas por profissionais de outras áreas, sempre deixaram de apontar detalhes fundamentais que, no meu entendimento, fazem grande diferença entre o pensamento do design e aquilo que chamam de “design thinking”.

Os teóricos do design tentaram explicitar através de estudos e pesquisas a metodologia diferenciada do design, com seus passos e abordagens características, mas nunca se atendo ao mecanismo cerebral que opera esses métodos descritos.

Poucos se preocuparam em abordar características que são indispensáveis em nosso trabalho, como o de decidir diante de incertezas ou de um grande número de variáveis. Atuar dentro de uma lógica nebulosa, que utiliza a intuição como bússola. A intuição é uma característica pouco confiável para muitos e mesmo temerária para engenheiros e tecnólogos, mas vital no design. A essa capacidade de decidir assertivamente, encontrando as soluções mais surpreendentes e inovadoras, damos o nome de talento.

A maioria dos designers, preocupados em fazer, se esqueceram de explicitar o que os distingue de outros especialistas principalmente dos arquitetos, dos engenheiros, dos publicitários e artistas de modo geral. Os designers têm com eles em comum apenas o fato que criarem novas realidades, definindo a cultura material de um tempo e lugar.

Porém é nos detalhes desse processo de criação que começam as diferenças, que embora possam parecer sutis, fornecem a chave para a compreensão desse mecanismo mental. A primeira pergunta que um designer faz é: para quem e por que vou projetar? Quem projeta para si próprio é o artista. O designer projeta para o usuário de seu produto ou serviço, levando em consideração suas necessidades, desejos e anseios, tarefa que exige tempo, informação, ferramentas específicas, sensibilidade e intuição.   

Um designer buscar começar por onde ninguém ainda esteve. Somente assim surgem as coisas verdadeiramente novas e com elas a surpresa e o encantamento. Este processo não usual de abordagem de um problema é fruto do pensamento que acima de tudo questiona e interroga. Um designer é um inconformista por natureza que acredita que tudo pode, e deve ser melhorado.

Designers sabem que os produtos são nossos cúmplices e exprimem o estilo de vida que adotamos. Um designer, por princípio ético, não pode se eximir de sua responsabilidade política, pois ao projetar está fazendo uma afirmação sobre suas convicções, do tipo de sociedade e de futuro que aspira. Este discurso, de difícil adequação na vida real, e em função das exigências do mundo capitalista, é outro elemento fundamental de distinção do “pensamento do design”.

A principal característica do pensamento do design é sua assimetria, ou condição de não linearidade. A linearidade pressupõe um processo de melhoria do grau de qualidade de um serviço ou produto de modo incremental, com modificações ou acréscimos sucessivos sobre um padrão existente.  O pensamento assimétrico corresponde à capacidade de analisar, e vivenciar simultaneamente situações diferentes que se cruzam, se convergem ou se divergem. Essa assimetria permite visualizar novas possibilidades através de caminhos ainda não trilhados, estimulando e propiciando abordagens não convencionais, espontâneas e aleatórias como principio gerador de novas ideias. O pensamento do design explora varias possibilidades, mesmo que sejam divergentes ou antagônicas. Distingue-se por oposição do pensamento linear, racional e previsível. Um designer, consciente que o todo é a soma das partes, começa por enfocar o todo e não uma parte de algo que não esta mais funcionando.

Um designer deve ser também um decodificador de sinais e mensagens, que apontam para mudanças comportamentais da sociedade propondo um futuro diferente do passado. Isso implica em ter o ser humano centro das preocupações, pois dele partem as exigências que devem orientar a busca de soluções. Contudo, o que os homens desejam varia de lugar e tempo. Portanto é necessário focar os indivíduos e precisar seu problema. Cada produto resultante do trabalho de um designer deve considerar desde as necessidades básicas da sociedade até as expectativas e desejos dos pequenos grupos sociais.  

40 anos de atividade profissional como designer, atuando em todas as suas variantes, me permite concluir que é a visão do longo prazo e não no consumo efêmero que distingue o design da publicidade. Começar a partir do todo e não dos detalhes é que diferenciam os designers dos engenheiros. Conceber as interfaces físicas e não o espaço físico é que distancia o designer dos arquitetos. Pensar no usuário e não em si mesmo contrapõe o designer ao artista. O artista pensa no seu publico, o publicitário no consumidor, o tecnólogo no usuário e o designer na sociedade.  

A consciência desse modo singular de pensamento foi sendo por mim percebida com o tempo, a partir das inúmeras oportunidades que surgiram, ou foram criadas, identificando em cada uma delas esse modo distinto de afrontar os problemas. Na maioria destes momentos tive a parceria de Marcelo Resende, responsável por construir comigo parte desse percurso profissional. Sua maturidade, visão crítica, capacidade criativa e paixão pelo trabalho foram meus maiores balizadores. A ele juntei minha ousadia, determinação e intuição.  Juntos nós tentamos fazer e pensar sempre um design inclusivo, fugindo do banal, buscando o frescor das coisas originais.  



Afinal, para que serve o pensamento do Design?
 O pensamento do design serva na prática para buscar (e encontrar) soluções não usuais e inovadoras para um determinado problema que tenha o ser humano como foco, respeitando a diversidade cultural, sem negligenciar de nenhum aspecto do problema, questionado as implicações presentes e futuras que aquelas soluções podem ter, evitando impactos negativos sobre o meio ambiente e sobre a sociedade.