11 de março de 2009

Centro de Design do Ceará - Soprando cinzas...

Muitos me perguntam como e porque o CDC acabou. Este artigo que segue, escrevi em março de 2003, e conta bem este processo.

Em 1996 o então Secretario de Cultura do Ceará, Paulo Linhares, empreendeu um grande esforço no sentido de implantar uma nova política cultural baseada no estimulo à industrial de bens simbólicos de alto valor agregado, inserindo em seus planos a criação de uma Escola de Design.

Neste sentido, diversas instituições de ensino foram visitadas e uma proposta foi formulada por professores de uma conceituada escola de Design do Rio de Janeiro, que no entanto por seu academicismo e idéias de ensino ortodoxas foi rejeitada. Buscava-se uma proposta mais ousada e adequada ao Ceará.

Uma visita de uma alta funcionária da Secretaria de Cultura do Ceará ao Laboratório Brasileiro de Design / LBDI, em Florianópolis, abriu a perspectiva para uma colaboração, tendo em vista, principalmente, as experiências pioneiras de ensino que estavam sendo testadas em Santa Catarina.

Diante da eminência de uma assessoria proposta por um designer Italiano, (aquele mesmo de sempre!...) cuja postura permitiam antever o caráter eurocentrista de suas propostas, que nada acrescentariam ao Ceará e ao Brasil, a equipe do LBDI decidiu formular um projeto de escola alternativa contando com a intermediação da arquiteta Janete Costa.

A proposta deixava claro que não se pretendia criar (naquele momento) a 68a escola de Design do país, pois as escolas existentes já eram mais que suficientes. A proposta do LBDI defendia a criação de uma escola pioneira, inovadora em sua forma e conteúdo, livre das amarras do MEC e dos sistemas formais de ensino, sintonizada com as mudanças do mercado e as necessidades do nordeste.

Para desenhar as bases desta nova Escola de Design constitui-se um pequeno grupo de professores que durante uma semana, em Fortaleza, estabeleceram as bases do projeto pedagógico. Este grupo era coordenado por mim e contava com os seguintes convidados:
• Augusto Morello, Fundador do ICSID. Presidente da Trienal de Milão. Um dos pioneiros do design Italiano. Editor e critico da Revista Estilo e Industria. Falecido em 2001.
• Luis Rodriguez Morales; designer Mexicano; PhD. Viveu e trabalhou no Japão, Inglaterra, Dinamarca, Holanda., Cuba e Brasil. Um dos mais consagrados autores sobre teoria e ensino do design na América Latina.
• Joaquim Redig; designer; professor da UFRJ. Autor de três livros sobre ensino do Design.
• Romeu Damaso; Professor da Escola de Design da UEMG.
• Lia Mônica Rossi; MsC; Professora no Curso de Design da UFPB.

Este grupo propôs a criação de uma escola cujo ensino fosse fundamentado em três pilares:
• Domínio de linguagens
• Compreensão de fenômenos
• Aplicações na realidade.

Foi sugerida uma grade curricular com quase 100 disciplinas de modo a dar a mais ampla visão possível do universo do design, sem concentrar-se em nenhuma especialidade, contrariando assim as recomendações do MEC porém indo de encontro ao modelo de ensino que estava sendo adotado nas escolas de design mais avançadas do mundo.

Esta escola não formaria designers Industriais, gráficos ou de interiores e sim DESIGNERS. Cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e não mais fazedores de produtos e imagens apenas para induzir o consumo.

Ao final de cada etapa o aluno teria uma visão bastante ampla dos possíveis campos de atuação, formando uma espécie de espiral de competência com graus crescentes de complexidade.

No ultimo período seriam concentrados esforços no sentido de preparar os alunos para o mercado de trabalho constituindo eles próprios suas empresas de design. O circulo se fecharia com a criação da primeira Incubadora de Empresas do país de modo a garantir a inserção destes jovens designers no mercado de trabalho.

Devida a escassez de professores com experiência em design no Estado do Ceará decidiu-se concentrar as disciplinas em bloco viabilizando assim a vinda de professores de outros estados do Brasil, ou mesmo do exterior.
Como estes professores seriam remunerados por hora-aula e sem vínculos poder-se-ia pagar um valor mais atraente.

Para cobrir as despesas com hospedagem e alimentação a SECULT valeu-se de uma dívida do Hotel Othon com o Governo do Ceará, que seria assim amortizada. Para cobrir as despesas de passagens e honorários foi montado um projeto que foi aprovado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT do Ministério do Trabalho. Recursos adicionais, incluindo bolsas para professores visitantes, foram negociados e obtidos com outras instituições, tais como: CNPq e SECITECE que permitiram adquirir computadores e equipamentos para as Oficinas.

