26 de julho de 2010

As origens do Centro de Design do Ceará

Segundo semestre de 1996 e primeiro semestre de 1997
Paulo Linhares à frente da Secretaria de Cultura do Ceará decide incluir o design como uma das linhas temáticas do Dragão do Mar que estava sendo estruturado e para o qual havia designado na função de diretor executivo, Maurice Capovilla.
A proposta inicial consistia em dividir o Dragão em centros temáticos, a saber: Artes; Audiovisual; Dramaturgia; Design e mais tarde a Dança.

Para estruturar estes centros e elaborar o projeto pedagógico alguns contatos e visitas foram programados pela SECULT. Uma destas visitas foi feita ao LBDI - Laboratório Brasileiro de Design, em Florianópolis. Destes contatos foram geradas algumas propostas de ações, uma delas enviada por um escritório de design de Milão. Neste momento Janete Costa, por alguma razão que hoje desconheço, se viu envolvida no processo e manifestou seu descontentamento com o teor das propostas apresentadas e nos instiga a tomar alguma atitude. Retornando de uma viagem ao exterior tomei conhecimentos destas marchas e contramarchas e decido viajar a Fortaleza para discutir uma possibilidade de cooperação.

Como resultado prático desta viagem aceitei o convite para ser diretor do Centro de Design do Ceará e me afastar da direção do LBDI (depois de 10 anos no cargo), desde que algumas condições fossem aceitas, dentre outras ter carta branca para criar não apenas “mais uma escola de design no Brasil” (naquela oportunidade já existiam 67 escolas de design, hoje são mais de 300), mas criar uma escola de design que fosse inovadora e diferenciada das demais, com o compromisso não de distribuir diplomas mas de formar designers para o mercado no exíguo prazo de dois anos. Para isso algumas coisas deveriam ser entendidas e aceitas, como o distanciamento voluntário das normas e regulamentos do MEC; a utilização de professores com base em sua experiência profissional e não somente acadêmica; um sistema de avaliação de acesso e de permanência diferenciado; um horário de dedicação dos alunos em tempo integral; oficinas e equipamentos modernos; estimulo a cooperação internacional; sistema modular para permitir oferecer disciplinas em bloco e com isso atrair grandes nomes do design residentes no exterior na qualidade de professores visitantes, entre outros desafios.

Em que pese sua importância econômica e cultural no cenário nacional, o Ceará era então um dos poucos estados do Nordeste que ainda não dispunha de cursos no âmbito do Design. Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Bahia possuíam cursos nesta área desde o final dos anos 70 e inicio da década de 80.

Nosso argumento de criar um curso “diferenciado” se baseava na necessidade de oferecer ao mercado profissionais aptos para atenderem reprimidas da sociedade, das empresas e do próprio Dragão do Mar (empresas criativas). Para isso não era possível esperar de 5 a 6 anos entre a criação do Centro de Design, aprovação do curso e a formatura da primeira turma, caso optássemos seguir um modelo institucionalizado de ensino superior.

O instituto Dragão do Mar e o Centro Cultural eram uma coisa só no projeto original. O primeiro seria o responsável pela formação da nova geração de profissionais e o segundo seria o espaço para apresentação dos resultados e da produção realizada no Instituto.
O projeto que idealizamos e implantamos era um sonho tornado realidade. Um desejo de todos nós que sempre buscamos um modo novo; eficaz; comprometido com as condições sócio-culturais e econômicas regionais; de ensinar design.

Tentamos implementar a maioria das recomendações emanadas da “Carta de Canasvieiras” histórico documento conclusivo do Primeiro encontro das Escolas de Design do Brasil realizado no final de 1989.

Trouxemos à Fortaleza os melhores professores de design do Brasil e também da Argentina, Chile, México, Espanha, Itália, Holanda, Alemanha, apenas para citar aqueles que e memória guardou de modo seletivo. Muitos destes maestros já não estão mais entre nós, mas o pouco tempo que passaram conosco deixaram marcas profundas.

Quando estávamos em pleno desenvolvimento da terceira turma, o CDC foi fechado, sepultando uma experiência pedagógica considerada uma das mais notáveis, realizada na América Latina, segunda avaliação de uma pesquisadora da Universidade da Flórida.

Contudo aqueles que passaram pelo CDC foram à luta, consolidaram uma massa critica extraordinária e hoje se posicionam dentre os melhores designers do nordeste do Brasil.

Este texto foi um pedido dos organizadores do próximo encontro de estudantes de design do Ceará que gostariam de conhecer esta história de modo mais detalhado, pelo que, de antemão, me desculpo pelas imprecissões, fruto de um olhar já meio embaçado pela decepção e pelo tempo.

3 comentários:

  1. Professor Eduardo, se é que me permite chamá-lo assim, afinal eu o conheci como professor, quando tive a oportunidade de participar da seleção daqueles que, poderiam de alguma forma, ter a oportunidade de aprender o que realmente significava design. Como cearense que me orgulho de ser, sinto muito pelo que ocorreu no CDC.
    Quem mais perdeu com tudo isso sem dúvida nenhuma foi o Ceará como um todo: estudantes, professores e principalmente o mercado que ainda é carente de mais empresas e profissionais qualificados no setor.

    Os poucos dias em que tive contato com os professores do CDC, foram suficientes para “abrir meus olhos”. Pude finalmente entender melhor o que realmente significava ser um profissional de design. Até então para mim, tudo isso não passava de pura utopia e que essa realidade só era possível para quem estava no Sul do país. Não pude prosseguir no curso, pois um acontecimento trágico me obrigou a mudar de cidade.

    Mas com certeza, minha maneira de ver o design mudou radicalmente. E devo isso aos professores que tive o privilégio de conhecer.

    Muito obrigado pela chance professor.

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  2. Fico muito triste por este sepultamento, eu sempre quis fazer este curso de design, ficava ligando toda semana atrás de uma vaga que não apareceu, fiquei triste quando soube que não haveria mais turmas, uma perda mesmo, vários anos depois, conheci algumas pessoas que passaram por estas tres modestas turmas, e que hoje são grandes designers, as vezes os comparo a outros recém formados, que não tem 30% do conteúdo destas pessoas deste centro de Design. Espero que um dia talvez volte este curso pois ainda tenho vontade de participar.

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  3. Bom dia,

    Sou designer e criei um produto inédito e premiado: o Anjo da rede.

    Ficaria agradecido se seu blog sobre design pudesse me ajudar a divulga-lo.

    Desculpa o incomodo.

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    www.anjodarede.com
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    Um abraço,

    Jorge Sá Ribeiro
    94 9150-9869

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