Estas decisões permitiram trazer professores da Alemanha, Bélgica, Holanda, Argentina, Chile, Colômbia, México e Estados Unidos, fazendo com que o time de professores do CDC não encontrasse paralelo em nenhuma outra escola de design.

Em disciplinas cujo conteúdo não eram específicos de Design foram convidados os melhores professores locais entre eles Claudia Leitão (no momento da redação deste artigo, 03/2003) Secretaria de Cultura do Ceará.

O processo de seleção consistia em um preparatório com cujo numero de alunos era o dobro ou o triplo da vagas. Durante dois meses, avaliações semanais de desempenho, iam fazendo uma seleção natural dos mais talentosos. Devido ao esforço empreendido a forma de ensino e a qualidade dos projetos desenvolvidos pelos alunos, despertou a curiosidade internacional.

Em artigo publicado em uma Revista Internacional a pesquisadora da Universidade da Florida, Maria Bernal, colocava o CDC como uma das duas experiências de maior sucesso no ensino de design na América Latina, ao lado da Universidad de las Américas, de Puebla / México.

O Êxito do CDC deveu-se, principalmente aos seguintes fatores:
• Preocupação em capacitar para o mercado e não diplomar os alunos (Diplomar somente se isto não significasse prejuízo para o modelo de ensino o que somente ocorreria com a promulgação das novas diretrizes curriculares para o ensino de design, pelo MEC);
• Inovador sistema de avaliação baseado em afirmações lingüísticas e aplicação bilateral (alunos e professores. Todos avaliam tudo e a todos);
• Aprendizado baseado na experimentação e em projetos reais;
• Foco nos elementos da cultura regional porém cotejados com as tendências mundiais;
• Apoio financeiro (isenção de pagamento) somente para os que necessitam e com um processo seletivo baseado no mérito.
• Acompanhamento pedagógico por profissionais com larga experiência docente de projeto, fazendo a ligação entre conteúdos;

Deste modo duas turmas foram concluídas entre 1997 e 2000.

A saída de Maurice Capovilla, da Direção do Instituto Dragão do Mar em meados de 2000 e sua substituição por Silas de Paula significaram o princípio do fim do projeto inicialmente idealizado.

O clima de confiança e respeito mútuo, de camaradagem e de compromisso ético até então existentes foram substituídos pela arrogância, pela prepotência e pela truculência das decisões do novo diretor do Instituto.

Diante deste quadro as mudanças inevitáveis ocorreram na direção do CDC com a minha saída em julho de 2001 e do Coordenador pedagógico Marcelo de Resende.

O novo diretor do CDC, Álvaro Guillermo ainda tentou manter as propostas iniciais, mesmo diante da escassez de recursos e dos novos métodos de administração. A expectativa de todos era por uma mudança do comando da SECULT com a eleição de um novo Governador que poderia então permitir retomar os rumos inicialmente traçados.

As mudanças efetivamente vieram com o novo governo porem não aquelas esperadas. Embora todos estivessem confiantes no apoio da nova Secretária de Cultura (tendo em vista os muitos laços profissionais entre ela e os muitos protagonistas deste projeto), o Instituto Dragão do Mar foi extinto e com ele o projeto do Centro de Design do Ceará, sem que seus autores e aqueles que nos últimos anos dedicaram seu tempo e seu esforço ao Estado do Ceará, tivessem sequer sido chamados a opinar.

Um dos argumentos utilizados nos discurso oficial foi o “fim dos recursos do FAT e da necessidade de adequar o curso à realidade de um Estado pobre” .

Tristes argumentos. Para os bons projetos sempre existirão recursos. Afinal, para onde foram os 900 mil reais destinados pelo SEBRAE para apoio ao design no Ceará em 2003? Com o prestigio das atuais autoridades não seria difícil conseguir um re-ordenamento destes investimentos. Com nossas relações internacionais não seria difícil conseguir novos convênios de cooperação técnica viabilizando a vinda de professores, como já estava acontecendo antes de nossa saída.

Com toda a franqueza, a maior pobreza que vi no Ceará foi a de espírito, daqueles que perderam a capacidade de sonhar e acreditar.

A proposta de transferir o Curso de Design para o SENAC (bem ou mal intencionada, jamais saberei...) significou uma radical mudança do modelo de ensino até então defendido. O fim de uma utopia que estava dando certo. Mais uma vez, a vitória do formalismo acadêmico sobre a ousadia e a inovação, exatamente os princípios norteadores do design. Durou pouco esta experiência. A terceira turma nunca conseguiu concluir seu curso.

O que nos consola são as palavras de Joaquim Redig, grifadas ao final de seu livro “O sentido do Design” esperando que as mesmas um dia se transformem em realidade: “..ou a Universidade muda a sua forma de ensinar ou o ensino vai se mudar da universidade”.

Eduardo Barroso
17 / março de 2003.

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